Michelle Wahdy e Márcia Queiroz, cofundadoras do Ecossistema Fast: rede criada em Goiânia quer se consolidar como uma plataforma de beleza e bem-estar (Fast Escova/Divulgação)
Repórter
Publicado em 2 de julho de 2026 às 09h04.
Em 2018, duas executivas do setor de cosméticos saíram de uma reunião de trabalho em Goiânia com um mesmo problema: estavam sem tempo e sem dinheiro para fazer uma escova no cabelo. Quinze minutos depois, a ideia de um novo negócio estava desenhada em um papel.
O que nasceu ali se transformou na Fast Escova, rede de salões sem hora marcada que hoje opera em todas as capitais brasileiras e projeta alcançar R$ 500 milhões em faturamento até o fim de 2026.
O grupo reúne 450 unidades comercializadas entre as marcas Fast Escova e Fast Spa, emprega mais de 7 mil pessoas e prepara uma nova fase de expansão sob a marca institucional Ecossistema Fast.
"Às vezes, a sua ideia de milhões está justamente no problema que você está vivendo naquele momento. Nós só queríamos fazer uma escova e percebemos que muitas mulheres tinham a mesma dor", diz Michelle Wahdy, cofundadora da companhia.
Antes de empreender, Michelle construiu uma carreira de mais de uma década na Avon. Formada em gestão de pessoas e com MBA na área, ela ingressou na companhia em 2006 e passou 11 anos desenvolvendo equipes e liderando operações comerciais.
Ao longo da trajetória, chegou a gerenciar cerca de 30 mil revendedoras em Goiás. Foi também na empresa que conheceu Márcia Queiroz, futura sócia, e desenvolveu duas convicções que carregaria para a vida empresarial: a paixão pelo setor de beleza e o interesse pela geração de emprego.
Mas a vida tomou alguns rumos inesperados.
Em 2013, Michelle recebeu o diagnóstico de câncer e ouviu dos médicos que teria apenas seis meses de vida. Precisou passar por uma gastrectomia total, retirando 100% do estômago. Meses depois, conseguiu se recuperar e voltou ao trabalho.
A segunda grande virada veio em 2016, com o nascimento da filha, Manuela. Aos cinco meses de vida, a criança foi diagnosticada com a síndrome de Pallister-Killian, uma condição genética rara.
"Eu entendi que precisava escolher melhor o meu tempo. Nunca desisti de trabalhar, mas percebi que queria construir algo que me desse propósito e também autonomia."
A decisão levou Michelle a deixar a carreira corporativa e iniciar uma transição profissional.
Nesse período, Márcia já havia deixado a Avon e criado uma escola de estética em Goiânia. Michelle se tornou sócia em 2017 e assumiu a frente comercial do negócio.
As duas viam potencial na prestação de serviços e na formação de profissionais. Mas, enquanto a empresa crescia, a rotina se tornava cada vez mais intensa.
Em abril de 2018, durante um treinamento, veio o estalo que mudaria a trajetória das duas empreendedoras.
Elas próprias não conseguiam encontrar tempo para cuidar da aparência. Queriam fazer uma escova, mas não tinham disponibilidade para enfrentar a dinâmica dos salões tradicionais, marcados por espera, pouca previsibilidade e preços pouco transparentes.
"Eu escrevi em cerca de 15 minutos o modelo de negócio da Fast Escova. Falei para a Márcia: vamos abrir um salão sem hora marcada, com preço justo e atendimento rápido."
A proposta era criar um serviço de conveniência para mulheres que queriam cuidar do visual, mas tinham pouco tempo disponível.
O plano de negócio indicava que seriam necessários cerca de R$ 300 mil para abrir a primeira unidade. Na ocasião, as duas não tinham recursos.
A solução foi recorrer a empréstimos pessoais. Cada uma levantou R$ 30 mil e iniciou a obra praticamente no improviso.
"Nós não tínhamos nem um real. Começamos pagando pedreiro e fazendo o restante parcelado. Acreditávamos que o próprio negócio pagaria o investimento."
A primeira loja abriu as portas em outubro de 2018, em Goiânia.
O conceito desafiava padrões do mercado de salões de beleza. A unidade funcionava sem agendamento, operava com horários mais amplos e abria até mesmo às segundas-feiras, dia em que muitos estabelecimentos do setor permanecem fechados.
A resposta do mercado foi imediata. Ainda na inauguração, clientes perguntavam se a operação se transformaria em franquia.
Em janeiro de 2019, apenas alguns meses depois da abertura da primeira loja, a Fast Escova vendeu sua primeira franquia.
A expansão ganhou velocidade até ser interrompida pela pandemia de covid-19. O setor de beleza foi um dos mais impactados pelas restrições de funcionamento. Na época, a Fast Escova tinha cerca de 40 lojas em operação e mais de 50 unidades comercializadas.
Em vez de interromper os planos, as fundadoras decidiram aproveitar a crise para preparar o próximo ciclo de crescimento. A companhia mapeou pontos comerciais em regiões estratégicas de grandes cidades brasileiras, intensificou o treinamento dos franqueados e lançou sua primeira linha de produtos.
"Ou a gente ia morrer ou sair mais forte. Escolhemos usar aquele momento para construir a empresa que queríamos ter depois."
A estratégia funcionou. Nos anos seguintes, a rede acelerou sua expansão e ganhou presença nacional. Hoje, a Fast Escova já não se define apenas como uma rede de salões.
O grupo passou a operar sob a marca Ecossistema Fast, estrutura que reúne operações de beleza e bem-estar e inclui marcas como Fast Escova, Fast Spa, Fast Make, Be Fast e Fast Instituto.
A estratégia é conectar diferentes momentos da jornada de autocuidado do consumidor em uma plataforma integrada.
Unidade do Fast Spa: marca aposta em serviços de bem-estar acessíveis e sem necessidade de agendamento (Fast Spa/Divulgação)
"Mais do que uma mudança de nome, é uma evolução estratégica. O consumidor busca praticidade e soluções integradas. Nós queremos estar presentes em diferentes necessidades desse público."
O principal motor de crescimento continua sendo a Fast Escova. A empresa também aposta na expansão do Fast Spa, rede de spas urbanos lançada após anos de estudos sobre o mercado de wellness no Brasil e no exterior.
Para sustentar o crescimento, o Ecossistema Fast destina 20% do faturamento a investimentos em expansão, tecnologia, fortalecimento das marcas e suporte aos franqueados.
A empresa também criou uma estrutura própria de treinamento, reforçou sua governança com a entrada de conselheiros externos e vem regionalizando sua operação pelo país.
A aposta é que a combinação entre conveniência, serviços recorrentes e um modelo de franquias padronizado continue alimentando o crescimento.
Segundo as sócias, a expansão é baseada em estudos de mercado e geolocalização da demanda, considerando o potencial de consumo e a viabilidade comercial de cada região. Isso permite a abertura de unidades tanto em regiões metropolitanas quanto em cidades do interior.
"Investir em tecnologia é importante, mas o nosso grande diferencial ainda são as pessoas. Somos uma empresa de educação e de desenvolvimento de gente. Foi isso que aprendemos na nossa trajetória e é isso que continua sustentando o nosso crescimento", diz Michelle.
A estratégia segue priorizando capitais e grandes centros urbanos, mas a marca já acelera sua expansão para cidades do interior, especialmente em São Paulo, focando em municípios com economia forte e alto potencial de consumo.