Mette Tangen, cônsul-geral da Noruega no Rio de Janeiro: “O Brasil ocupa uma posição central nas estratégias globais de descarbonização das empresas norueguesas” (Consulado da Noruega/Divulgação)
Repórter
Publicado em 13 de janeiro de 2026 às 11h51.
Última atualização em 13 de janeiro de 2026 às 12h12.
A relação econômica entre Brasil e Noruega começou muito antes de petróleo, energia renovável ou acordos comerciais. Em 1842, o primeiro navio norueguês aportou no Brasil trazendo bacalhau — e voltou à Europa carregado de café. O episódio, citado por Mette Tangen, cônsul-geral da Noruega no Rio de Janeiro, simboliza o início de uma parceria que atravessou séculos e hoje se traduz em uma presença empresarial robusta e estratégica.
“O consulado da Noruega no Brasil foi um dos primeiros abertos após a nossa independência e, desde então, o papel segue muito parecido no setor econômico: apoiar empresas e negócios noruegueses no país”, afirma Tangen, que se tornou cônsul no Brasil em 2023.
A parceria entre os dois países se intensificou com a assinatura do acordo EFTA–Mercosul no ano passado, que promete abrir novas frentes de negócios. Em entrevista exclusiva à EXAME, a cônsul detalha os investimentos das empresas norueguesas no Brasil e o que esperar dessa relação bilateral neste ano.
Atualmente, cerca de 300 empresas norueguesas estão atualmente ativas no Brasil, gerando cerca de 120 mil empregos, sendo 34 mil diretos e 84 mil indiretos. Juntas, essas companhias respondem por uma contribuição estimada de US$ 5,1 bilhões ao PIB brasileiro. Esses dados foram divulgados nesta terça-feira, 13, em um evento realizado pelo consulado norueguês no Rio de Janeiro, e fazem parte do relatório “Norway in Brazil: Investment and Trade Report 2025”.
“Em 2024, o estoque de investimentos noruegueses no Brasil alcançou quase US$ 14 bilhões, consolidando a Noruega como o 12º maior investidor estrangeiro no país”, diz Tangen. “Para o tamanho da Noruega, que tem apenas 5,5 milhões de habitantes, esse número é expressivo”.
Entre as empresas mais tradicionais estão nomes ligados aos setores offshore, marítimo, energia, fertilizantes e alumínio, como Equinor, Hydro, Yara, Kongsberg Maritime, Subsea7 e DNV — esta última, segundo o consulado, uma das primeiras empresas norueguesas formalmente estabelecidas no país, ainda nos anos 1970.
No mercado global, segundo Tangen, o Brasil já ocupa a terceira posição entre os principais destinos globais dos investimentos noruegueses, atrás apenas da Europa e dos Estados Unidos.
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Se no passado a relação foi impulsionada pela navegação e, depois, pelo petróleo, hoje a transição energética se tornou um dos principais vetores da cooperação bilateral. Desde 2023, a cônsul afirma que as empresas norueguesas investiram US$ 1,8 bilhão em projetos de energia renovável e soluções de baixo carbono no Brasil, abrangendo energia solar e eólica, bioenergia, hidrogênio e descarbonização industrial.
“A transição energética deixou de ser apenas discurso. Ela já se traduz em projetos concretos, investimentos de longo prazo e geração de valor local”, afirma a cônsul.
Segundo ela, o Brasil ocupa posição central nas estratégias globais de descarbonização das empresas norueguesas, graças ao potencial renovável e à escala do mercado.
Entre os projetos destacados estão o complexo eólico Ventos de Santa Eugênia, da Statkraft, na Bahia — maior projeto eólico da empresa fora da Europa —, as usinas solares e eólicas da Hydro Rein conectadas ao Sistema Interligado Nacional, e a produção de amônia renovável da Yara, em Cubatão, que utiliza biometano e reduz as emissões em até 75% por tonelada produzida.
O fortalecimento dos investimentos caminha junto com a expansão do comércio bilateral. Em 2024, as exportações norueguesas para o Brasil somaram US$ 2,1 bilhões, enquanto as importações chegaram a US$ 2,4 bilhões, tornando o Brasil o principal parceiro comercial da Noruega na América Latina.
“O principal produto importado do Brasil é o óxido de alumínio, que responde por 46% das compras norueguesas no país, seguido por ração para peixes e soja, que são insumos estratégicos para a aquicultura norueguesa”, diz a cônsul.
Do lado das exportações, os setores marítimo e offshore seguem como motores, mas há crescimento em serviços empresariais, tecnologia da informação, indústrias eletrointensivas e alimentos.
O comércio de pescados mantém seu peso histórico. O Brasil está entre os principais mercados para os frutos do mar da Noruega, com vendas que alcançaram US$ 102 milhões em 2024, puxadas principalmente pelo bacalhau seco e salgado (clipfish).
Bodo, Noruega - O Brasil está entre os principais mercados para os frutos do mar da Noruega, com vendas que alcançaram US$ 102 milhões em 2024, puxadas principalmente pelo bacalhau seco e salgado (David Lidstrom - UEFA / Colaborador/Getty Images)
O acordo de livre comércio entre o Mercosul e a EFTA, assinado em 2025 após anos de negociação, é visto pela Noruega como um marco capaz de transformar a relação econômica com o Brasil. Para Tangen, a prioridade deste ano é avançar na ratificação para que o acordo entre em vigor nos dois países.
“Nossa prioridade número um é trabalhar para que o acordo seja ratificado. Ele foi negociado por muitos anos e tem um grande potencial de mudar a nossa relação econômica”, afirma.
A redução de tarifas e barreiras prevista no acordo, segundo a cônsul, pode abrir espaço para novos setores (como móveis corporativos e residenciais, tecnologia em saúde e economia circular) além de energia e offshore, tornando o mercado mais acessível para empresas de médio porte e ampliando oportunidades também para companhias brasileiras.
“Com a queda das taxas de importação, o mercado se torna mais competitivo”, diz.
A entrada em vigor do acordo EFTA–Mercosul depende da ratificação, ou seja, do processo de validação dos países envolvidos, mas pode passar a valer bilateralmente assim que Brasil e Noruega concluírem seus trâmites internos.
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