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Na vida após Black Lives Matter, empreendedores negros ganham destaque

Quase um ano depois do auge dos protestos, pequenos negócios ainda aproveitam o novo momento social para ganhar visiblidade; um dos esforços nessa frente é o "Dia da Libra Negra", no Reino Unido

Para Aimée Felone, cuja livraria infantil em Londres vende histórias com personagens etnicamente diversificados, os protestos do Black Lives Matter no verão passado foram, em uma palavra, avassaladores. "Nunca tínhamos chamado tanta atenção", disse Felone. Pessoas em todo o país pediam livros antirracistas e procuravam empresas com proprietários negros, como sua loja, a Round Table Books, como uma forma de ajudar a reverter anos de desigualdade racial e econômica. No início de junho, as vendas da loja dispararam.

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Mas as restrições da pandemia fecharam o armazém da loja. Duas semanas depois, os quatro funcionários da livraria tinham dificuldades para atender aos pedidos on-line. Todos os livros de uma editora ligada à livraria, que Felone também ajudou a criar, esgotaram-se. Novos clientes ficaram impacientes. "As vendas foram maravilhosas. O problema foi o estresse adicional que muitas pessoas não percebem que estão depositando sobre as pequenas empresas negras que estão tentando ajudar", observou ela.

Quase um ano depois do auge dos protestos, que pode ter sido o maior movimento social da história dos Estados Unidos e rapidamente se espalhou pelo mundo, as empresas procuram maneiras de converter esse surto caótico de interesse em vendas regulares e confiáveis.

No Reino Unido, uma iniciativa foi criada pelo rapper britânico Swiss. Ele a chama de Dia da Libra Negra, e a ideia é simples: uma vez por mês, as pessoas devem gastar dinheiro com empresas que pertencem a negros. "É para trazer dinheiro e tentar distribuí-lo em nossa comunidade. Nem sempre podemos contar com o governo, por isso temos de nos voltar para dentro e criar soluções próprias. O Dia da Libra Negra é uma delas", afirmou Swiss em entrevista.

Os Dias da Libra Negra são promovidos no primeiro sábado de cada mês, e há alguns sinais de que a ideia está funcionando. O primeiro Dia da Libra Negra, em junho do ano passado, causou um salto repentino nas vendas das empresas participantes – com algumas excedendo a receita do mês anterior em um único dia, de acordo com um estudo realizado pela Jamii, empresa que apoia negócios negros, e pela Translate Culture, agência de marketing.

Tão importante quanto isso é o fato de que as empresas que participam do Dia da Libra Negra continuam a ser recompensadas todos os meses com vendas mais altas, segundo Khalia Ismain, fundadora da Jamii.

O conceito é uma variação de outras iniciativas que visam aumentar o faturamento da população negra por meio da reunião de recursos. Nos Estados Unidos, a tradição remonta aos bancos negros fundados depois da Guerra Civil, quando os negros americanos enfrentavam a segregação e a exclusão dos serviços financeiros. Mais recentemente, pessoas que migraram do Caribe depois da Segunda Guerra Mundial para ajudar a reconstruir o Reino Unido e trabalhar no Serviço Nacional de Saúde – conhecidas como geração Windrush – enfrentaram a discriminação, trazendo uma forma de poupança e empréstimo conhecida como pardner. Pequenos grupos ainda usam esse mecanismo para economizar fora do sistema bancário.

Swiss, de 38 anos, cujo nome verdadeiro é Pierre Neil, cresceu no sul de Londres. Seus avós vieram de Barbados e da Jamaica para o Reino Unido. Aos 17 anos, ficou famoso com o So Solid Crew, grupo amador de hip-hop com dezenas de membros. Em 2001, sua música "21 Seconds" liderou as paradas britânicas. Swiss disse que havia refletido sobre a ideia do Dia da Libra Negra durante anos, observando como os negros pareciam ter poucos negócios próprios.

Mesmo que o Dia da Libra Negra seja uma ideia simples, está eliminando um problema complicado. Apenas cinco por cento das pequenas e médias empresas do Reino Unido têm proprietários negros, asiáticos ou de outras minorias étnicas. Um estudo do British Business Bank, banco estatal de apoio a pequenas empresas, e da empresa de consultoria Oliver Wyman revelou que os empresários oriundos de uma minoria étnica enfrentam desvantagens sistêmicas e que em 2019 a receita anual de empresários negros foi dez mil libras menor, em média, que a de empresários brancos.

Existem inúmeras barreiras para o sucesso empresarial, mas uma das mais marcantes é a dificuldade de obter financiamento. Apenas 0,02 por cento do dinheiro do capital de risco investido no Reino Unido entre 2009 e 2019 foi para empresárias negras. Isso representa apenas dez mulheres em uma década.

Essas barreiras contribuem para criar enormes diferenças de renda e de bens entre famílias negras e brancas no Reino Unido. O total médio de bens de uma família chefiada por um britânico branco (incluindo propriedades, investimentos e fundos de pensão) é de 313.900 libras. Para uma família negra de origem caribenha, o total é de 85.900 libras, em média, e de apenas 34.000 libras para famílias negras de origem africana, estima a agência nacional de estatísticas.

Ismain, a fundadora da Jamii, que oferece um site de compras completo para empresas negras, disse que sua organização e iniciativas como o Dia da Libra Negra procuravam lembrar os consumidores de manter as empresas negras em mente, mesmo quando os protestos antirracismo não são notícia de primeira página.

"Quando não é uma tendência, você nem sempre pensa nisso, volta aos velhos hábitos, e, se não acha alternativas para as coisas que costuma comprar, essa não é uma estratégia muito sustentável. Esse é o processo de pensamento por trás da Jamii: tornar muito fácil encontrar essas empresas", explicou Ismain.

Para a Afrocenchix, marca de cuidados com os cabelos para cabelos afro naturais, o Dia da Libra Negra foi transformador. Todos os meses, no Dia da Libra Negra, a empresa vende duas ou três vezes mais que de costume. Para divulgar o dia, a empresa oferece entrega gratuita aos clientes, além de um pacote de chá e um de biscoitos com o pedido. "Fomos trolados no primeiro Dia da Libra Negra por muitas pessoas que nos disseram que éramos racistas e não britânicos", contou Rachael Corson, uma das fundadoras da Afrocenchix, acrescentando que, em resposta, ela e a sócia, Joycelyn Mate, pensaram: "O que é mais essencialmente britânico do que chá e biscoitos?" Desde o primeiro Dia da Libra Negra, a empresa dobrou o número de clientes e, em 2020, as vendas da Afrocenchix foram cinco vezes maiores do que em 2019. "Isso fez uma grande diferença em matéria de reconhecimento de marca para nós", observou Corson.

E o influxo de clientes e de faturamento deve ajudar as fundadoras da Afrocenchix em seu próximo objetivo: superar as estatísticas na busca por fundos de capital de risco. Elas estão tentando arrecadar dois milhões de libras.

Para outras empresas, as vantagens do Dia da Libra Negra diminuíram com o tempo, e muitas pressupõem que o interesse do consumidor se diluiu entre as empresas negras. Mas Natalie Manima, fundadora da Bespoke Binny, marca de utilidades domésticas vendidas pela internet, declarou que a atenção que sua empresa recebeu desde que as pessoas começaram a procurar lojas com proprietários negros durante os protestos do verão passado "foi transformadora": "O interesse não acabou. Não é a mesma enxurrada de antes, mas nunca voltei ao nível de vendas anterior aos protestos."

A experiência na Round Table Books, a livraria infantil, é uma prova de como pode ser difícil alterar permanentemente os hábitos de consumo das pessoas, mesmo com a ajuda de iniciativas como o Dia da Libra Negra. A loja ficou fechada durante todo o inverno, de acordo com as restrições do governo. A empresa vende livros on-line, mas ainda é difícil competir com gigantes como a Amazon e a livraria britânica Waterstones. "Quando você não tem as livrarias físicas abertas, acho que grande parte da atenção vai para as marcas maiores", disse Felone, informando que a loja vai reabrir em maio e que ainda apoia o Dia da Libra Negra.

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