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O RH do Podpah: como a 'resenha' do YouTube virou grupo de mídia que mira faturamento de R$ 100 mi 

Por trás do clima descontraído, o Podpah já opera como grupo de mídia com metas e novos negócios

Igão e Mítico, fundadores do Podpah (Toco Ribeiro/ EXAME)

Igão e Mítico, fundadores do Podpah (Toco Ribeiro/ EXAME)

Publicado em 10 de abril de 2026 às 13h00.

Última atualização em 15 de abril de 2026 às 07h27.

Quem acompanha o Podpah está acostumado a um mesmo cenário: duas cadeiras de um lado da mesa, outra do lado oposto e, ao centro, uma televisão. É nesse espaço que são gravadas as conversas que ajudaram a consolidar o podcast como um dos mais populares do país. A estrutura por trás das câmeras, no entanto, é menos conhecida.

Na Vila Leopoldina, na zona oeste de São Paulo, a sede do Podpah ocupa um espaço de 6.500 metros quadrados distribuídos em dois andares. No local, trabalham cerca de 100 funcionáriostodos em regime 100% presencial. É ali que se concentram as operações que sustentam a produção e a expansão do negócio.

Enquanto a internet continua vendo os apresentadores Igão e Mítico em conversas descontraídas, o que existe por trás é mais do que um estúdio de podcast: é uma empresa multimilionária e estruturada.

“O Podpah não é só o podcast. O Podpah é todo mundo que trabalha aqui”, afirma Igão, um dos fundadores.

Ali dentro, videogames ligados e geladeiras abastecidas com cervejas dividem espaço com algo bem menos óbvio: reuniões estratégicas, planejamento de crescimento, metas, avaliação de desempenho e um departamento de recursos humanos que organiza a rotina de uma empresa.

O contraste define a empresa hoje. Por fora, a ‘resenha’ que conquistou a internet; por dentro, uma empresa com processos, governança e estratégia dignos de uma operação de mídia que quer faturar mais de R$100 milhões em 2026.

Briga com gigantes

O que começou como uma aposta de dois criadores na pandemia acabou se transformando em um caso empresarial sobre profissionalização da economia dos criadores.

Em 2020, com a quarentena causada pela Covid-19, o formato de podcasts ganhou força no Brasil, impulsionado por plataformas de streaming e pela mudança de hábitos de consumo digital.

Igão e Mítico já tinham carreira na internet, mas buscavam um projeto que pudesse capturar essa nova onda. A expectativa inicial era modesta.

“Se desse 50 mil views por episódio e uns dois mil reais para cada um já estava bom”, diz Mítico.

O crescimento foi muito mais rápido do que eles imaginavam. Em poucos meses, o podcast passou a registrar centenas de milhões de visualizações e atrair grandes artistas, atletas e celebridades. 

Mas, a explosão de audiência trouxe uma indagação: como transformar popularidade em empresa? A resposta veio com a chegada de executivos do mercado corporativo.

Victor Assis, hoje CEO do grupo, já havia passado por grandes marcas e instituições antes de entrar no projeto. Formado em publicidade e propaganda, ele trabalhou no Palmeiras, participou de projetos ligados à Copa do Mundo e às Olimpíadas. Ele já conhecia Igão antes do podcast existir.

“Eu falei para ele: vamos desenvolver o canal primeiro. Quando a gente tiver seguidores e relevância, aí a gente começa a trazer marcas”, diz Assis.

O roteiro mudou rápido. O crescimento do Podpah encurtou etapas e antecipou decisões. O que antes parecia um projeto promissor se tornou, em pouco tempo, uma operação que exigia estrutura, governança e visão de negócio.

“Era impossível imaginar que aquele convite para fazer um podcast viraria o que é o Podpah hoje”, afirma o executivo.

(Foto:Toco Ribeiro/EXAME) - Victor Assis (CEO) e Rafael Romano (COO)

O primeiro grande ponto de virada aconteceu quando o Podpah se tornou o podcast mais ouvido do Brasil. Naquele momento, os fundadores se reuniram para discutir o futuro do projeto.

“Quando a gente chegou ao topo, a pergunta foi: e agora?”, lembra Victor Assis.

A empresa tinha duas opções estratégicas. 

A primeira seria criar uma rede de podcasts — um modelo comum no mercado digital. A segunda seria transformar o Podpah em algo maior: um hub de conteúdo com diferentes formatos de programas para a mesma audiência.

O grupo optou pela segunda alternativa.

A decisão levou à criação do Podpah TV, um canal que abriga diversos programas e formatos, ampliando o alcance do projeto para além do podcast original. Hoje o ecossistema inclui atrações como Rango Brabo, Quebrada FC, Podpah Visita, Podpaquera e Batalha da Aldeia, entre outros conteúdos e especiais.

(Divulgação/Grupo Podpah)

Mais do que adicionar novos programas, a empresa passou a operar com uma lógica de portfólio. A audiência do Podpah se expandiu para territórios como humor, música, games, esporte e cultura urbana. 

O podcast deixou de ser o centro exclusivo do negócio, representando 20% da receita total e passou a funcionar como vitrine principal de uma operação mais ampla, desenhada para gerar receita em múltiplas frentes.

O RH por trás da ‘resenha’

O crescimento acelerado trouxe um desafio: como manter a cultura original sem perder profissionalismo. Durante os primeiros anos, a equipe era pequena e formada basicamente por pessoas próximas aos fundadores.

Mas a mudança para uma nova sede e o aumento da produção de conteúdo exigiram uma estrutura mais robusta. Foi nesse momento que o Podpah decidiu estruturar oficialmente uma área de recursos humanos.

“Quando a gente começou a chegar perto de 40 funcionários, percebemos que não dava mais para funcionar só com indicação de amigos”, explica Victor Assis.

O RH passou a ser responsável por organizar processos de contratação, desenvolver avaliações de desempenho e formalizar a cultura da empresa. Essa cultura, que antes existia apenas de forma informal entre os fundadores e a equipe, foi transformada em um documento com valores claros.

Entre eles estão conceitos como “pular na bala”, que representa a disposição para resolver problemas rapidamente, e “liberdade com responsabilidade”, que resume o modelo de trabalho do grupo.

Rafael Romano, COO da empresa, explica que o processo seletivo do Podpah foi desenhado para priorizar o comportamento dos candidatos, e não apenas suas habilidades técnicas.

“O processo tem três fases. A última é técnica. As duas primeiras são comportamentais e culturais”, afirma.

A lógica é simples: profissionais podem aprender novas habilidades, mas adaptar-se à cultura da empresa é mais difícil.

“Às vezes a gente escolhe alguém menos qualificado tecnicamente, mas que tem uma capacidade maior de conexão com a equipe”, diz Romano.

Além do processo seletivo, o pacote de benefícios ultrapassa o convencional. Existe uma parceria com a Faculdade das Américas (FAM) para um programa de estágio que profissionaliza jovens talentos, além de intercâmbios constantes com marcas parceiras que geram experiências exclusivas para o time — de kits de vestuário a acesso a eventos globais.

(Foto:Toco Ribeiro/EXAME)

Contratações, cultura e o ambiente de trabalho

A nova sede do Podpah reúne estúdios de gravação, áreas de produção e espaços de convivência que refletem a cultura híbrida da empresa — metade startup de tecnologia, metade produtora de entretenimento.

Mas o ambiente informal não significa ausência de cobrança.

“A gente quer que seja uma empresa legal de trabalhar, mas entrega é inegociável”, diz Romano.

No Podpah, o ambiente informal é tratado menos como benefício estético e mais como parte de uma cultura de pertencimento. Para Igão, a construção do time passa também por dar espaço para que as pessoas cresçam para além da função para a qual foram inicialmente contratadas. 

“Eu não quero que a pessoa preencha só uma lacuna. Quero que ela explore outras habilidades também”, afirma. Essa visão aparece no desenho interno de carreira. Em vez de manter profissionais presos a caixinhas rígidas, a empresa estimula mobilidade entre áreas. 

Um editor pode migrar para transmissão, alguém da operação pode ir para produção, e novas demandas podem abrir caminhos rápidos de ascensão. Rafael Romano resume esse movimento com uma frase que ajuda a dimensionar o ritmo da empresa: 

Em cinco anos, saltamos de 8 para 120 colaboradores. Somos uma empresa que gera oportunidades reais: um assistente pode chegar a coordenador em apenas seis meses, dependendo do seu desempenho e da velocidade do nosso desenvolvimento interno”, afirma o COO.

O modelo reflete a própria origem do projeto, que nasceu dentro da cultura da internet, que é um ambiente em que profissionais costumam desempenhar múltiplas funções. 

Um ecossistema de negócios

Hoje, o Podpah opera como uma holding de mídia com diferentes frentes de atuação. Entre elas estão a gravadora Podpah Records, a agência de negócios Black Yellow, a plataforma de cursos Podpah Pro, a produtora de esports Med House e a rede de restaurantes Rango Brabo Burger, que deve iniciar expansão por franquias. O grupo também investe em esportes com o time Funkbol, participante da Kings League, e estuda novas iniciativas ligadas ao futebol feminino.

A diversificação tem uma lógica clara. Em vez de depender exclusivamente da receita gerada por visualizações, publicidade tradicional ou patrocínios pontuais, o grupo quer transformar a marca Podpah em plataforma de negócios. 

O conteúdo segue como a principal alavanca de atenção, mas já não é mais a única fonte de monetização — nem a única frente estratégica.

“O nosso crescimento não vem só de conteúdo digital. Vem de todo o ecossistema de negócios que está sendo criado ao redor da marca”, explica Victor Assis.

Um novo modelo de mídia

O sucesso do Podpah também reflete mudanças no mercado de consumo de conteúdo.

Durante a pandemia, grande parte da audiência assistia aos podcasts ao vivo. Hoje o comportamento mudou: a maior parte do público consome os episódios depois que eles já foram ao ar, durante atividades do dia a dia, como dirigir ou fazer exercícios.

Esse tipo de consumo consolidou o podcast como um formato relevante no Brasil — país que já lidera o consumo mundial desse tipo de conteúdo. Mas o Podpah decidiu ir além desse formato.

A empresa agora se posiciona como uma plataforma de entretenimento que combina conteúdo digital, música, esportes e eventos. Com isso, o projeto se aproxima cada vez mais do modelo de grupos tradicionais de mídia — mas com a agilidade de uma startup.

Ainda tem pra onde crescer?

Cinco anos depois da estreia, o Podpah já não precisa mais provar que acertou o timing nem que entendeu a lógica da atenção digital. O ponto agora é outro. A questão é saber até onde esse modelo consegue ir quando a marca deixa de ser apenas fenômeno de audiência e passa a carregar a ambição de um grupo empresarial.

“Quando a gente começou, o sonho era só dar certo”, lembra Igão. O objetivo é provar que uma estrutura nascida na agilidade do digital pode ter a mesma perenidade das gigantes tradicionais de mídia. 

O caminho para os próximos anos parece ser este: o equilíbrio entre a liberdade de criar e a disciplina de gerir.

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