A startup feminina que quer acabar com a desigualdade de gênero nas empresas

A Se Candidate,Mulher!, fundada pela empreendedora Jhenyffer Coutinho, desenvolveu uma plataforma que capacita mulheres para processos seletivos em grandes empresas do Brasil
Jhenyffer Coutinho e Fernanda Miranda, sócias da Se Candidate, Mulher!: startup quer ampliar empregabilidade feminina no Brasil (Lorrayne Chaves Fotografia/Divulgação)
Jhenyffer Coutinho e Fernanda Miranda, sócias da Se Candidate, Mulher!: startup quer ampliar empregabilidade feminina no Brasil (Lorrayne Chaves Fotografia/Divulgação)
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Maria Clara Dias

Publicado em 06/09/2022 às 13:56.

Última atualização em 06/09/2022 às 14:31.

De origem simples e moradia no interior de Minas Gerais, a empreendedora Jhenyffer Coutinho, atual CEO de uma das principais plataformas de empregabilidade do país, sequer sabia o que era uma startup no passado.

Algumas experiências pessoais e profissionais no universo tecnológico das pequenas empresas dentro de instituições como a Associação Brasileira de Startups (AbStartups) e Sebrae fizeram, pouco a pouco, ela se familiarizar com o termo.

Formada em administração, Coutinho sempre foi orientada por professores na Universidade a seguir seu perfil “inquieto”, mas a associação ao risco de empreender sempre a distanciava da abertura do próprio negócio. “Empreender me remetia a instabilidade financeira, algo que eu não queria viver na vida novamente, lembrando de tudo que eu e minha família passamos durante minha infância”, conta.

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Início da trajetória

Coutinho trabalhou como atendente no Sebrae Minas, onde teve seu primeiro contato com empreendedores reais. Ali, entendeu que empreender não está ligado apenas à criação de um negócio, mas também à maneira de mudar a forma como uma empresa tradicional funciona e gere seus negócios. “Me apaixonei pelas disrupções e toda proposta de inovação que as pequenas empresas trazem, e quis conhecer mais do universo das startups”, diz.

Uma proposta de emprego na Associação Brasileira de Startups, em 2018, fez com que a administradora juntasse seus pertences e se mudasse para São Paulo. Dois anos depois, decidiu fazer um intercâmbio nos Estados Unidos para aprender um outro idioma.

O período da viagem acabou coincidindo com o início da pandemia e o baque econômico sofrido por milhões de trabalhadores que ainda enfrentavam inúmeras incertezas diante do fechamento intermitente de empresas e pequenos empreendimentos.

Com as mulheres a realidade não era diferente. Pelo contrário. Mais sensíveis às demissões e dificuldades impostas pela pandemia de covid-19, elas perderam mais postos de trabalho do que homens no período. “Já nos Estados Unidos, estava inscrita em uma newsletter sobre empregabilidade. Logo no início da pandemia, recebi uma delas que dizia que tínhamos sete milhões de mulheres desempregadas, contra cinco milhões de homens”, diz.

Ciente de que o cenário pandêmico agravava ainda mais uma lacuna de gênero já visível no mercado de trabalho e diante de uma pesquisa que indicava que a maioria das mulheres somente se candidatava a uma vaga de emprego quando possuía 100% dos pré-requisitos. Enquanto homens o faziam tendo apenas 60% das exigências.

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Esses foram os pontos de partida para que Coutinho fundasse a Se Candidate, Mulher!, uma startup voltada à empregabilidade e capacitação feminina para o mercado de trabalho. “Quando vi aquela situação, senti que já passava da hora de alguém fazer algo sobre aquilo”, diz. “Agradeço muito à Jhenyffer daquela época por esse salto incerto, pois ele mudou a minha vida”.

Como funciona a plataforma

Criada em maio de 2020, a Se Candidate, Mulher! nasceu como uma newsletter informativa e quinzenal com dicas profissionais, de elaboração de currículos e curadoria de vagas. O número crescente de assinaturas e seguidores logo nos primeiros meses, porém, fizeram o negócio ganhar novos contornos.

“Em um mês, tinha 3 mil seguidores no Instagram. Em três meses, eram 30 mil seguidores no LinkedIn. Então percebi que havia uma oportunidade de negócio ali, por conta de uma audiência sedenta por conteúdo e que eu poderia monetizar aquilo”, diz.

Entre março e dezembro de 2020, a empresa começou a testar diversos formatos para se lançar ao mercado. Dos não escaláveis —como mentorias individuais — aos com algum potencial de escala, como cursos online e mentorias em grupo.

Educação profissional

Hoje, a startup conta com um braço educacional, a SCM Academy, que reúne cursos técnicos voltados à carreira e também ao desenvolvimento pessoal, como comunicação, oratória e preparação para entrevistas de emprego. Depois de aprender sobre hard e soft skills para estarem aptas a participarem de processos seletivos em todo o país, as mulheres passam a integrar um banco de talentos criado pela Se Candidate, Mulher!.

A ideia é que empresas interessadas em ampliar a diversidade e igualdade de gênero em seus times possam buscar profissionais e recrutá-las por meio do banco de talentos da startup. Segundo Coutinho, essa foi uma grande reviravolta para a empresa. “A entrada de grandes empresas no negócio, em 2021, foi uma virada de chave para nós”, diz.

Na prática, hoje cerca de 30 grandes companhias podem oferecer cotas para os cursos da startup para o público em geral e, em troca, passam a ter acesso ao banco de talentos. Na lista das companhias que já aderiram à ação estão Creditas, PicPay, Ambev e Coca-Cola.

Durante a maré de azar que atingiu boa parte das startups e as levou a demitir times inteiros, a Se Candidate, Mulher! liberou gratuitamente o acesso aos serviços de capacitação como forma de acelerar o processo de empregabilidade de mulheres que fizeram parte desta leva de demitidos em empresas como VTEX, Olist, entre outras.

Desde sua fundação, a startup estima ter impactado mais de 2 milhões de mulheres em busca de um novo emprego.

O que vem agora?

Em setembro de 2021, Coutinho e sua sócia, Fernanda Miranda, decidiram que era hora de buscar capital externo para investir em crescimento e tecnologia e abandonar a postura de empresa bootstrapping. Agora, a Se Candidate, Mulher! acaba de fechar uma rodada de R$ 1,2 milhão.

O investimento foi feito pelo pool Ladies do venture capital Bossanova, que conta com nomes como Carol Paiffer, CEO da Atom e Shark Tank; Cassia Messias, COO Zenklub; Lillian Albuquerque, ex-IBM;, Carol Rache, influenciadora digital e empresária e João Keple, fundador da Bossanova. Também participaram da rodada o fundo Sororitê, rede de investidoras anjo que apoia empresa fundadas por mulheres liderada por Flávia Mello e Eric Fridman e os investidores-anjo Larissa Janz e Carlos Sanjuan.

O objetivo é usar o capital para azeitar a máquina de vendas, com destaque para a operação B2B do negócio. Além disso, a plataforma deve ganhar novos recursos de tecnologia e uma plataforma própria para o banco de talentos e de cursos — que hoje já soma mais de 3.000 inscritas. Essas ações devem triplicar o faturamento da empresa — no ano passado, a startup faturou R$ 500 mil.

Para o futuro, a Se Candidate, Mulher! quer impactar meio milhão de mulheres, levando-as de volta ao mercado de trabalho até 2025. Coutinho não descarta a possibilidade da startup também acabar se tornando  um grande braço de diversidade e inclusão de uma grande empresa ou HRTech. “Vemos a movimentação do mercado para ações assim, de fusões e aquisições. A Gupy comprou, a Sólides também. É algo natural”, diz.

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