Na Índia, 100 unicórnios e três lições para as startups do Brasil

Com destaque para os setores de e-commerce e fintechs, o ecossistema indiano vivencia um “boom” no número de startups que alcançam o primeiro bilhão

O crescimento acelerado é característica comum dos unicórnios, apelido dado a startups cujo valor de mercado ultrapassa 1 bilhão de dólares. Na curva ascendente de desempenho e crescimento dessas empresas de nome curioso, o cenário global ganha uma nova estrela: a Índia.

Com seus mais de 1,3 bilhão de habitantes, a Índia tem ganhado notoriedade no cenário de inovação asiático. Perdendo apenas para a China como mercado mais pujante em seu continente, as startups indianas movimentam o mercado com soluções que facilitem, antes de mais nada, a inclusão financeira e tecnológica em um país populoso, mas com distribuição de renda extremamente desigual.

Um relatório do banco de investimentos Credit Suisse avaliou o mercado de empresas inovadoras e de base tecnológica na Índia em mais de 90 bilhões de dólares e mostrou que existem hoje 100 unicórnios indianos. As startups também representam 10% de todas as novas empresas abertas na Índia, segundo o banco.

Nas últimas semanas, a Índia passou a estampar novamente as manchetes com os recentes acontecimentos envolvendo startups que por lá se desenvolvem. Um dos episódios foi a primeira oferta de ações da startup indiana de entrega de refeições Zomato, que movimentou 1,3 bilhão de dólares.

Na esteira de acontecimentos envolvendo as pequenas empresas de potencial tecnológico —  e bilionário —  da Índia está o aporte de 3,6 bilhões de dólares na empresa de e-commerce Flipkart feita pelo fundo japonês Softbank. A companhia, que pertence ao Walmart, agora passa a ser avaliada em 37,6 bilhões de dólares e planeja a listagem em bolsa. Na mesma semana, a Paytm, a maior plataforma de carteira digital da Índia, recebeu aprovação de seus acionistas para prosseguir com a maior IPO do país, que deve arrecadar 2,2 bilhões de dólares.

A Ásia no topo

No primeiro semestre deste ano, as startups da Ásia receberam cerca de 61,9 bilhões em financiamento, o maior volume desde 2018, quando levantaram 79,8 bilhões de dólares. Em comparação com o mesmo período do ano passado, os aportes recebidos por startups asiáticas foi 15% superior. Os números são do Crunchbase, plataforma de dados empresariais.

A Ásia também viu um número significativo de IPOs nos primeiros seis meses deste ano, com quase 50 empresas negociando suas ações pela primeira vez. O IPO com maior destaque — em tamanho e relevância —  foi o da Didi, empresa chinesa de transportes que arrecadou 4,4 bilhões de dólares.

Já a Índia, por si só, teve 3,6 bilhões de dólares em IPOs no primeiro semestre de 2021, ante 1,1 bilhão de dólares no mesmo período do ano passado, de acordo com dados do Refinitiv.

Outros números também comprovam o caráter inovador do segundo país mais populoso do mundo. A Índia tem hoje 80.000 startups, que captaram juntas cerca de 10 bilhões de dólares em 2019. Isso faz do país o terceiro mercado de venture capital mais movimentado do mundo, superando países como França e Alemanha. E, nessa história toda, a Índia só perde o título de principal berço de unicórnios do mundo para os Estados Unidos e China.

As três lições do novo berço de unicórnios para o Brasil

1 - De olho nas fintechs

Empresas de setores como e-commerce, pagamentos, transporte, educação e software as service (SaaS) têm tradicionalmente uma relação de amor com o ecossistema indiano. No caso das fintechs, por exemplo, o bom relacionamento com fundos de investimento e a robustez de um sistema bancário digitalizado e incorporado ao dia a dia da população fez com que essas startups levantassem 10 bilhões de dólares em capital, segundo o Credit Suisse.

A integração dos registros da população e a exposição dessas informações aos bancos é a premissa básica do Aadhaar, banco de dados público mantido pelo governo da Índia — e que tem dado um impulso a mais a essas empresas.

O sistema permite processar em poucos instantes transações financeiras que antes demoravam dias, além de facilitar o acesso de bancos a informações e históricos financeiros de pessoas até então desbancarizadas e sem acesso a produtos financeiros. Uma oportunidade e tanto para conhecer quem são os consumidores e o que precisam de fato.

O cenário todo também coopera para que as fintechs queiram, cada vez mais, conquistar espaço na briga com grandes bancos e instituições financeiras privadas do país.

A priorização da inovação no setor financeiro também é vista no Brasil. Segundo relatórios do Distrito, as fintechs lideram entre os segmentos que receberam o maior volume de investimentos nos primeiros seis meses de 2021, com 2,4 bilhões de dólares recebidos em 72 rodadas —  e essa é uma tendência que se segue já há alguns anos. Ao que parece, o ideal para o Brasil é continuar nessa toada.

 

2 - Delivery, delivery e delivery

Com a pandemia, o delivery na Índia vive um de seus melhores momentos históricos, especialmente no setor de alimentação. Prova disso está na bilionária abertura de capital da indiana Zomato, uma plataforma de entrega de comida online. Nos últimos dias, o IPO da Zomato levantou 1,2 bilhão de dólares, levando o valor de mercado da empresa a 8 bilhões de dólares. A abertura também foi a primeira do setor de alimentação no país, um reflexo claro do potencial desse segmento na economia indiana.

Para o Brasil, país em que 1 em cada 4 bares e restaurantes fechou as portas em 2020 por causa das restrições geradas pela pandemia, a inserção do delivery como estratégia no setor de alimentação passou a ser questão de sobrevivência.

Fora desse segmento, porém, as entregas também são aliadas. Em um cenário em que as vendas no e-commerce cresceram cerca de 41%, as empresas brasileiras, sejam elas de pequeno, médio ou grande porte, se veem diante da obrigação de repensar sua logística e entrega. Diante disso, há oportunidades para startups que atuam no mercado de entregas.

3 - Empresas e Governo devem andar lado a lado

Uma das lições da Índia para o Brasil é que o ecossistema como um todo pode ser beneficiado por ações governamentais. Sob o comando do primeiro-ministro liberal Narendra Modi, a Índia vem provando uma revolução digital sem precedentes nos últimos anos. Parte dessa transformação está na aposta em programas estruturados para startups e empresas que precisam de apoio efetivo para ganhar escala.

Foi com a gestão de Modi que o país deu os primeiros passos com o Aadhaar,  crucial para o boom vivido por fintechs locais.

Para atrair pesquisadores e gerar novas oportunidades e tecnologias, o governo indiano tem investido também em programas voltados à inovação. O mais notável deles leva o nome de “‘Startup India Initiative”, iniciativa criada em 2015 e que reúne um pacote de 19 ações que surgem para simplificar a vida das startups que buscam crescimento no país. O conjunto de medidas inclui uma série de benefícios fiscais e tributários, além do apoio no acesso a financiamentos e menores custos para registro de patentes tecnológicas.

Além do pacote de vantagens para empresas, há também espaço para o desenvolvimento científico. Por meio de um programa chamado Research Training Fellowship-Developing Countries Scientist (RTF-DCS), jovens cientistas de todas as nacionalidades podem se inscrever para desenvolver novas soluções em instituições de ensino da Índia. Tudo para manter o argumento de que não há inovação tecnológica de potencial bilionário que vingue sem a ciência.

Como resultado das políticas públicas e infraestrutura de apoio às startups, o número de investidores ativos no mercado de ações da Índia disparou, assim como a quantidade de empresas listadas nas bolsas. De acordo com o Credit Suisse, o número de empresas listadas que conseguem uma capitalização de mercado acima de 1 bilhão de dólares subiu de 178 para 336 na última década.

Ao que tudo indica, há um contraponto em todo o avanço inovativo da Índia. Para sustentar o crescimento e apoio às startups com base tecnológica e ser capaz de gerar outras “Flipkarts” e “Zomatos”, o país ainda deve mudar a rota algumas vezes. Afinal, a nação ainda peca no que diz respeito ao apoio para empresas em estágio mais avançado e que demandam rodadas de captação mais maduras, como series B ou C, dizem especialistas consultados pelo periódico The Economist.

Uma outra entrave está na proibição, por lei, da listagem de ações em bolsas estrangeiras enquanto uma empresa não abre seu capital em território nacional. Parece que nesse quesito, o Brasil é quem tem um pouco a ensinar.

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