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Expansão dos shows ao vivo cria crise silenciosa para artistas fora da elite da música

Cancelamentos e adiamentos de turnês mostram como o público passou a selecionar quais artistas justificam ingressos cada vez mais caros

Mateus Omena
Mateus Omena

Repórter

Publicado em 17 de maio de 2026 às 10h00.

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A escalada dos preços dos ingressos para shows começa a pressionar artistas pop que não pertencem ao grupo das maiores estrelas da indústria musical. Enquanto nomes como Taylor Swift e Beyoncé seguem mobilizando multidões dispostas a pagar valores elevados, parte da chamada classe média do pop enfrenta dificuldades para sustentar turnês em arenas.

Nos últimos meses, artistas como Zayn Malik, Post Malone e Pussycat Dolls anunciaram adiamentos, reduções ou cancelamentos de turnês. No caso do grupo feminino, apenas uma apresentação nos Estados Unidos foi mantida após a revisão do cronograma.

"Quando anunciamos a turnê PCD FOREVER, esperávamos levar o show para fãs do mundo todo", disse o grupo em um comunicado. "Após analisarmos honestamente a turnê na América do Norte, tomamos a difícil e dolorosa decisão de cancelar todas as datas, exceto uma."

Embora Malik, Malone e Meghan Trainor tenham atribuído as mudanças a motivos distintos — incluindo problemas de saúde, conflitos de agenda e compromissos familiares — parte do público e da imprensa passou a relacionar os cancelamentos à baixa procura por ingressos. Nas redes sociais, usuários compartilharam mapas da Ticketmaster com diversos assentos disponíveis, fenômeno apelidado de “febre do ponto azul”.

A percepção de esgotamento financeiro do público, no entanto, não indica necessariamente uma retração da indústria de shows. O movimento expõe diferenças entre artistas capazes de sustentar ingressos mais caros e nomes cuja demanda já não acompanha os custos atuais do mercado.

O preço médio dos ingressos para shows chegou a US$ 144 em 2026, contra US$ 82 em 2020, segundo a revista Fortune.

Para Rebecca Haw Allensworth, professora visitante da Faculdade de Direito de Harvard, os preços elevados refletem diretamente o comportamento do consumidor. “A maior parte da motivação por trás desses grandes e caros shows é simplesmente a disposição das pessoas em pagar”, afirmou anteriormente à Vox.

TORONTO, ONTÁRIO - 14 DE NOVEMBRO: USO EDITORIAL APENAS. PROIBIDA A PUBLICAÇÃO INDIVIDUAL (PROIBIDO O USO EM PUBLICAÇÕES DE INTERESSE ESPECÍFICO OU DE UM ÚNICO ARTISTA; PROIBIDO O USO EM LIVROS). Taylor Swift se apresenta no palco durante a turnê

Taylor Swift: "The Eras Tour" foi uma das turnês mais caras da indústria da música (Emma McIntyre/TAS24 / Colaborador/Getty Images)

Artistas como Taylor Swift, Beyoncé, Olivia Rodrigo e Harry Styles seguem registrando alta demanda mesmo com ingressos que chegam a milhares de dólares.

Olivia Rodrigo ampliou sua agenda em mais de 20 apresentações após a procura por sua turnê em arenas superar as expectativas. A cantora também anunciou uma sequência de 10 shows no Barclays Center, no Brooklyn, superando o recorde de residência anteriormente atribuído a Jay-Z. Harry Styles, por sua vez, programou 30 apresentações no Madison Square Garden, em Nova York.

O que acontece fora do pop?

O cenário também se repete fora do pop tradicional. Noah Kahan, artista ligado ao folk-rock, vendeu mais de 1 milhão de ingressos para sua turnê de estádios de 2026, segundo o The Wall Street Journal. Mesmo com o programa Face Value Exchange, da Ticketmaster, que impede revendas acima do valor original, os ingressos para áreas próximas ao palco chegaram perto de US$ 500.

A Live Nation registrou US$ 3,79 bilhões em receita no primeiro trimestre de 2026, alta de 12% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Parte dos consumidores direciona críticas à Live Nation, empresa que recentemente foi considerada culpada por um júri federal por manter um monopólio ilegal. Ainda assim, agentes do setor afirmam que a dinâmica de preços também reflete a relação entre oferta e demanda.

Howie Schnee, presidente e coproprietário da promotora de eventos CEG Presents, afirmou que o atual cenário favorece artistas com forte conexão com o público. “A autenticidade e o talento estão indo incrivelmente bem”, disse. Ele citou Noah Kahan, Billy Strings, Phish e Goose como exemplos de artistas com base de fãs consolidada.

Segundo Schnee, casos recentes de cancelamentos não representam necessariamente uma crise estrutural na indústria de shows, mas sim erros de cálculo sobre o potencial de venda de determinados artistas.

Post Malone, por exemplo, iniciou uma nova fase voltada ao country e colocou ingressos à venda antes mesmo do lançamento do novo álbum. Já artistas como Zayn Malik, Meghan Trainor e Pussycat Dolls enfrentam o desafio de converter antigos sucessos em demanda atual por shows com preços mais altos.

O aumento nos custos de transporte, hospedagem e alimentação também influencia a decisão dos consumidores. Schnee relatou que gastará cerca de US$ 1.400 para assistir a um show de Bruce Springsteen no Madison Square Garden com a família.

“As pessoas definitivamente precisam tomar uma decisão”, concluiu. “Elas não podem fazer tudo.”

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