Negócios

Um pedido a cada 42 segundos: o negócio da Gerdau, Votorantim e Tigre que movimenta R$ 8 bilhões

Joint venture relança programa de fidelidade e aposta em vendas pelo WhatsApp para acelerar a digitalização do varejo de construção

Fernando Dutra, diretor executivo da Juntos Somos Mais: "Programa de benefício é sobre como indústria influencia comportamento" (Juntos Somos Mais/Divulgação)

Fernando Dutra, diretor executivo da Juntos Somos Mais: "Programa de benefício é sobre como indústria influencia comportamento" (Juntos Somos Mais/Divulgação)

Daniel Giussani
Daniel Giussani

Repórter de Negócios

Publicado em 12 de maio de 2026 às 13h27.

O balconista de uma loja de material de construção recebe no celular o aviso de um treinamento novo sobre uma linha de tubos. Ele assiste, responde a um quiz e ganha pontos. No fim do mês, troca esses pontos por um Pix, combustível ou um produto do catálogo. Do outro lado da plataforma, a indústria que pagou pelo treinamento sabe exatamente quantos balconistas concluíram o curso, em que regiões, e cruza esse dado com as vendas que cada loja registrou depois.

É assim que a Juntos Somos Mais quer redesenhar o varejo de materiais de construção no Brasil.

A empresa é uma joint venture criada em 2018 por Votorantim Cimentos, Gerdau e Tigre, três das maiores indústrias do setor, com a tese de que faria mais sentido construir uma plataforma digital única do que cada uma tocar a sua.

Hoje a Juntos opera um marketplace B2B e o maior programa de fidelidade da construção civil do país, com mais de 100 mil lojas conectadas, 30 indústrias parceiras além das sócias e um pedido registrado a cada 42 segundos.

Em 2025, movimentou 7 bilhões de reais em GMV, sigla em inglês para volume bruto de mercadorias transacionadas na plataforma.

A meta para 2026 é chegar a 8 bilhões de reais — e a aposta para destravar esse crescimento começou a sair do papel em 1º de maio, com o relançamento do programa de fidelidade, agora chamado Juntos Vantagens. É a primeira entrega visível do novo mandato de Fernando Dutra, que assumiu a direção executiva da empresa em 2026 com a missão de transformar a Juntos de uma plataforma transacional em uma operação que gera valor para indústrias e varejistas dentro do mesmo sistema.

"Programa de benefício é sobre como indústria influencia comportamento. Não queremos virar um catálogo de indústria. Queremos digitalizar o comportamento", afirma Dutra.

O plano da Juntos para os próximos anos passa por adensar o ecossistema com mais indústrias parceiras, expandir a operação de vendas via WhatsApp — que já fatura 30 milhões de reais por mês — e usar inteligência artificial para automatizar a jornada de compra do lojista. O crescimento fora das sócias deve triplicar em 2026, segundo Dutra, e é nesse movimento que a empresa aposta para ganhar relevância em um setor pulverizado.

Em que mercado a Juntos Somos Mais está inserida

O varejo brasileiro de materiais de construção movimenta cerca de 200 bilhões de reais por ano e reúne 150 mil lojas espalhadas pelo país.

É um setor capilarizado, pouco concentrado e historicamente analógico. "Mesmo a maior não tem 4% do mercado", afirma Dutra. A digitalização ainda é incipiente — boa parte das compras entre indústria e lojista acontece por telefone, e-mail ou no contato direto do representante comercial com o balcão.

Foi nessa lacuna que a Juntos Somos Mais nasceu. A primeira versão da plataforma, em 2018, era um programa de fidelidade voltado para conectar indústrias da construção civil ao varejo pulverizado. A ideia era simples: oferecer um sistema de pontos para que lojas e balconistas fossem premiados por comprar e vender produtos das indústrias parceiras. A capilaridade veio rápido. Hoje, das 150 mil lojas do país, cerca de 100 mil estão dentro do programa.

O passo seguinte foi transformar essa rede em um marketplace. As 30 indústrias conectadas — somadas às três sócias — representam mais de 50% do mix de venda de uma loja típica de material de construção, segundo a empresa. Quanto mais sellers entram, mais relevante a plataforma se torna para o lojista, e mais a indústria justifica o investimento na operação.

Faturamento do varejo de materiais de construção no Brasil

Em bilhões de reais, valores nominais

Faturamento realizado
Projeção 2025

150,6

2020

202,3

2021

207,4

2022

222,8

2023

233,8

2024

240,0*

2025

*Projeção da Anamaco divulgada em outubro de 2025. Fonte: Anamaco e FGV/IBRE.

O que muda no novo programa de benefícios

O relançamento do programa de fidelidade não traz uma tecnologia nova, mas reorganiza a forma como pontos são distribuídos, acumulados e resgatados. A versão anterior tinha virado complexa demais para o lojista, segundo Dutra. "Se for muito complexo, começa a perder proposta de valor", diz.

A principal mudança é a simplificação da regra: agora, a cada valor gasto na plataforma, o lojista ganha um ponto, mesma lógica dos programas de fidelidade voltados ao consumidor final. O catálogo de prêmios foi atualizado, e o programa passou a se comunicar de forma distinta com cada perfil dentro da loja: proprietário, gerente e balconista recebem mensagens, missões e benefícios diferentes.

Outra novidade é o Clube do Proprietário, com benefícios exclusivos para o dono da loja, como capacitações e descontos em serviços. Vendedores e gerentes passam a concentrar mais pontuação recorrente, com base nas vendas que realizam dentro da plataforma. E entram no programa ferramentas de engajamento contínuo: missões, quizzes e campanhas com pagamento em Pix ou pontos, que podem ser segmentadas por região, perfil ou objetivo comercial da indústria.

A lógica por trás dessa engenharia é capturar dados de comportamento. Cada interação, venda e participação em campanha vira informação que a indústria pode usar para ajustar sua estratégia comercial.

WhatsApp, IA e os próximos movimentos

Fora do programa de fidelidade, a Juntos vem testando outras frentes para acelerar a digitalização do varejo. A mais promissora, segundo Dutra, é a venda via WhatsApp, lançada em setembro de 2025. A operação fatura 30 milhões de reais por mês e está sendo integrada a sistemas de inteligência artificial para automatizar pedidos, recomendações e atendimento.

A leitura da empresa é que o pequeno lojista do interior não precisa, necessariamente, entrar no aplicativo da Juntos para comprar de forma digital. "A gente ligou e entendeu a necessidade do cara na ponta comprar de uma maneira digital, mas não significa estar dentro da nossa plataforma. Poderia ser no WhatsApp", afirma Dutra.

O executivo, que começou a carreira como trainee da Ambev e está no grupo Votorantim desde 2015, assumiu a Juntos com mandato amplo. Além de acelerar a transformação do modelo de negócio, precisa equilibrar as demandas das três sócias, que têm estratégias e prioridades distintas, e ampliar o ecossistema sem perder a tração que vem das indústrias controladoras.

O crescimento de receita fora das sócias chegou a 40% em 2025 e deve triplicar em 2026, segundo a empresa.

A pressão competitiva no varejo de construção, com margens mais comprimidas e necessidade de aumento de giro, joga a favor da tese da Juntos. Mas o desafio segue sendo o mesmo desde 2018: convencer 150 mil lojistas espalhados pelo Brasil de que vale a pena trocar o caderno de pedidos pela plataforma. E convencer 30 — agora caminhando para muito mais — indústrias de que a digitalização do balcão passa por uma operação compartilhada, e não por sistemas próprios.

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