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RS precisa de lei de incentivo à reconstrução similar à da cultura, diz empresário gaúcho

A proposta de Goldsztein é que se crie uma lei de incentivo à reconstrução, inspirada nos modelos de incentivo já existentes para a cultura e segurança

Claudio Goldsztein, presidente do conselho do Instituto Floresta: "Não existe chance de qualquer plano de reconstrução dar certo se não houver uma parceria mais forte entre o setor público e o privado" (Instituto Floresta/Divulgação)

Claudio Goldsztein, presidente do conselho do Instituto Floresta: "Não existe chance de qualquer plano de reconstrução dar certo se não houver uma parceria mais forte entre o setor público e o privado" (Instituto Floresta/Divulgação)

Daniel Giussani
Daniel Giussani

Repórter de Negócios

Publicado em 20 de junho de 2024 às 10h08.

Última atualização em 20 de junho de 2024 às 20h53.

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Claudio Goldsztein, empresário com experiência no setor imobiliário (a família é dona de uma incorporadora que se associou à Cyrela no Estado) e um histórico de atuação no terceiro setor, está à frente de uma nova proposta para acelerar a recuperação do Rio Grande do Sul após as recentes enchentes.

Natural de Porto Alegre, Goldsztein lidera o Instituto Cultural Floresta (ICF), uma organização que já direcionou milhões em doações para segurança pública e respondeu rapidamente às crises causadas pela pandemia e pelos desastres naturais.

A proposta de Goldsztein é que se crie uma lei de incentivo à reconstrução, inspirada nos modelos de incentivo já existentes para a cultura e segurança.

"Não existe chance de qualquer plano de reconstrução dar certo se não houver uma parceria mais forte entre o setor público e o privado", diz.

Ele propõe que uma nova lei permita que empresas possam destinar recursos diretamente para projetos essenciais de infraestrutura, com incentivos fiscais para agilizar esses processos. Essa abordagem, segundo ele, seria crucial para a rápida implementação de melhorias em escolas, saúde e saneamento.

Leia a entrevista.

O que é o Instituto Floresta?

Como CNPJ, é um instituto que funciona desde 2017. Como grupo, já é algo que mobilizado desde o ano de 2011. Começou com um grupo de amigos, todos empresários, profissionais liberais, para desenvolver iniciativas para ajudar a resolver problemas da comunidade. O primeiro foco foi segurança pública. Em meados de 2015, o Rio Grande do Sul passava por um período muito ruim em segurança pública. Porto Alegre chegou, no ano de 2016, a ficar entre as 50 cidades mais violentas do mundo. E o Estado estava numa crise que não conseguia nem pagar os servidores nem investir no setor. Entendemos que poderíamos ajudar melhorando a qualidade de trabalho do efetivo, com um equipamento melhor, uma viatura mais moderna. A primeira ação foi um mutirão para consertar viaturas. Em 25 dias, conseguimos reativar 100 viaturas. Isso foi fazendo um barulho até liderarmos um movimento de lei de incentivo à segurança, da mesma forma que tem lei de incentivo à cultura. As empresas poderiam destinar valores de ICMS diretamente para segurança pública, para batalhões que estavam precisando de recursos para investir em melhorias. Ela passou a valer entre 2018 e 2019.

E o Instituto Floresta ajuda no desenvolvimento de projetos para a Lei de Incentivo à Segurança?

Isso. Assim como um produtor cultural ou produtora artística devidamente cadastrada pode gerir projetos com lei de incentivo à cultura, nós podemos cuidar para ajudar algum batalhão a fazer a captação, ajudar na parte de captação, prestação de conta. É algo parecido, mas o contrato é entre o batalhão e a fornecedora. Já foram mais de 100 milhões de reais destinados de ICMS para projetos de compra de equipamentos para as polícias.

Como foi agora com as enchentes? Foram pegos de surpresa?

Não fomos pego de surpresa. Já tínhamos uma ideia de como agir. Essa agilidade é algo importante para nós. Na pandemia, por exemplo, antes que o governo comprasse a primeira máscara, nós já estávamos recebendo a segunda carga de EPIs. A dinâmica é completamente diferente, a agilidade é completamente diferente. Os governos podem ter mais força econômica, mas a agilidade, não tem como competir com o setor privado. Agora, com as enchentes, já tínhamos uma ideia de como agir porque houve enchentes também no ano passado.

Em setembro, por exemplo, quando deu uma enxurrada e os órgãos de segurança começaram a se organizar na região do Vale do Taquari, uma das primeiras informações que a gente teve é de que as antenas de celular tinham sido destruídas. Então um grupo de voluntários do Floresta chamou alguns amigos e foram até a região de Roca Salles reativar antenas para potencializar o sinal de rádio do walk talkies. Em novembro, quando aconteceu novamente, pessoal já começou a nos ligar para pedir ajuda. E agora, quando veio essa chuva mais intensa, já sabíamos que ia ter problemas de comunicação. Encontramos um site que mostrava os níveis dos rios e percebemos que a situação seria muito preocupante. Logo começamos a agir. Fomos com 4x4 na região das Ilhas resgatar pessoas, com barcos, antes mesmo do centro de Porto Alegre inundar.

Foi muito rápido.

O que de manhã estávamos fazendo com carro, de tarde já precisávamos fazer com barco. Foi um horror, mas não dá para dizer que fomos pegos de surpresa.

E sobre o sistema de comunicação, vocês tentaram ajudar novamente?

Sim. Imaginamos que teriam novos problemas de comunicação no Vale do Taquari. Já tínhamos ideias de comprar Starlinks ainda no ano passado. Aí acabamos nos mobilizando agora para comprar, contamos com a doação de pessoas, uma campanha nas redes sociais e fizemos o pedido de 300 antenas Starlinks. Entramos em contato com executivos da Starlink, com representantes deles no Brasil, e fizemos a compra. Conseguimos um voo fretado da Azul para trazer, e um batalhão de voluntários para configurar as antenas.

Esse foi o primeiro movimento, mas depois foram fazendo outras coisas?

Aí começou a chover pedidos de ajuda para tudo e qualquer coisa. Barcos, remos, colete salva-vida, motor para barco, hélice para barco. Compramos mais de 30 botes e barcos. Foram milhares e milhares de itens lanternas à prova d'água, rádios comunicadores. Também contribuímos com a parte de logística, porque precisávamos escoar esses itens. Então criamos um centro de distribuição, que já movimentou 2.200 toneladas de mantimentos e ferramentsa para mais de 200 abrigos e 45 cidades.

Como será a reconstrução do Rio Grande do Sul?

Eu tenho certeza que não existe chance de qualquer plano de reconstrução dar certo se não houver uma parceria ainda mais forte entre o setor público e o setor privado. Estamos, por exemplo, ajudando a fazer análise técnica de projetos de infraestrutura de menor porte, mas muito importantes para comunidades locais, para que a iniciativa privada aporte e complemente  recursos. Mas nossa ideia é que se crie rapidamente uma lei de incentivo à reconstrução, de modo semelhante à lei de incentivo à cultura e à segurança. É importante ter incentivos para que empresas possam rapidamente destinar recursos, executar entregas de equipamentos e compensar isso de impostos, para que a gente tenha mais agilidade na execução desse projeto. Será um dinheiro para escolas, saúde, delegacias. Tem que focar na infraestrutura, em obras de saneamento. Se o Estado quiser fazer tudo sozinho, vai ter muita dificuldade. Se o setor privado quiser fazer tudo sozinho, também não vai conseguir. Acho que um foco do Estado seria pensar num instrumento como uma lei de incentivo à reconstrução.

E o Instituto Floresta pode ser um intermediador nesse projeto?

Sim, nós estamos trabalhando para isso. O nosso jurídico vem trabalhando numa minuta para sugerir ao governo do estado que se adote esse caminho. Entendemos que não é um único caminho, são várias iniciativas simultâneas para a gente conseguir botar o estado de pé, mas essa seria uma delas.

Negócios em Luta

A série de reportagens Negócios em Luta é uma iniciativa da EXAME para dar visibilidade ao empreendedorismo do Rio Grande do Sul num dos momentos mais desafiadores na história do estado. Cerca de 700 mil micro e pequenas empresas gaúchas foram impactadas pelas enchentes que assolaram o estado no mês de maio.

São negócios de todos os setores que, de um dia para o outro, viram a água das chuvas inundar projetos de uma vida inteira. As cheias atingiram 80% da atividade econômica do estado, de acordo com estimativa da Fiergs, a Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul.

Os textos do Negócios em Luta mostram como os negócios gaúchos foram impactados pela enchente histórica e, mais do que isso, de que forma eles serão uma força vital na reconstrução do Rio Grande do Sul daqui para frente. Tem uma história? Mande para negociosemluta@exame.com.

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