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Alemanha tem final de ano sem seus centenários mercados de Natal

Os alemães se reúnem em mercados ao ar livre antes do Natal desde o século XIV; a pandemia cancelou celebrações em todo o mundo

Berlim – Parece haver algo errado na Alemanha em dezembro.

Não há grupos de amigos com canecas de vinho quente temperado com canela e cravo lotando a praça medieval de Rothenburg ou sob a catedral imponente de Colônia. Nenhuma banda de metais toca canções em frente ao Palácio Charlottenburg em Berlim. Nenhuma estrela brilha no topo das cabanas de madeira de Seiffen.

A figura mágica conhecida como Christkind não abriu suas asas douradas e deu as boas-vindas ao mundo no mercado anual de Natal de Nuremberg. A praça escura da cidade não se encheu de luz para revelar, no verso recitado anualmente, uma "pequena cidade dentro da cidade, feita de pano e madeira; fugaz em seu breve esplendor, mas eterna no tempo".

O coronavírus está silenciando as celebrações de Natal ao redor do mundo. Mas a ausência de alegria sazonal pública é particularmente palpável, e dolorosa, nas praças alemãs, em grande parte desprovidas de seus amados mercados de Natal por causa da pandemia.

"Quando ando pelas ruas de Munique ou Nuremberg hoje, sem as luzes brilhantes e a animação, sem o cheiro de vinho quente, sinto falta de tudo", disse Oliver Pötzsch, de 50 anos, escritor cujos romances se baseiam na história de sua família bávara.

natal alemanha pandemia - NAO USAR NYT Berlim: restaurante vende vinho quente durante o período de isolamento social na capital Alemã

Berlim: restaurante vende vinho quente durante o período de isolamento social na capital Alemã (LLena Mucha/The New York Times)

Os alemães se reúnem em mercados ao ar livre nas semanas anteriores ao Natal desde o século XIV, quando os vendedores construíram pela primeira vez seus estandes no centro das cidades para vender seus produtos a pessoas que saíam do serviço da igreja. Eles oferecem uma variedade de alimentos, presentes artesanais e outras provisões para as festas e os longos meses de inverno.

Turistas de todo o mundo lotam a meia dúzia de mercados – muitas vezes inspirados em diferentes temas, como o Natal escandinavo ou sustentável – em grandes cidades como Berlim, Colônia e Munique.

Os moradores locais, porém, são atraídos para os festivais mais íntimos nas cidades e nas vilas em todo o país, geralmente nas regiões onde cresceram.

"Eles sempre foram lugares de encontro. Hoje, os mercados de Natal ainda são locais de grande socialização, onde amigos e familiares se reúnem. Mas mesmo as pessoas que estão sozinhas vêm para sentir os cheiros, ver as luzes e ouvir a música, que têm algo reconfortante para elas", afirmou Margot Kässmann, de 63 anos, ex-bispa da Igreja Luterana na Alemanha.

Os cerca de três mil mercados de Natal da Alemanha também são um benefício econômico para muitas comunidades, tendo gerado cerca de US$ 3,5 bilhões no ano passado, de acordo com a Associação Alemã de Funcionários de Feiras. Restaurantes locais, cervejarias, padarias e artesãos também dependem desses eventos anuais para uma parte substancial de sua renda.

Nina Engel vende enfeites de vidro no mercado de Natal na Gendarmenmarkt de Berlim há anos. Mas, à medida que dezembro se aproximava e o número de novas infecções por coronavírus no país continuava perigosamente alto, a capital alemã se juntou a cidades de todo o país que cancelaram seus mercados, apesar das promessas feitas no início do ano de fazer tudo para mantê-los abertos.

A Gendarmenmarkt, praça elegante, está aberta ao frio este ano. Nenhum amante da música se senta nos degraus do Konzerthaus de frente para uma vila temporária de tendas brancas, brilhando com estrelas douradas no topo e aquecida com risos, salsichas e uma grande variedade de artesanato e presentes.

Este ano, a cidade permitiu que uma pequena fração dos vendedores montasse estandes pop-up em esquinas ou em praças vazias, em um esforço para recuperar parte de seus custos e espalhar o espírito natalino.

"Temos de pagar por tudo adiantado. Isso é mercadoria sazonal. Estamos aqui para tentar vender pelo menos alguns itens – é melhor do que nada", disse Engel, mostrando fileiras de beija-flores de vidro, picles, fatias de pizza, papais-noéis e bonecos de neve, pendurados entre bolas prateadas, douradas e vermelhas em seu estande na zona de pedestres da Friedrichstrasse, rua comercial de Berlim.

Outras cidades também permitiram que alguns estandes funcionassem, para ajudar os vendedores e manter um mínimo de alegria natalina –, mas a distância, em conformidade com as regulamentações que exigem que estranhos se mantenham a dois metros uns dos outros. Os proprietários de restaurantes locais estão oferecendo vinho quente, ou Glühwein, dos degraus de seus estabelecimentos fechados para os clientes, que procuram um gole da onipresente bebida da época, que funciona também como um aquecedor das mãos, desde que a caneca esteja cheia.

E, em um ano que testemunhou concertos, peças de teatro e aulas migrando para o mundo on-line, os organizadores de alguns mercados de Natal tentaram recriar o espírito virtualmente.

Seiffen, lar dos escultores de ornamentos de madeira, das velas em forma de pirâmide e dos brinquedos, criou um mercado virtual de Natal com música natalina, imagens do céu noturno repleto de neve e gráficos de 360 graus, tudo para promover os vendedores locais cujo artesanato normalmente seria oferecido em mercados de todo o país.

Em Nuremberg, Benigna Munsi, de 18 anos, atua pelo segundo ano como Christkind – que, na tradição local, assume a forma de uma jovem com cachos loiros longos, coroa imponente e mangas douradas que se parecem com asas. Ela é a embaixadora de Natal da cidade e patrona do seu mercado.

Para Munsi, as primeiras semanas de dezembro geralmente seriam repletas de visitas a hospitais locais, abrigos para sem-teto e asilos, e de várias horas cumprimentando os visitantes no mercado ou lendo histórias para as crianças que estivessem lá. "Aonde quer que eu vá como Christkind, as pessoas estão me esperando. Sejam jovens ou velhas, ficam sempre muito felizes quando entro na sala. Estou triste por não poder visitar todo mundo pessoalmente este ano", comentou em entrevista por telefone.

Ela faz uma aparição diária em um calendário das festas pré-gravado on-line e, duas vezes por semana, recebe telefonemas de qualquer um que deseje entrar em contato com Christkind. A maioria dos telefonemas vem de crianças que lhe trazem suas listas de desejos de Natal, mas os adultos também ligam, muitos com memórias para compartilhar. "Como não estamos nos encontrando pessoalmente, acho que talvez as memórias estejam assumindo um novo significado, tornando-se mais valiosas", acredita Munsi.

alemanha-natal-NAO USAR - NYT Ansbach, na Alemanha: usando máscaras, famílias passeiam pelo mercado de Natal vazio da cidade

Ansbach, na Alemanha: usando máscaras, famílias passeiam pelo mercado de Natal vazio da cidade (Laetitia Vancon/The New York Times)

Ela contou que uma mulher ligou para lhe agradecer por um gesto no ano passado quando, em uma visita ao mercado como Christkind, ela notara a mulher chorando e parou para perguntar se estava bem. "Ela me disse que isso significou muito, que várias vezes pensou no encontro quando estava triste, e isso lhe deu força ao longo do ano", disse Munsi.

Ela tem encorajado as pessoas a entrar em contato com a família e com amigos que não podem visitar com uma carta ou um telefonema – e a lembrar que o espírito do Natal não vive no mercado, mas nas pessoas que normalmente se reuniam lá.

"Não deixe que as coisas o derrubem e não desista", aconselhou Munsi. Mesmo em um mundo cansado do coronavírus e dos confinamentos aparentemente intermináveis, ela disse: "Algo bonito sempre pode ser encontrado."

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