Propostas intervencionistas atrasarão a retomada econômica, diz CEO do BB

Em entrevista exclusiva à EXAME, Novaes afirma que a agenda liberal é a resposta para restabelecer a confiança de empresários, investidores e consumidores

A retomada econômica necessariamente passará pela aceleração da agenda de reformas liberais. Esse é o ponto-chave para reconquistar a confiança de investidores, empresários e consumidores, segundo o presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, em entrevista exclusiva à EXAME. “Não podemos perder os avanços que conquistamos com a política fiscal. Obviamente que as metas que tínhamos serão revistas diante da necessidade de amparar os mais vulneráveis neste momento de crise, mas não podemos perder de vista os fundamentos de eficiência no gasto público”, diz o executivo. “A crise de saúde gerada pelo vírus não demora a passar, mas precisamos cuidar para que seus efeitos na economia não sejam ainda mais destrutivos para o nosso país.”

Entre as preocupações de Novaes, está uma prolongada intervenção na economia que poderia atrasar a volta do crescimento do produto interno bruto. Esse tema ganhou ainda mais relevância entre os executivos do setor financeiro com a possibilidade de o Senado aprovar uma proposta de limitar o valor dos juros do cartão de crédito. A votação foi adiada, mas atesta a importância de olhar com lupa o liberalismo em transição – que é abordado na matéria de capa da EXAME publicada nesta quinta-feira.

Para Novaes, o BB deve se sair melhor que os concorrentes devido às características da sua carteira de crédito – formada por linhas de consignado de servidores públicos e de empréstimos voltados ao agronegócio. “Nossos atributos de solidez e de segurança também fazem com que o BB aumente a captação de recursos em períodos de crise. Nos últimos dois meses, desde que se intensificaram os efeitos da pandemia, o BB liberou 108,2 bilhões de reais entre desembolso de recursos novos e prorrogação de operações.”

No primeiro trimestre, a carteira de crédito do banco totalizou 619 bilhões de reais, alta de 4,2% em relação ao mesmo período do ano passado. Por causa desse crescimento e aumento do risco de crédito dado o cenário atual, o BB reforçou o seu colchão contra calotes em 2,04 bilhões de reais, levando o lucro líquido ajustado recuar 20,1% para 3,4 bilhões de reais. Confira abaixo os principais trechos da conversa.

EXAME: Nos últimos anos, o banco vinha dando ênfase a iniciativas como a venda de participação (no BV, por exemplo) e se cogitava até mesmo a privatização do próprio BB. Essas iniciativas caíram por terra ou estão em compasso de espera?

Uma crise econômica mundial desta dimensão resulta sempre na paralisação de negócios que envolvem participações e parcerias. Isso é natural já que a própria precificação dos negócios fica muito prejudicada e os ativos perdem valor. No Banco do Brasil, não é diferente e alguns projetos que avaliávamos estão paralisados no momento. Poderemos retomar as discussões no futuro próximo, quando as condições de mercado ficarem mais claras e desde que agreguem valor aos negócios do Banco. Já no caso da parceria do nosso banco de investimentos com o UBS, nossas equipes continuam trabalhando para lançar a nova empresa no mercado nos próximos meses.

EXAME: O banco tem tido um papel importante em mitigar os efeitos nefastos da crise para pessoas físicas, PMEs e demais empresas. Isso tem sido possível, pois o banco estava mais bem preparado para momentos de crise do que em crises anteriores?

O Banco do Brasil fez uma importante correção de rumos nos últimos anos, recuperando a eficiência de sua atuação e diminuindo a grande diferença na rentabilidade em relação aos seus principais concorrentes. Isso faz diferença neste momento e permite que possamos manter a oferta de crédito aos nossos clientes e ajudá-los a atravessar esse período de turbulência. Crises econômicas são desafiadoras para qualquer banco, mas acredito que o BB irá encontrar menos dificuldades do que os concorrentes devido à característica da nossa carteira de crédito. Somos o principal banco dos servidores públicos e do agronegócios, que são segmentos de clientes que tendem a atravessar melhor este período mais difícil. Nossos atributos de solidez e de segurança também fazem com que o BB aumente a captação de recursos em períodos de crise. Essas condições nos permitem manter a oferta de crédito aos nossos clientes, sem descuidar dos critérios técnicos. Nos últimos dois meses, desde que se intensificaram os efeitos da pandemia, o BB liberou 108,2 bilhões de reais entre desembolso de recursos novos e prorrogação de operações. Não vamos abandonar os nossos bons clientes no meio da tempestade.

EXAME: A maior proximidade com os clientes deve continuar mesmo depois da pandemia? Podemos esperar novas linhas de crédito para ajudar empresas ou pessoas físicas? O que pode ou deve ser feito para estimular a retomada econômica?

A primeira orientação que passamos aos nossos gerentes no início da crise foi que se mantivessem próximos aos nossos clientes para que pudessem identificar rapidamente os primeiros sinais de dificuldades e oferecer soluções financeiras adequadas. Agir antes que uma situação financeira se agrave pode ser decisivo para a sobrevivência de uma empresa. Essa atuação mais próxima dos clientes já era um das nossas estratégias de atuação antes da crise, com a ampliação do modelo de atendimento segmentado. Esse é um caminho sem volta. O aumento da concorrência e do uso de ferramentas digitais requerem um modelo de atuação cada vez mais próximo, mais ágil e mais eficiente. Continuaremos perseguindo essa estratégia.

Em relação a novas linhas de crédito, lançamentos são sempre possíveis, como ocorreu recentemente com a nova linha para financiamento de folhas de pagamentos para empresas com faturamento de R$ 360 mil até R$ 10 milhões por ano. Participamos também de outras iniciativas que não são linhas de crédito, mas que contribuem na mesma direção, como o Benefício Emergencial para preservação de emprego e renda, o BEm, que busca reduzir impactos para os trabalhadores com carteira assinada que tiveram redução proporcional de jornada de trabalho e de salários ou suspensão temporária de contrato de trabalho. E neste momento, está no forno o programa para microempresas com respaldo do nosso fundo garantidor de crédito, que anunciaremos em breve.

Sobre a retomada econômica, ela necessariamente precisará passar pela aceleração da agenda de reformas, tão logo atravessemos o período mais agudo da crise de saúde. Com certeza, as projeções negativas que hoje vemos para o crescimento da economia seriam ainda piores se o país não tivesse aprovado as reformas trabalhistas e, principalmente, a reforma da Previdência. A continuidade das reformas é que dará a confiança a investidores, empresários e consumidores de que o país conseguirá retomar o caminho do controle fiscal que leve a um crescimento sustentável da economia.

EXAME: Na sua opinião, o momento de maior intervenção na economia é algo pontual ou deverá ser permanente? O liberalismo que vínhamos perseguindo se esgotou ou a agenda liberal deve voltar no pós-pandemia?

É muito importante que entendamos o caráter transitório desta crise e que não adotemos medidas com efeitos que se estendam além do tempo necessário e aumentem o déficit fiscal. Nesses momentos, podemos ver ressurgir propostas intervencionistas de todo tipo que só servirão para atrasar a retomada do crescimento econômico. A agenda não muda com a pandemia, mas se torna mais necessária e urgente.

EXAME: Quais legados devem permanecer no pós-crise? Como retomar a economia em um estado endividado?

Alguns comportamentos que percebemos nesta crise nos fazem acreditar que veremos novos hábitos de trabalho, de consumo e de produção. Aqui no BB, ganhamos 2,5 milhões de novos usuários em nosso app em dois meses. Isso representa um ritmo de crescimento quatro vezes superior ao que víamos antes da crise gerada pelo coronavírus. Nossos clientes aceleraram o seu comportamento digital antecipando em vários anos nossas projeções para o uso desses canais. Muitas pessoas resistiam a adoção de ferramentas digitais, por hábito ou por algum tipo de receio, mas agora que descobriram a facilidade e a conveniência não vão voltar ao velho comportamento. Esse será um legado positivo da crise. Tendemos a ser mais digitais e, por consequência, mais eficientes.

E eficiência será uma das chaves para a retomada da economia. Não podemos perder os avanços que conquistamos com a política fiscal. Obviamente que as metas que tínhamos serão revistas diante da necessidade de amparar os mais vulneráveis neste momento de crise, mas não podemos perder de vista os fundamentos de eficiência no gasto público. A crise de saúde gerada pelo vírus não demora a passar, mas precisamos cuidar para que seus efeitos na economia não sejam ainda mais destrutivos para o nosso país.

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