Para ir além das cidades, Loggi demite — e contrata — às dezenas

Empresa demitiu pelo menos 60 funcionários, enquanto tem outras 150 vagas abertas. A startup passa por reestruturação para focar em áreas prioritárias

A startup de logística Loggi está demitindo e contratando às dezenas — em uma nova leva de reorganização interna. A companhia demitiu cerca de 60 funcionários de áreas como comercial e marketing. Na outra ponta, está com 150 vagas abertas em operações, tecnologia e experiência do cliente, segundo EXAME apurou.

A meta estabelecida pela empresa no ano passado para os próximos três anos é multiplicar por 50 o número de entregas mensais, para algo como 150 milhões. Para isso, a companhia investe em automação de processos e em novas frentes de negócio — motivos que ajudam a explicar as demissões e contratações. Além de entregar qualquer produto dentro das cidades, a Loggi quer ampliar suas entregas nacionais, passando a competir mais diretamente com operadores logísticos.

Para as demissões, a Loggi alegou aos funcionários corte de custos e metas que não estavam sendo batidas. Procurada, a empresa não confirma o número de demissões. Em nota, a empresa afirmou apenas que “prioriza o equilíbrio financeiro e as boas práticas para um crescimento saudável”.

“A reestruturação da empresa foi necessária para seguir com eficiência e foco nas suas áreas de atuação. A empresa ressalta que segue com o compromisso de investimentos, alinhados ao seu plano de expansão e desenvolvimento de produtos. As contratações continuam, principalmente na área de tecnologia, inclusive em seu novo escritório, em Portugal“, diz o comunicado da Loggi.

Fundada em 2014 pelo francês Fabien Mendez em São Paulo para entregas curtas, a companhia cresceu cerca de 150% em 2019, tem mais de 1.000 funcionários e é avaliada em 1 bilhão de dólares. O serviço da startup cobre hoje 40% da população brasileira, conectando motofretistas a empresas que desejam fazer uma entrega.

Outra meta para este ano, segundo Mendez afirmou em novembro passado a EXAME, é lançar oficialmente um braço de franqueados, batizado de Loggi Leve, projeto no qual a empresa trabalhou ao longo de 2019. O objetivo é usar as franquias para expandir os serviços de entregas para além das grandes cidades e alcançar os mais de 5.000 municípios do Brasil até o fim de 2020, fazendo entregas em até 48 horas mesmo em locais remotos.

A Loggi foi o primeiro unicórnio brasileiro do ano em 2019 após receber um aporte de 150 milhões de dólares liderado pelo grupo japonês Softbank, que contou também com os fundos GGV Capital, Fifth Wall e Velt Partners, além da Microsoft. Além da Loggi, o Softbank investe em outros unicórnios brasileiros (empresas com valor de mercado acima de 1 bilhão de dólares), como a Gympass, de planos de academias, e a QuintoAndar, plataforma de aluguéis.

As demissões da Loggi levantaram questionamentos sobre uma eventual pressão do Softbank para que as empresas investidas pelos japoneses façam cortes e otimizem a operação de modo a buscar mais rapidamente o lucro, embora sem deixar de lado o crescimento estratégico.

O Rappi, outra empresa que recebeu investimentos do Softbank, demitiu 6% de seu quadro de funcionários na América Latina em 2020. No exterior, também passaram por levas de demissões nos últimos meses outras startups com dinheiro do Softbank, como Oyo, de hotéis, Getaround, de compartilhamento de carros, e Zume, de produção automatizada de refeições.

Em nenhum dos casos as empresas vincularam as demissões a pedidos do Softbank. A WeWork, de escritórios compartilhados, foi a única intervenção mais direta do grupo japonês revelada publicamente — o Softbank está à frente da companhia desde setembro passado, com a saída do fundador Adam Neumann.

No ano passado, o Softbank passou a sofrer questionamentos acerca de sua estratégia de investimentos depois de investir mais de 10 bilhões de dólares na WeWork e ver o IPO da empresa fracassar após prejuízos bilionários. A Uber, outra das empresas com aportes do Softbank, conseguiu ir à bolsa, mas também sofre com prejuízos e só agora começou a publicar projeções mais concretas de lucro. Os prejuízos do Vision Fund, fundo bilionário do Softbank para aportes em startups, fizeram o lucro geral do grupo japonês cair mais de 90% no quarto trimestre de 2019.

Loggi Entregas: criada em 2014 para enviar documentos, Loggi cobre hoje 40% da população brasileira

Entregas: criada em 2014 para enviar documentos, Loggi cobre hoje 40% da população brasileira (Loggi/Divulgação)

Batalha judicial

Para além da reestruturação, a Loggi terá ainda nos próximos meses o desafio de vencer na Justiça a batalha para provar seu modelo de negócio. Em dezembro do ano passado, a 8ª Vara do Trabalho de São Paulo decidiu que a Loggi deveria contratar como funcionários seus entregadores, em ação foi movida pelo Ministério Público Trabalhista. A decisão contra a Loggi foi suspensa semanas depois pelo Tribunal Regional do Trabalho.

Na ocasião, a Loggi lamentou a decisão e afirmou que os motofretistas que trabalham com a empresa são apenas prestadores de serviço, e que a companhia exige que todos se regularizem como MEI (microempreendedor individual), o que os coloca dentro de um regime jurídico já previsto na legislação brasileira e garante algum tipo de proteção social. No regime de MEI, os profissionais são classificados como autônomos, mas pagam impostos reduzidos de pouco mais de 50 reais ao mês e têm cobertura da Previdência para aposentadoria, acidentes e afastamento do trabalho.

O mesmo problema acontece em outras startups da chamada “economia compartilhada”, que usam profissionais como entregadores e motoristas parceiros — como Uber, 99, iFood e Rappi. Nestes casos, as empresas não obrigam os parceiros a se cadastrar como MEI.

O iFood, que conecta restaurantes a clientes e tem um braço próprio de logística para entrega de refeições, foi alvo de ação similar, também movida pelo Ministério Público do Trabalho, mas o resultado foi diferente: a ação foi julgada pela 37ª Vara do Trabalho de São Paulo, que deu ganho de causa para o iFood e concluiu que os entregadores não são funcionários da empresa.

“É comum que varas trabalhistas diferentes deem decisões diferentes sobre casos parecidos, o que aumenta a insegurança jurídica no Brasil. É um modelo novo para o Judiciário, e que está sendo trabalhado para chegar ao melhor formato. A decisão só vai ser pacificada quando chegar a instâncias superiores”, diz a advogada Claudia Abdul Ahad, sócia do escritório Abdul Ahad Advogados.

Entre reestruturação, crescimento e batalhas judiciais, a Loggi terá uma série de barreiras a superar nos próximos meses — que vão muito além dos problemas de logística no Brasil.

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