Gato: Pesquisas sugerem que a convivência com felinos ativa hormônios ligados ao vínculo social e auxilia na regulação emocional e do estresse (Nils Jacobi/Getty Images)
Freelancer
Publicado em 18 de janeiro de 2026 às 08h53.
O mercado pet brasileiro ganhou escala, tecnologia e capital. Mas, por anos, tratou os gatos como um apêndice do universo dos cães. Nos pet shops, os produtos para felinos costumavam ficar no fundo da loja — quando existiam — e quase sempre eram adaptações malfeitas.
Foi desse incômodo que nasceu a Woolie, marca brasileira de design especializada exclusivamente em gatos, fundada em 2020 por Daniel Mostacada e Mário Minatel. A empresa surgiu da experiência pessoal de Daniel, tutor de nove gatos, e da dificuldade prática de encontrar produtos pensados para o comportamento felino.
Cinco anos depois, a Woolie entra em uma nova fase. A marca, que construiu relevância no modelo direto ao consumidor, agora testa escala no varejo físico com franquias próprias, em um movimento que combina negócio, logística e impacto social.
“Quando a gente ia ao pet shop, tinha que andar até o final da loja para achar algo para gato. Mesmo assim, era produto de cachorro pequeno adaptado”, diz Daniel Mostacada, CEO e cofundador da Woolie.
O plano é ambicioso: transformar lojas em hubs de experiência, adoção e distribuição, sem perder o controle da marca nem a proximidade com o cliente. O faturamento foi de R$ 5 milhões em 2025.
Antes de fundar a Woolie, Daniel construiu carreira no mercado financeiro. Foram cerca de 15 anos entre consultoria na Accenture e cinco anos no Itaú BBA. A virada veio em 2020, em meio à pandemia.
“Eu tinha duas gatas, morava em apartamento e queria colocar mais fontes de água pela casa. Só encontrava fontes rosas, azuis, barulhentas, comedouros de cachorro pequeno”, afirma. “Comecei a estudar por que os gatos não conseguiam comer direito nesses comedouros.”
A resposta estava na ergonomia. Gatos sentem desconforto ao encostar os bigodes nas bordas retas dos potes, o que interfere na alimentação. A partir daí, Daniel passou a estudar design, marcenaria e desenvolvimento de produto como hobby, até transformar o aprendizado em negócio.
Para estruturar a operação, chamou Mário Minatel, executivo com passagem por Loggi, Delivery Center e Shopee, sempre focado em operações e logística.
“A gente é uma empresa bootstrap. Investimos nosso próprio dinheiro no começo”, diz Minatel. “Desde sempre, tudo o que teve de lucro foi reinvestido na empresa.”
A Woolie começou com três produtos: um comedouro ergonômico desenhado no Brasil, uma fonte de água filtrada e silenciosa importada e uma caminha produzida localmente. O plano inicial era simples: testar.
“Fizemos uma importação pequena, com estoque para seis meses. Em um mês, acabou tudo”, diz Daniel. “Foi aí que a gente falou: realmente tem mercado.”
Com a validação, a empresa captou recursos com investidores-anjo e, no início de 2021, Daniel deixou o mercado financeiro para se dedicar integralmente à Woolie.
Hoje, a marca soma milhares de pedidos enviados, 40% da base formada por clientes recorrentes e um portfólio com mais de 300 SKUs. No fim de 2024, inaugurou um hub logístico próprio em São Paulo, com capacidade atual de processar 2 mil pedidos por dia.
Loja da Woolie: negócio 100% focado em gatos (Divulgação/Divulgação)
No início, a decisão mais difícil foi estratégica: vender produtos existentes ou criar uma marca própria, com design exclusivo.
“O caminho mais fácil seria revender produtos que já existiam. Criar marca e produto demora mais e é mais difícil”, diz Daniel. “Mas hoje a gente vê que foi fundamental. A Woolie não existiria se a gente não tivesse escolhido esse caminho.”
Essa decisão impactou diretamente a operação. Produzir no Brasil exige mais tempo. Desenvolver na China exige capital antecipado e planejamento. O equilíbrio entre qualidade, estoque e caixa virou um desafio permanente.
“Tudo que vem de fora é pré-pago antes de chegar no Brasil. Fazer esse malabarismo de fluxo de caixa, sem venture capital, é muito desafiador”, afirma Minatel.
No início, Daniel empacotava pedidos e levava aos Correios. A mudança veio rápido.
“Na segunda semana, a gente decidiu: Correios não escala”, diz. “Sempre que a gente toma uma decisão, pensa se isso é escalável ou não.”
Com a experiência de Minatel, a Woolie terceirizou a logística logo no começo, garantindo capacidade para crescer sem travar a operação. Em 2024, o movimento se inverteu: a empresa internalizou o centro de distribuição para melhorar a experiência do cliente.
“Internalizamos porque percebemos que, com nosso crescimento, a experiência não estava boa o suficiente”, afirma Daniel. “A entrega faz parte do produto.”
A entrada no modelo de franquias veio após a consolidação da operação digital. Hoje, 86% do faturamento da empresa ainda vem do e-commerce próprio, canal visto como essencial para conhecer o cliente e fortalecer a comunidade.
A demanda por lojas físicas surgiu dos próprios consumidores. Primeiro, em pop-ups dentro de cat cafés. Depois, no formato completo.
“A franquia junta adoção de gatos com venda de produtos. Isso é um valor muito importante para a Woolie”, diz Daniel. “Por que não criar um espaço que ajude na adoção e, ao mesmo tempo, gere movimento e experiência?”
Assim nasceu o Woolieverso — a junção de Woolie com universo.
Mais do que um ponto de venda, o Woolieverso funciona como residência temporária para gatos resgatados, todos vacinados e castrados. Os produtos ficam em uso real, testados pelos próprios animais.
“A franquia também vira um hub logístico regional”, afirma Minatel. “Com estoque local, a gente reduz custo e tempo de entrega, que são fatores que fazem o cliente desistir da compra.”
O plano é usar a força digital da marca — que alcança mais de 8 milhões de pessoas por mês no Instagram — para impulsionar as vendas locais. Estudos internos mostram que a presença física gera crescimento de 12% a 14% nas vendas online na mesma região.
O investimento varia conforme o formato. Uma unidade menor pode ser implantada a partir de R$ 40 mil a R$ 50 mil. Lojas completas podem chegar a R$ 200 mil. O payback estimado é de 1,5 a 2 anos.
Nos dois primeiros anos, a Woolie não cobra taxa de franquia.
“A gente quer testar, sentir o mercado e garantir qualidade”, diz Minatel. “A gente ganha na venda dos produtos.”
O modelo inclui projeto arquitetônico, mobiliário, mix de produtos, treinamento e suporte em marketing digital. A ideia é abrir cinco novas unidades ainda no eixo Sul-Sudeste, com planos de expansão para outras regiões a partir de 2026.
A Woolie também se posiciona como uma marca de causa. A empresa já participou direta ou indiretamente da adoção de mais de 500 gatos e realiza ações recorrentes de conscientização.
“Gato não é praga. Gato é um animal incrível”, diz Daniel. “A gente tenta mostrar isso de uma forma leve, interessante e acessível.”
O concurso Gato SRD Mais Bonito do Brasil já soma mais de 12 mil inscritos e mais de 1,1 milhão de votos. Em 2024, a iniciativa teve mais de 3 mil gatos inscritos em uma única edição.
“Isso cria comunidade. E comunidade cria marca”, afirma.
Nos próximos cinco anos, a ambição é clara: fazer da Woolie a principal referência em franquias e adoção de gatos no Brasil. Mais do que o número de unidades, a empresa quer ser lembrada por ter redefinido a forma como o mercado pet enxerga os felinos.
“Mais do que vender produto, a gente quer estar presente no dia a dia dos gatos e das pessoas”, diz Daniel. “Esse sempre foi o DNA da Woolie.”