Candango tecnológico

O brasiliense Marco Gomes escapou de uma vida sem perspectivas para criar um negócio que atinge 60% dos internautas brasileiros

Fã de rap, cristão devoto e praticante de par­kour, esporte que faz de muros e canteiros obstáculos para saltos radicais, Marco Gomes poderia ser apenas mais um típico jovem das periferias brasileiras.

Criado numa favela em Gama, cidade-satélite do Distrito Federal, Gomes, assim como seus colegas de bairro — os filhos e os netos de candangos que ajudaram a erguer Brasília —, cresceu num universo sem muitas perspectivas. O pai era viciado em cocaína. O primo mais querido foi morto a pedradas por uma dívida de 200 reais com traficantes. "Foi uma infância dura", diz Gomes.

Gomes não gosta de se lamentar da vida. Seu negócio é olhar para o futuro. Hoje, aos 25 anos, ele comanda a boo-box, empresa de tecnologia para publicidade em mídias sociais que vem crescendo ao ajudar clientes como Unilever, Microsoft e Alpargatas a exibir suas marcas em blogs e perfis no Twitter, no Facebook e no Orkut.

Em novembro, a boo-box foi a única brasileira entre 18 empresas emergentes selecionadas pela Intel Capital — braço financeiro da Intel — para receber 77 milhões de dólares em investimentos. "O aporte nos deu fôlego para contratar novos profissionais e crescer ainda mais", diz Gomes. O faturamento estimado pelo mercado para a boo-box neste ano é 12 milhões de reais.

Fundada em 2007, quando Gomes tinha 20 anos de idade e ainda usava cabelos compridos com dreadlocks, a boo-box tem contrato com mais de 20 000 twitteiros, blogueiros e donos de comunidades em redes sociais, como Facebook e Orkut.


"São pessoas anônimas nas mídias tradicionais, mas com uma legião de seguidores na internet", diz Gomes. Juntos, eles alimentam 80 000 sites, vistos por 40 milhões de pessoas — 60% dos internautas brasileiros. 

O ponto forte do sistema da boo-box é comparar o perfil dos frequentadores das redes sociais com o desejado pelos anunciantes e, assim, veicular publicidade online de forma segmentada. Em tese, qualquer blogueiro ou twitteiro pode ser um divulgador de seus anúncios — aqueles com maior audiência têm chance de ganhar mais.

Para veicular os anúncios dos clientes da boo-box, os donos de blogs e de perfis em redes sociais que se cadastram recebem de 50 a 10 000 reais por mês, dependendo da campanha. 

Programador desde os 12 anos, Gomes era versado em tecnologia quando criou a boo-box. "Aos 8 anos, já ajudava meus tios a montar computadores com peças que eles contrabandeavam do Paraguai", afirma ele.

Aos 19 anos, comandava uma equipe de 20 pessoas num escritório de uma agência de publicidade online em Brasília. Fez três anos de computação na Universidade de Brasília, curso que abandonou ao se mudar para São Paulo, em 2006, quando concretizou sua ideia de negócio com o apoio do Monashees, um fundo brasileiro focado em empresas de internet. 

Gomes despertou a atenção dos profissionais do fundo não apenas porque vislumbrou lá atrás o impacto que a massa de produtores desconhecidos de conteúdo provocaria na internet, mas sobretudo porque já apresentava uma solução tecnológica para fazer dinheiro com isso.

"Quando o pessoal do Monashees conheceu o Marco, eles ficaram impressionados com alguém tão jovem com uma intuição tão aguçada", diz um profissional que acompanhou as negociações com o fundo, que investiu 300 000 dólares na boo-box. O Monashees mantém investimentos na boo-box até hoje e foi um dos articuladores para a entrada da Intel Capital.


Ainda assim, o começo não foi fácil. “Ao me mudar para São Paulo, tive de me hospedar na casa de amigos”, diz Gomes. "Só depois de oito meses consegui alugar um quarto numa pensão do Butantã, frequentada por estudantes da Universidade de São Paulo." Como não tinha traquejo empresarial, o Monashees indicou a ele um sócio, Marcos Tanaka, de 34 anos.

Formado em engenharia mecânica pela Universidade Estadual de Campinas, Tanaka tinha experiência como consultor de grandes empresas — e uma história bem distinta da vivida por Gomes.

Tanaka estudou no Santa Cruz, colégio da elite paulistana. "Quando contei a meus amigos que iria abandonar meu emprego para trabalhar com um menino de 20 anos que usava cabelo rastafári, eles me chamaram de louco", diz. "Agora, tenho certeza de que fiz a coisa certa." 

No início, a divisão de tarefas entre os dois era simples. "Eu cuidava da criação e o Tanaka ia ao banco pagar impostos", diz Gomes. Hoje, os dois dividem a gestão com mais de 40 profissionais e trabalham para que a boo-box possa aproveitar cada uma das oportunidades de um mercado em expansão.

Em 2010, a internet brasileira faturou 1,2 bilhão de reais com anúncios, de acordo com o Projeto Inter-Meios. A participação da mídia social no total de publicidade da web vem aumentando rapidamente. Segundo a E-Consulting, a previsão é que chegue a 16% em 2011. “Em 2010, representava bem menos, 7,5%”, afirma Daniel Domeneguetti, sócio da consultoria. 

Um sinal do potencial desse nicho foram os 400 milhões de dólares que o Google investiu para comprar a AdMeld, empresa com sede em Nova York que fornece tecnologia para que produtores de conteúdo vendam anúncios em suas páginas.

Por hora, para a boo-box o Google é apenas concorrente — assim como o Buscapé. Embora com atuações distintas, os três disputam os investimentos em publicidade online no Brasil, incluindo os de pequenos anunciantes. "Não dá para eu me acomodar", diz Gomes. "Se achar que já conquistei tudo, eu danço." 


Atualmente bem instalado com a namorada num apartamento no Alto de Pinheiros, bairro nobre de São Paulo, Gomes madruga para analisar, de casa, o desempenho de blogs e sites e verificar o retorno da publicidade para seus clientes. Vai para o escritório às 10 horas da manhã. Duas vezes por semana ainda pratica parkour, esporte que aprendeu nas ruas de Gama.

Quando a situação complica, ele pensa na infância, quando tinha de decidir com muita cautela qual caminho pegar para chegar vivo em casa. "Lidei com riscos minha vida inteira", diz ele. "Dificilmente algo me assusta hoje em dia." 

Primeiro investidor a apostar no Buscapé e hoje conselheiro da boo-box, o consultor Anibal Messa demonstra grande admiração por Gomes: "Não conheço ninguém com origem tão humilde e com tamanha capacidade de avaliação".

Eleito o "Nerd do Ano" em 2010 por uma publicação especializada, Gomes é frequentemente convidado para dar palestras sobre sua trajetória em todo o Brasil. Sua página pessoal na internet está repleta de mensagens de gente que vê nele um exemplo.

A maioria tem teor semelhante a esta: "Cara, parabéns por ter atravessado para o outro lado do lago. Você é inspiração para milhares de jovens empreendedores". O lago é o Paranoá, que separa o Plano Piloto da periferia de Brasília. 

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