Fim da moda, prejuízo e pandemia: como Grow, ex-Yellow, foi do boom à lona

A Grow, vinda da fusão de Yellow e Grin, pediu recuperação judicial após meses de crise. O pedido marca a queda do modelo dos outrora louvados patinetes

A pandemia ampliou o que já estava ruim, e a temporada de crises da empresa de micromobilidade Grow atinge agora um de seus piores momentos. A companhia, nascida da fusão entre a brasileira Yellow e a mexicana Grin no começo de 2019, pediu recuperação judicial nesta quarta-feira, 29, conforme confirmado pela empresa à EXAME.

Em nota, Yellow e Grin afirmam que foram “duramente afetadas pela crise acarretada pela pandemia da covid-19”, uma vez que seus negócios são baseados na mobilidade diária das pessoas nas cidades. “A recuperação judicial é um passo fundamental para viabilizar a superação da crise econômico-financeira e permitir a retomada das atividades. Com ela, as startups terão fôlego suficiente para buscar a reestruturação e a continuidade de suas atividades”, escreveu a empresa.

As dívidas somam cerca de 38 milhões de reais. As principais razões para a crise, segundo a empresa, são a maior regulação, aumento da concorrência, diminuição das margens de lucro e necessidade constante de atualização dos patinetes e bicicletas. Com a pandemia, que paralisou os serviços de compartilhamento, o colapso do negócio aconteceu.

“O isolamento social e as novas regras de prevenção impostas pela pandemia inibiram a contratação do serviço, impactando o setor não só nesse momento, mas também colocando em dúvida se esse modelo fará sentido no futuro. Com tantas exigências em relação à higienização, por exemplo, e mudança de comportamento, será que não será melhor as pessoas terem seus próprios patinetes ou bicicletas?”, diz Luiz Deoclecio Fiore, presidente da OnBe half, administradora judicial.

No pedido de recuperação, Yellow e Grin pedem que os passivos e ativos das duas empresas sejam considerados um só, uma vez que no Grupo Grow haveria coincidência de diretores e composição acionária, atuação conjunta no mercado, compartilhamento de funcionários, bens e serviços, além de fonte única de receitas.

A EXAME teve acesso à lista de credores da companhia, composta por ex-funcionários e fornecedores. São pouco mais de 8 milhões de reais em dívidas na classe I, isto é, direitos trabalhistas não-pagos após demissão de ex-funcionários, somados os passivos das duas companhias.

Na classe III, de empresas fornecedoras, são cerca de 30 milhões de reais em dívidas. O maior credor é a fabricante de bicicletas Caloi Norte, com 15,4 milhões de reais a receber. Na classe IV, de microempresas ou empresas de pequeno porte, a dívida soma pouco mais de 234.000 reais.

No pedido, Grin e Yellow pedem a suspensão de todas as ações de credores sujeitos, de despejo e de uma ação civil pública movida pelo Ministério Público do Trabalho visando a reintegração de empregados demitidos. “A empresa, que já passava por uma crise, provavelmente quis o fôlego de 180 dias que a lei dá para propor um plano aos credores sem ser despejada ou obrigada a reintegrar trabalhadores”, diz a advogada Renata Oliveira, sócia da área de contencioso do escritório Machado Meyer.

O processo tramita na 1ª vara de falências do estado de São Paulo e está com o juiz Tiago Limongi. “Neste momento, o magistrado analisará a regularidade dos documentos que acompanham o pedido e, se estiverem formalmente em ordem, deferirá o processamento da recuperação judicial, bem como a suspensão as ações e execuções contra as empresas”, diz Leonardo Adriano Ribeiro Dias, especialista em falências e recuperações judiciais.

Depois dessa fase, as empresas terão até 60 dias para apresentar um plano de recuperação aos seus credores. “Parte expressiva dos credores é composta por fornecedores e empregados, próximos à empresa. A se confirmar este quadro, é um elemento positivo, pois são interessados na reestruturação, desde que se mostre viável a própria atividade empreendida”, diz o Dr. Daniel Bucar, sócio do escritório Bucar Marano Advogados.

Ondas de demissões

O último desdobramento da crise na Grow veio em junho, quando a empresa anunciou a demissão do que, na ocasião, classificou em comunicado como “grande parte da equipe operacional e corporativa no Brasil”.

Antes do coronavírus, a Grow já vinha de sucessivas ondas de demissão e encerramento de operações. Em janeiro, muito antes de qualquer possibilidade de quarentena na América Latina, a empresa encerrou as operações em 14 cidades no Brasil. Sobraram apenas São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Curitiba (PR).

A locação de bicicletas via aplicativo da Yellow também foi paralisada por tempo indeterminado, restando somente os patinetes. No começo do ano, mais uma leva de funcionários já havia sido demitida.

Em março, já envolta em uma crise financeira, a startup foi comprada pelo fundo Mountain Nazca, dono do Peixe Urbano. Assumiu o comando o presidente Roberto Álvarez Cadavieco, dizendo em à época que “a era do crescimento a qualquer custo acabou” e que a Grow tinha o plano de ser “a primeira empresa de micromobilidade rentável do mundo.”

Desavenças Brasil-México

Na ocasião das demissões de junho, um dos rumores que circulou no mercado era a possibilidade de a Grow encerrar a operação no Brasil. Um dos mercados mais fortes da companhia é o México, terra natal da Grin. Segundo o perfil da empresa no LinkedIn, há atualmente pouco mais de 280 funcionários com perfil vinculado à Grow no Brasil. Em todo o mundo, são cerca de 500 empregados.

No auge da operação, em meados de 2019, eram mais de 2.000 funcionários, mais de 1.400 só no Brasil.

No Brasil, foi a brasileira Yellow, criada em 2017, que começou a implementar o modelo de micromobilidade com patinetes elétricas e bicicletas. O formato era até então menos presente fora das vias principais de São Paulo e restrito às bicicletas alugadas com marcas de bancos — como as patrocinadas por Itaú e Bradesco.

Além dos desafios financeiros, algumas desavenças internas entre os profissionais advindos de Grin e Yellow foram recorrentes ao longo da trajetória.

Após a fusão com a Grin, a marca Yellow foi encerrada e os equipamentos com suas cores amarelas gradualmente substituídos pelos patinetes verdes da Grin. A marca Grin também seguiu sendo usada no México e em outros países da América Latina.

A Yellow foi criada pelos brasileiros Ariel Lambrecht, Eduardo Musa e Renato Freitas. Lambrecht e Freitas co-fundaram o aplicativo e unicórnio brasileiro 99, enquanto Musa já foi presidente da fabricante de bikes Caloi. 

A briga entre os fundadores de Yellow e Grin teria sido um dos motivos que afastou um potencial aporte de até 150 milhões de reais do fundo de investimentos Softbank.

Lambredcht, Freitas e parte do grupo remanescente da Yellow deixaram a empresa no início deste ano, enquanto circulavam no mercado rumores de que os fundadores da startup brasileira tiveram desentendimentos com os sócios mexicanos da Grin. O grupo brasileiro, por exemplo, foi tirado das posições maiores de comando logo após a fusão com os mexicanos. O terceiro fundador da Yellow, Eduardo Musa, já havia deixado a empresa depois da fusão, em janeiro de 2019.

No auge do otimismo com os patinetes, a Grow iniciou uma expansão sem precedentes para o modelo de micromobilidade, chegando a estar presente em mais de 10 cidades brasileiras e incluindo em bairros mais afastados dos centros, totalizando mais de 20 milhões de corridas realizadas.

Mas o formato foi colocado em xeque diante dos altos custos. Um dos principais desafios no modelo de negócio da Grow é a depredação de patinetes e bicicletas. A empresa não usa estações fixas para os equipamentos, que podem ser deixados em um perímetro mais amplo, o que encarece a operação.

Na linha de tentar baratear os gastos, a Grow havia lançado no começo deste ano o Grin4U, sistema de aluguel individual e mensal dos equipamentos.

O modelo de patinetes e bicicletas espalhados pela cidade, apesar da febre dos últimos anos, ainda não se provou financeiramente viável. A Tembici, que gerencia as bicicletas do Itaú e usa estações fixas, recebeu um aporte de 47 milhões de dólares, anunciado em junho, mesmo em meio à pandemia.

A startup fez de seu modelo de estações fixas, em oposição à Grow e outras concorrentes, uma de suas bandeiras. Em entrevista anterior à EXAME, Scott Sobel, sócio-diretor do Valor Capital, um dos fundos investidores da Tembici, afirmou que a principal vantagem que o modelo da startup tem em relação aos concorrentes é o uso das estações fixas para retirar e deixar as bicicletas. O fundo acredita que esse modelo prevaleceu em relação ao utilizado pela Grow.

Nos últimos dois anos, além de Yellow e Grin, surgiram nas cidades brasileiras uma série de novos concorrentes, como a americana Lime, que deixou o Brasil em janeiro deste ano, seis meses após chegar, e retomou a operação no Rio de Janeiro nesta quarta-feira com esquema reforçado de higiene nos patinetes.

A gigante Uber também tentou a sorte por aqui ao trazer suas patinetes ao Brasil em março deste ano, mas deixou o país menos de quatro meses depois, em meio à crise do coronavírus e enxugamento das operações globais. As operações de patinentes da Uber foram, inclusive, adquiridas globalmente pela Lime em maio.

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