Camila Policarpo, à frente da Ducié: “Daqui cinco anos, quero levar os produtos para todo o Brasil e ser reconhecida como uma empresa que tem orgulho de sua origem”
Jornalista especializada em carreira, RH e negócios
Publicado em 8 de dezembro de 2025 às 15h00.
A receita que mudou a vida de Camila Policarpo começa com três ingredientes: chocolate meio amargo, coco babaçu e coragem. Essa mistura deu origem ao brownie que colocou a Ducié no mapa e transformou uma engenheira desempregada em referência da gastronomia regional. Hoje, o negócio criado por ela em Imperatriz (MA) cresce mais de 20% ao ano, registrou aumento de 38% na demanda nos últimos doze meses e, em épocas de pico, chega a produzir mensalmente mais de mil unidades do carro-chefe. O produto virou a assinatura da confeitaria e cruzou fronteiras: já chegou a outros quatro estados e se tornou o item mais pedido nos canais digitais e nos pontos físicos em que a marca está presente. Agora, o plano é ter uma cozinha maior e, em breve, a primeira loja para consumo no local – um passo natural para fortalecer a presença no segmento de doces artesanais premium.
O impulso para empreender veio antes dos equipamentos e das receitas. Graduada em Engenharia de Produção, com MBA em Gestão de Estratégia Empresarial, a maranhense imaginava seguir carreira em grandes operações. A trajetória, no entanto, tomou outro rumo depois que ela perdeu o emprego e se viu, aos 28 anos, diante da necessidade de recomeçar. “Não sabia o que fazer sem o trabalho e meu psicológico estava 100% abalado”, lembra.
Mesmo sem dominar a técnica, sempre teve afinidade com o universo da confeitaria, o que a ajudou a escolher o caminho. A urgência fez o resto: investiu cerca de R$ 6 mil do seguro-desemprego em utensílios básicos e começou em uma cozinha improvisada, com um fogão de uma boca e sem forno.
No Maranhão, o movimento de mulheres que migram para o empreendedorismo por necessidade cresce ano após ano: segundo o Sebrae, elas representam quase 50% dos MEIs da região, com ampla presença no setor de alimentação. Camila se encaixa nesse retrato e encontrou um diferencial ao observar que o município de Imperatriz tinha muitas doceiras, mas poucas com identidade própria ou produtos regionais. “Sempre busco me destacar em tudo o que faço”, afirma. Essa inquietação a levou a pesquisar ingredientes locais até chegar ao brownie meio amargo de coco babaçu. A união entre inovação e tradição é, inclusive, a base da estratégia.
“O intuito é detalhar as riquezas e o orgulho de ser maranhense”, explica. O uso do ingrediente em diferentes variações, conecta sabor, território e saberes extrativistas, posicionando a Ducié como referência da gastronomia regional contemporânea. A aposta em insumos nativos fortaleceu cadeias femininas extrativistas, especialmente a das quebradeiras de coco babaçu, uma das maiores redes de trabalho comunitário da localidade.
Como resultado do trabalho, venceu a etapa nacional do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, na categoria Microempreendedora, em 2025. A visibilidade atraiu parcerias e solidificou a reputação como inovadora na região. Também recebeu a premiação no 4º Festival Gastronômico de Imperatriz, no ano passado.
Fundada em 2021, a confeitaria cresceu junto ao movimento de valorização gastronômica regional que tem marcado o Nordeste nos últimos anos. No Brasil, o mercado de doces artesanais movimenta mais de R$ 1 bilhão ao ano, e a capital de São Luís está entre os estados em que a busca por produtos locais premium cresceu mais rápido, impulsionado tanto pelo turismo quanto pelo consumo interno.
Camila ressalta que o apoio do Sebrae, desde o início, foi fundamental para a construção e crescimento da operação. Os cursos ajudaram na formalização como MEI, na estruturação dos processos e na gestão da operação.
Atualmente, a Ducié mantém produção estruturada, embora ainda artesanal, e contrata diaristas em períodos de maior demanda. A narrativa maranhense, os sabores locais e a consistência da qualidade se tornaram ativos de marca, alinhados à ascensão de empreendimentos liderados por mulheres e à tendência nacional de consumir alimentos com história, origem e propósito.
Os próximos passos já estão definidos. Ampliar a cozinha, tornando-a industrial; desenvolver uma linha própria de itens regionais; e expandir a distribuição para outros estados são alguns dos planos. Hoje, está presente em Goiás, Santa Catarina, São Paulo e Distrito Federal, além do Maranhão. A abertura do primeiro espaço físico permitirá que o público viva a experiência da marca de forma completa. “Daqui cinco anos, quero levar os produtos para todo o Brasil e ser reconhecida como uma empresa que tem orgulho de sua origem”, projeta.
A trajetória de Camila ecoa a de milhares de mulheres que empreendem com coragem, criatividade e resiliência. Da cozinha improvisada ao prêmio nacional, do fogão de uma boca ao crescimento planejado, sua história revela o poder de transformar adversidade em sabor. Seu conselho resume esse caminho: “Não desista. Comece pequeno, mas comece com verdade e vontade de fazer diferente.”