Controle total da produção é a aposta da marca mineira para crescer com margem (Juliano Arantes)
Redator
Publicado em 13 de fevereiro de 2026 às 09h56.
Última atualização em 13 de fevereiro de 2026 às 10h00.
Por décadas, o chocolate foi tratado como commodity. Preço baixo, produção em massa e pouco espaço para diferenciação no mercado. Nos últimos anos, no entanto, esse modelo massivo de produção começou a ser questionado por consumidores mais atentos a ingredientes, origem e impacto ambiental.
Foi dessa janela de oportunidade que nasceu a Haoma, marca de chocolates brasileira criada em 2017, em Minas Gerais, com o propósito, pouco comum na indústria, de não terceirizar nenhuma etapa do processo produtivo.
Pelo contrário. A Haoma optou por controlar toda a cadeia, da semente cultivada à barra consumida, apostando em um modelo de negócio conhecido, no jargão do setor, como bean to bar. Na prática, isso significa que, em vez de terceirizar operações para baratear custos e ganhar tração, a Haoma trouxe o processo para dentro de casa.
O modelo permite trabalhar com cacau de origem identificada, ter um controle criterioso de cada etapa, garantir rastreabilidade e desenvolver produtos fora do padrão predominante na indústria – atributos que, para um novo perfil de consumidor, são extremamente valiosos.
Marca mineira controla da semente à barra e projeta 100 lojas até 2028 (Juliano Arantes)
Uma produção desse tipo, contudo, tem suas peculiaridades. A estrutura pode aumentar o prazo de retorno, reduzir a velocidade de expansão e tornar o crescimento mais gradual. A Haoma não vê problemas nisso. “Mais do que crescer rápido, nosso foco é crescer bem”, afirma Sérgio Bruno, empresário e sócio da Haoma.
Segundo Sérgio, mesmo com um modelo quase artesanal, a empresa tem potencial para alcançar patamares financeiros não muito distantes aos da produção industrial.
Para 2026, a Haoma projeta faturamento de R$ 100 milhões. Além disso, a empresa, que encerrou 2025 com 16 lojas próprias e três cafés, planeja novas aberturas em Brasília, Goiânia e São Paulo. A meta é chegar a 100 lojas próprias até 2028.
“A escolha pelo bean to bar nunca foi só sobre chocolate. Foi sobre controle, propósito e visão de longo prazo”, defende o executivo. “Não dependemos de intermediários para ditar padrões. Nós criamos os nossos. E isso é um diferencial.”
Sérgio reconhece que o avanço do modelo bean to bar não significa o enfraquecimento do chocolate industrializado. Mas, assim como ocorreu com cafés e vinhos especiais, produtos de maior qualidade tendem a consolidar um espaço próprio, impulsionados por consumidores mais atentos à composição, à origem e ao impacto do que consomem.
Esse movimento revela um público com paladar mais apurado e maior disposição para pagar por diferenciação. “O consumidor compra uma expectativa de chocolate, mas se frustra quando recebe algo construído sem o cacau como protagonista”, afirma o empresário.
“Nosso foco é crescer bem”, diz Sérgio Bruno sobre a expansão da Haoma (Reprodução/Haoma)
Nesse contexto, o Brasil desponta como um dos países com maior potencial para avançar no mercado global de chocolates premium sustentáveis.
O empresário acredita que o desafio não está na produção da matéria-prima, mas na capacidade de transformar origem em valor agregado, deslocando o país da posição de exportador de insumos para a de exportador de marcas.
Para Sérgio, o futuro do chocolate passa pela consolidação de marcas premium, com identidade clara, controle de origem e proposta consistente, capazes de vender menos volume, cobrar mais por produto e preservar rentabilidade.
Em um mercado que começa a valorizar qualidade acima de preço, a diferenciação se torna a principal alavanca do crescimento. “É aí que mora a margem, a recorrência e o crescimento sustentável”, afirma.