Hervé Le Gavrian, presidente da Michelin América do Sul: “Vamos além da produção de pneus e das experiências culinárias” (Michelin Brasil /Divulgação)
Repórter
Publicado em 12 de janeiro de 2026 às 18h45.
Última atualização em 12 de janeiro de 2026 às 18h46.
Fundada em 1889, na França, pelos irmãos Édouard e André Michelin, a Michelin construiu sua reputação global a partir da inovação. O que começou como uma pequena fábrica de borracha evoluiu para uma das maiores fabricantes de pneus do mundo — e, mais recentemente, para um grupo que aposta em negócios muito além do seu core business.
Um dos exemplos mais emblemáticos dessa estratégia nasceu ainda no início do século 20. Em 1900, a empresa criou um guia com mapas, oficinas, postos de combustível e indicações de restaurantes e hotéis para incentivar o uso dos automóveis. Décadas depois, o Guia Michelin se consolidou como referência global em gastronomia e hoje é tratado internamente como uma linha de negócios própria, dentro do braço chamado “Lifestyle”.
Com presença em 63 países, a Michelin fechou 2024 com faturamento global de € 27 bilhões. Agora, a companhia acelera sua diversificação e amplia a aposta em inovação, sustentabilidade e novos mercados.
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Em 2025, o Guia Michelin completou 125 anos, e a data marca também uma nova fase do negócio. Segundo Hervé Le Gavrian, presidente da Michelin América do Sul, a empresa lançou globalmente, em outubro, as chamadas “Chaves Michelin”, uma curadoria dedicada à hotelaria premium, com critérios semelhantes aos das tradicionais estrelas concedidas a restaurantes.
“Vamos além da produção de pneus e das experiências culinárias”, afirma o executivo. A iniciativa reforça a estratégia de explorar ativos de marca em novos segmentos de consumo e serviços.
Outra frente considerada estratégica é o transporte marítimo. Ainda em 2025, a empresa deve ampliar o projeto Wisamo, uma vela inflável que utiliza energia do vento para reduzir emissões de CO₂ no transporte global de cargas.
“Queremos contribuir de forma significativa para a descarbonização do setor”, diz Gavrian. A solução começa a ser testada na Europa, mas já é apresentada em feiras do setor no Brasil.
Em sua primeira entrevista à imprensa desde que assumiu a presidência da operação sul-americana, em março de 2024, Gavrian detalhou à EXAME os planos da multinacional para a região. Com mais de 30 anos de carreira no grupo, o executivo francês já passou por áreas como produção, finanças e recursos humanos antes de chegar ao cargo atual.
“A energia da organização vem das pessoas. Trabalhamos com três pilares: Pessoas, Planeta e Performance Financeira. Nenhum deles pode ser zero”, afirma.
No Brasil, a Michelin opera oito fábricas, que produzem desde pneus de passeio até componentes digitais voltados a frotas conectadas. A unidade de Campo Grande, no Rio de Janeiro, está entre as cinco maiores do grupo no mundo.
“O Brasil é absolutamente estratégico para nós”, diz o executivo, que comanda a operação a partir da sede no Rio.
A agenda ambiental também tem peso relevante. No sul da Bahia, a empresa mantém há 20 anos a Reserva Ecológica Michelin e participa da iniciativa Juntos pela Amazônia.
“Conseguimos proteger 145 mil hectares de floresta e, ao mesmo tempo, garantir renda para famílias que vivem do extrativismo”, afirma.
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Fora do Brasil, a companhia prepara novos investimentos. Em 2025, a Michelin iniciou no Peru uma unidade de reciclagem de pneus de mineração, em parceria com empresas locais — modelo já adotado no Chile.
No campo industrial, a empresa também desenvolveu pneus de caminhão que utilizam casca de arroz como substituto da sílica, reduzindo o consumo de combustível das frotas em até 9%.
“Essas iniciativas fazem parte da ambição global de chegar a 2050 com pneus 100% recicláveis e produzidos com materiais renováveis”, afirma o presidente.
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O investimento em capital humano segue como prioridade. Globalmente, a Michelin aplica cerca de US$ 240 milhões por ano em treinamentos, com mais de 55 mil módulos online. No Brasil, 46% dos funcionários têm mais de cinco anos de casa, e 20% superam os 15 anos de empresa. Metade da liderança local é composta por mulheres.
Entre os desafios, Gavrian cita a volatilidade econômica e as pressões regulatórias. No Brasil, a empresa anunciou o encerramento gradual da fábrica de Guarulhos em 2025, decisão tomada, segundo o executivo, como última alternativa diante da supercapacidade produtiva causada pela entrada de produtos importados abaixo do custo de produção.
A prioridade, segundo o CEO, é oferecer apoio individualizado aos funcionários, com um pacote social negociado com o sindicato. A unidade produz câmaras de ar para pneus de motos e bicicletas, pneus industriais e produtos semiacabados.
Apesar do cenário desafiador, a companhia mantém a ambição de crescimento. A Michelin projeta elevar o lucro operacional de segmento em 2026, frente a cerca de € 3,6 bilhões em 2023 — reforçando a aposta em inovação, diversificação e sustentabilidade como motores do próximo ciclo de expansão.
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