Juro para PME deve cair e para grande empresa, subir, com coronavírus

Empresários de todos os setores têm relatado aumento nos juros de financiamentos em meio à crise, mas dados do Banco Central ainda não mostram alta

Desde o agravamento da crise causada pela pandemia de coronavírus, empresários têm dito que estão com dificuldade para solicitar novos empréstimos e renegociar financiamentos em curso. O motivo é que as incertezas sobre a duração e a intensidade da turbulência financeira teriam levado os bancos a fechar a torneira de crédito.

“Os bancos estão mais seletivos e, em alguns casos, as taxas de juros já subiram”, afirma Miguel José Ribeiro de Oliveira, diretor da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade. Milton Rego, presidente da Associação Brasileira do Alumínio (Abal), faz coro. “Está cada vez mais difícil e mais caro rolar dívidas, impostos e obrigações.”

Diante desse cenário, a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), o Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV), a Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL) e a Associação Brasileira de Franchising (ABF) enviaram ao Banco Central e ao ministério da Economia uma carta na segunda-feira 30 solicitando, entre outras medidas, que atuem de modo a “evitar a elevação desmedida das taxas de juros e solicitações desproporcionais de garantias que inviabilizam o acesso às operações de crédito já existentes no mercado”. Em nota, o BC afirmou que está analisando todos os pleitos que tem recebido e o ministério disse que não comenta medidas em estudo.

As grandes empresas contam hoje com menos opções para captar recursos. Até a eclosão da crise, elas podiam recorrer ao mercado de capitais ou aos bancos. No atual cenário, entretanto, os investidores estão com menos apetite a risco e algumas companhias tiveram de adiar suas ofertas iniciais de ações (IPO, na sigla em inglês) e emissões de dívida.

Naturalmente, as que não podem aguardar a volta do mercado de capitais procuraram os bancos, que agora lidam com custos maiores de captação e de capital, graças ao aumento da percepção de risco do país. “Com isso, as grandes empresas precisam negociar as condições bancárias caso a caso. Isso não significa obrigatoriamente um aumento de juros. Mas pode acontecer em segmentos específicos ou em linhas específicas”, diz um executivo do setor financeiro que não quis se identificar. No entanto, os juros médios – que incluem as taxas de pequenas, médias e grandes companhias – devem continuar estáveis, por causa das melhores condições oferecidas às PMEs.

Os números compilados pelo Banco Central não mostram uma tendência de alta dos juros. O levantamento reúne taxas médias (e incluem todos os portes de empresas, inclusive de segmentos que podem estar enfrentando mais dificuldades). Na linha de capital de giro com prazo até 365 dias, por exemplo, a taxa do BB, Caixa e Santander foi menor em março do que em fevereiro. Já no Itaú e no Bradesco houve aumento.

Capital de giro com prazo até 365 dias (em %, ao ano)

mar/17
mar/18 mar/19 jan/20 fev/20 mar/20*
BB 28,32 14,75 14,02 12,47 12,36 11,57
Bradesco 37,24 24,54 25,28 21,71 20,63 22,20
Caixa 45,65 47,76 40,58 35,84 35,69 34,71
Itaú 32,63 24,51 23,91 21,61 20,21 23,63
Santander 42,09 23,44 32,74 48,99 34,90 34,71

*Até 17 de março

Por sua vez, na linha de capital de giro com mais de 365 dias de prazo, BB, Bradesco, Itaú e Santander apresentaram redução de juros anuais. Só a Caixa registrou aumento.

Capital de giro com prazo de mais de 365 dias (em %, ao ano)

mar/16
mar/17
mar/18 mar/19 jan/20 fev/20 mar/20*
BB 65,26 27,74 14,43 16,53 14,08 13,32 11,57
Bradesco 35,6 27,46 21,92 23,07 18,8 20,93 19,11
Caixa 35,66 32,51 33,57 25,73 18,73 17,91 18,50
Itaú 37,26 28,75 23,44 22,03 20,92 19,76 18,98
Santander 34,04 31,16 25,42 26,59 31,59 29,44 20,18

*Até 17 de março

“É possível que haja alguma volatilidade sazonal, já que se trata de uma compilação de taxas oferecidas tanto para micro empresas quanto para uma Petrobras, por exemplo. Mas não há nada que indique uma mudança de tendência; a expectativa é que as médias se mantenham relativamente estáveis”, afirma o executivo que preferiu não se identificar. “O que pode haver é uma mudança no mix entre varejo e atacado.”

Em nota, o Banco do Brasil afirmou que “não houve mudanças nas taxas do BB desde o período de abertura das renegociações”; o Bradesco fez coro ao dizer que “não mudou a política de taxas de juros para pessoas físicas e jurídicas”, enquanto o Itaú declarou que “não aumentou suas taxas para pessoas físicas nem para micro e pequenas empresas”. A Caixa destacou que apoia as micro e pequenas empresas. “É nossa missão ajudá-las neste momento difícil, criando linhas de financiamento, diminuindo taxas de juros, oferecendo pausa nos empréstimos”, disse, em nota. O Santander não respondeu ao pedido de entrevista.

PMEs

Na semana passada, o Bradesco, Santander e Itaú Unibanco aderiram ao fundo emergencial voltado para o financiamento da folha de pagamento de pequenas e médias empresas (com faturamento anual de até 10 milhões de reais). O objetivo é garantir a sobrevivência dos pequenos negócios e, consequentemente, preservar postos de trabalho.

A linha, que financiará dois meses de folha de pagamento, receberá 85% de funding do Tesouro Nacional, recursos que serão aportados em um fundo a ser administrado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e 15% dos próprios bancos, que serão responsáveis pelo repasse dos recursos a seus clientes.

Os tomadores terão seis meses de carência, e o pagamento parcelado em até 36 meses, com uma taxa de juros equivalente ao CDI, ou seja, sem cobrança de spread. As empresas clientes dos bancos que solicitarem os recursos para o financiamento da folha de pagamento serão submetidas à análise de crédito das instituições financeiras.

O Santander anunciou que empresas que precisarem contratar linhas de capital de giro terão três meses de carência para pagar a primeira parcela. Para isso, elas terão que receber o dinheiro recebido nas feitas feitas em qualquer maquininha de cartão em sua conta no banco.

Já os Microempreendedores Individuais (MEI) poderão ser isentados da cobrança de tarifa do pacote de serviços, realizando TEDs e DOCs gratuitamente por até dois meses. O valor da taxa poderá ser utilizado como crédito para pagamento de contas de energia, água e telefonia em débito automático e DDA.

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