O italiano que quer levar internet rápida ao Norte e Nordeste

Alessandro Lombardi, CEO da Piemonte Holding, aposta na aquisição e na construção de data centers para melhorar o acesso longe do eixo Rio-São Paulo
Data center se torna ainda mais importante com o início de operação do 5G (Amy Sacka /Microsoft/Divulgação)
Data center se torna ainda mais importante com o início de operação do 5G (Amy Sacka /Microsoft/Divulgação)
Carlo Cauti
Carlo Cauti

Publicado em 27/12/2021 às 07:48.

Última atualização em 29/12/2021 às 10:47.

Quem mora no Norte e no Nordeste no Brasil sabe que a internet não é exatamente mil maravilhas. Especialmente a móvel. A velocidade média da conexão nessas regiões é de cerca 50 MB/s, mais de 20% menor do que na região Centro-Oeste, a mais rápida do Brasil, onde chega a quase 65 MB/s. A Bahia, por exemplo, tem uma velocidade média de 35 MB/s, a metade do Mato Grosso, que chega a quase 70 MB/s.

Um dos principais problemas é a latência da conexão. Ou seja, o tempo desde que o sinal sai do computador ou do celular, chega até o data center (centro de processamento de dados) onde a informação acessada está armazenada e volta para o aparelho. A falta de data centers nas regiões Norte e Nordeste é justamente um dos gargalos que impedem a velocidade mais rápida da conexão.

A maioria desses data centers – grandes locais onde os dados são armazenados e acessados pelos usuários - está localizada na região Sudeste, mais próxima dos principais mercados consumidores. Isso deixa o Norte e o Nordeste muito afastados. E, por consequência, com internet de pior qualidade.

Os grandes grupos nacionais e internacionais que constroem e operam os data centers muitas vezes não têm interesse, ou até mesmo capacidade, de construir essas infraestruturas em regiões longe do eixo Rio-São Paulo.

“Muitas vezes essas empresas não têm interesse em construir data centers menores, pois se concentram em grandes data centers perto das maiores cidades do país. E com isso temos várias cidades do país, como por exemplo Belo Horizonte ou Salvador, que não têm data centers comerciais nem infraestrutura digital instalados”, explica em entrevista exclusiva à EXAME Alessandro Lombardi, CEO da Piemonte Holding, operadora do setor.

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A Piemonte Holding está comprando data centers Brasil afora com o objetivo de melhorar a conectividade do usuário de internet brasileiro, especialmente em regiões hoje pouco servidas por essas infraestruturas.

Há três anos, a Piemonte Holding começou o projeto Elea Digital, criando um dos maiores grupos de investimento em infraestrutura digital na América Latina. Atualmente, a empresa controla seis data centers, localizados em Porto Alegre (RS), Curitiba (PR), São Paulo (SP), Brasília (DF) e Rio de Janeiro (RJ), com uma potência instalada superior a 10 MW.

Cinco data centers foram adquiridos em leilão de recuperação judicial da Oi (OIBR3, OIBR4), por um valor de 325 milhões de reais. “Uma operação que foi possível graças ao grande suporte fornecido pelo BTG Pactual, que acreditou em nosso projeto”, afirma Lombardi.

O sexto data center foi adquirido em agosto de 2021 do grupo Globo, utilizado pela emissora para transmitir seus produtos nas plataformas digitais.

E as aquisições não vão acabar tão cedo. “Vamos continuar investindo nesse setor, que consideramos muito promissor. Vamos trazer a internet rápida com latência baixa para regiões atualmente sem cobertura satisfatória”, diz Lombardi.

Em 2020, o executivo assinou um memorando de entendimento com o governador do Ceará, Camilo Santana, para a instalação de um novo data center no estado. O objetivo é investir 100 milhões de reais na construção de um novo data center na Praia do Futuro, em Fortaleza.

A escolha da capital cearense não é casual, pois é um ponto estratégico mundial para a instalação de cabos submarinos de conexão à internet. Atualmente, 18 cabos submarinos saem de Fortaleza interligando o Brasil com África, América do Norte, do Sul e Central e Europa. Isso torna a cidade o local com o maior número de conexões com cabos submarinos do mundo.

“Fortaleza tem uma posição privilegiada, pois é o ponto de encontro de várias correntezas marinhas, conhecidas desde à época da descoberta do Brasil pelos portugueses. E essas correntezas ajudam a posicionar os cabos abaixo do oceano”, explica o executivo.

Lombardi fundou a Piemonte Holding no Rio de Janeiro em 2012, após ter trabalhado no Brasil como executivo para a PwC. A ideia era realizar consultorias sob medida para empresas brasileiras que queriam realizar operações como obter financiamentos internacionais e para empresas estrangeiras interessadas em investir no Brasil.

Aos poucos, a empresa se tornou um grupo de tecnologia, focado em segurança digital, tecnologia blockchain e data centers. Hoje a empresa conta com 80 funcionários e 9 MW de potência instalados.

O crescimento da Piemonte Holding foi rápido e conquistou a atenção do Goldman Sachs, que em outubro investiu na controlada Elea Digital. Os valores da operação não foram revelados, mas os recursos serão utilizados para novas aquisições. A entrada no capital do banco de investimento americano ainda aguarda a aprovação da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Segundo Lombardi, com a chegada do 5G no Brasil, a demanda por data center vai aumentar ainda mais. E o objetivo é deixar o país preparado para esse momento.

“Não dá mais para aceitar que, em enormes regiões do Brasil, quando você chama um Uber ou faz algum pedido online, mal consegue ver o veículo se locomovendo no mapa por causa da latência elevada. Isso por causa da falta de data centers", afirma.

"Imagine como poderemos implementar a tecnologia 5G, da internet das coisas sem uma infraestrutura adequada? Mas vamos trabalhar para que isso ocorra em todo o Brasil”, diz Lombardi.