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US Top: o que aconteceu com o primeiro jeans brasileiro, que nasceu de um projeto secreto

Criada pela Alpargatas em 1972, a marca inventou o índigo nacional, cunhou o bordão mais repetido dos anos 80 e sumiu do mercado por duas décadas — até voltar

Us Top: depois de anos sem produção, marca voltou em 2023 e segue no mercado até hoje  (US Top/Divulgação)

Us Top: depois de anos sem produção, marca voltou em 2023 e segue no mercado até hoje (US Top/Divulgação)

Daniel Giussani
Daniel Giussani

Repórter de Negócios

Publicado em 18 de julho de 2026 às 10h12.

Numa sala de reunião da Alpargatas, no início dos anos 1970, um grupo de executivos discutia o nome de uma calça que ainda não existia.

O projeto era interno, sigiloso, e tinha sido batizado apenas de "US" — referência aos Estados Unidos, onde o jeans já era febre entre os jovens. Faltava o nome comercial. Alguém sugeriu combinar o "US" do projeto com o "Top" da Topeka, outra marca da própria companhia.

Ficou Top US. A agência de publicidade que atendia a empresa achou melhor inverter. Nascia a US Top. E, com ela, o primeiro jeans brasileiro.

Como nasceu a US Top

Não que o Brasil nunca tivesse tentado ter uma calça jeans. Em 1948, a Roupas AB lançou a "Rancheiro", primeira calça de brim azul do país. Mas ela dura demais para um país tropical onde os jovens ainda não tinham poder de compra. Nos anos 1950, a própria Alpargatas emplacou as calças Rodeio e Far West, que se venderam bem com a promessa do "brim coringa": um tecido forte que não encolhia.

Só que os brasileiros não queriam uma calça que durasse a vida inteira sem mudar. Queriam a calça que viam no cinema e na televisão americana — aquela que desbotava, que amaciava, que envelhecia junto com o dono. A famosa 'jeans', com o índigo. A própria Alpargatas tinha uma marca chamada Topeka que tentava imitar as labels internacionais sem esse ingrediente.

Em 1972, a US Top resolveu o problema. Chegou com uma etiqueta grande pendurada no bolso traseiro anunciando o que era: um jeans autêntico, estilo western, cinco bolsos, costuras duplas e rebites. Sem concorrente à altura no mercado nacional, virou febre imediata.

Em 1976, o jingle do comercial de TV martelava exatamente o que o consumidor queria ouvir: a calça desbotava, perdia o vinco e usava o "legítimo denim índigo blue".

A marca abandonou rapidamente a estética western e assumiu uma linguagem de juventude urbana, celebrando liberdade.

Como um bordão fez a marca ficar ainda mais popular

O maior legado cultural da US Top, no entanto, não é uma calça. É uma camisa.

Em 1984, a Alpargatas passou a produzir camisas sob a marca US Top e lançou um comercial para mostrar a qualidade das peças. Criado pela agência paulista Talent, o filme se chamava "Que novidade é essa?" e se passava numa reunião de escritório. Um funcionário franzino, chamado Fernando, destoava dos colegas por usar uma camisa da marca. O chefe reparava e soltava a frase: "Bonita camisa, Fernandinho". Na sequência, o resto dos puxa-sacos da mesa aparecia usando a mesma camisa.

O comercial foi premiado, transformou o ator Dany Roland em rosto conhecido e, sobretudo, criou um dos bordões mais falados da década de 1980 no Brasil.

A frase escapou da publicidade e entrou na cultura popular: virou piada de família, foi repetida a exaustão para todo Fernando do país — incluindo, com generosa ironia histórica, os presidentes Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso.

Como foi o momento da queda

A marca atravessou os anos 1980 e 1990 firme, conquistando espaço num mercado que ia sendo tomado por gigantes internacionais como a Levi's, e se firmando como sinônimo de moda casual acessível. Mas o cenário mudou.

Os hábitos de consumo migraram para produtos mais sofisticados, o mercado se abriu aos importados, e a US Top — nascida como o jeans básico, honesto, de cinco bolsos — perdeu o lugar. No início dos anos 2000, a Alpargatas parou de produzi-la.

E ficou quase 20 anos fora do mercado.

A decisão pelo retorno

Em setembro de 2022, começou uma negociação discreta, sob cláusula de confidencialidade. Cinco meses depois, em fevereiro de 2023, estava fechada: a Cia do Jeans, holding mineira que já operava marcas como Vilejack, Scanner e Enrico Rossi, e que mantém desde 2018 o contrato de licenciamento da Wrangler no Brasil, comprou a US Top da Alpargatas.

A produção foi para o polo de Colatina, no Espírito Santo. A primeira coleção fez uma releitura da etiqueta original, destacando a chamada do "jeans autêntico".

E o público-alvo diz tudo sobre o poder da nostalgia como ativo de negócio: a empresa mirou, ao mesmo tempo, os jovens de outrora com lembrança afetiva da marca e os jovens de agora interessados no resgate do básico.

Diferente de outras marcas da mesma geração, a US Top teve um destino menos melancólico. A Zoomp, do raio amarelo, virou memória em marketplace. A Staroup teve falência decretada e viu a fábrica ir a leilão em 2025. A Soft Machine sumiu.

A US Top voltou — e continua no mercado.

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