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"Mulheres não devem se sentir 100% prontas para ocupar espaços", diz Rachel Maia

A executiva, primeira mulher negra a assumir o cargo de CEO no Brasil, participou do evento Agora é que são Elas, da EXAME e Movimento Aladas. Também estiveram presentes Tayná Leite, do Pacto Global da ONU, e Amanda Graciano, da Fisher Venture Builder

Rachel Maia, fundadora e ceo da RM consulting, durante o evento Agora é que são Elas: mudança começa a nível individual (Youtube/Reprodução)

Rachel Maia, fundadora e ceo da RM consulting, durante o evento Agora é que são Elas: mudança começa a nível individual (Youtube/Reprodução)

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Luciana Lima

Publicado em 17 de novembro de 2022, 15h42.

Última atualização em 17 de novembro de 2022, 15h48.

Criar indicadores e metas claras é um consenso quando se discute quais são os principais passos para a promoção da diversidade dentro das organizações.

Mas, só isso não basta: é preciso trabalhar a nível do indivíduo para empoderar as pessoas de grupos minorizados e fazê-las acreditar que são capazes de ocupar diferentes espaços na sociedade.

Essa foi a reflexão de Rachel Maia, fundadora e CEO da RM consulting e primeira mulher negra a ocupar um cargo de CEO no Brasil.

A executiva participou de um painel sobre a agenda da ONU para mulheres durante o "Agora é que são Elas”, evento da EXAME em parceria com o Movimento Aladas de empreendedorismo feminino.

Ao lado de Maia estavam Tayná Leite, gerente sênior de direitos humanos e gênero do Pacto Global da ONU, e Amanda Graciano, sócia e head de relacionamento com corporações na Fisher Venture Builder.

"Hoje, nós temos a responsabilidade de acreditar que somos capazes. Dados mostram que mulheres precisam estar 100% prontas para aplicar para vagas, enquanto homens podem ter apenas 60% dos requisitos", disse Rachel Maia durante o painel.

"Então, antes de gerar a oportunidade em nível corporativo, é preciso trabalhar o aspecto do indivíduo. Afinal, se houver a oportunidade e não tiver quem preencher? O mundo corporativo é feito por CPFs. Então, nós, individualmente, temos de ser protagonistas dessa revolução", continuou.

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A executiva, que já foi CEO da Lacoste e da Pandora, comentou que muitas mulheres a procuram com dúvidas sobre aceitar ou não cadeiras em conselhos de administração de empresas. Algumas citam, por exemplo, a baixa idade como empecilho.

"Eu digo: mas quem te perguntou essa parte dos 50 anos para ocupar uma vaga em um conselho? Ninguém! Vai lá e se candidata. Se capacite, inscreva-se em um curso, ouse um pouco mais. Precisamos ousar mais para que tenhamos uma agenda com metas reais", concluiu Maia.

Economia do cuidado

A economia do cuidado, ou seja, o fato de, ainda hoje, as mulheres serem, majoritariamente, responsáveis pelo trabalho doméstico também foi lembrado por Tayná Leite, da ONU, como uma das razões pelas quais o número de executivas em posições de c-level ainda é baixo, apesar de mulheres, média, terem mais anos de estudo que os homens.

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"E quando ele não é feito por mulheres brancas que se 'empoderaram', esse trabalho é feito por mulheres negras ou de classes sociais mais baixas. Ou seja, só vamos avançar quando mudarmos essa base", disse.

"Mulheres e outras minorias não brotam nas posições de liderança. Há razões sociais e históricas pelas quais temos mais homens, brancos, heterossexuais, cisgêneros e de uma certa classe social em posições de poder. Por isso, alcançar a paridade de mulheres em cargos executivos será um sinal de que resolvemos vários problemas, além de insumo para continuar esse ciclo de inclusão", finalizou.

Igualdade de gênero como transformação social

Leite também comentou o quanto a igualdade de gênero está intrinsecamente ligada às 17 metas que fazem parte dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas.

A agenda proposta pela ONU, criada em 2015 propõe uma série de metas e indicadores para combater problemas sociais, como a erradicação da pobreza, o combate à fome, educação de qualidade, acesso à saúde e água potável, redução das desigualdades, entre outros. 

"A igualdade de gênero, a ODS 5,  é um tema que toca muito o setor privado. E todos os secretários que vieram foram enfáticos: sem igualdade de gênero, não vamos atingir nenhum dos outros objetivos. No Brasil, essa temática também aborda a problemática da desigualdade racial", disse Leite.

A importância da educação, inclusive, para avançar a agenda da inclusão foi lembrada por Rachel Maia. "Antes da ODS que trata da igualdade de gênero, está a ODS que aborda a educação, que está no centro de todas as 17 metas. Ou seja, a educação é a mola propulsora para que essa agenda aconteça", declarou.