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Kichute: o que aconteceu com o tênis que calçou o Brasil nos anos 1970

O tênis foi lançado em 1970 pela Alpargatas, aproveitando a popularidade do tricampeonato mundial conquistado pela seleção brasileira de futebol

Kichute: calçado chegou a ter mais de 9 milhões de vendas anuais (Reprodução)

Kichute: calçado chegou a ter mais de 9 milhões de vendas anuais (Reprodução)

Daniel Giussani
Daniel Giussani

Repórter de Negócios

Publicado em 26 de abril de 2026 às 08h12.

Era um tênis preto, de lona, com solado de borracha cheio de cravos. Até causava chulé. E ainda assim, nos anos 1970 e 1980, era o calçado mais desejado pelos meninos brasileiros.

O Kichute foi um misto de tênis e chuteira produzido no Brasil pela Alpargatas. A empresa, fundada em 1907 por imigrantes escoceses, já era conhecida por fabricar as Havaianas. Com o Kichute, ela criaria outro ícone, embora com um destino bem diferente.

O tênis foi lançado em 1970 pela Alpargatas, aproveitando a popularidade do tricampeonato mundial conquistado pela seleção brasileira de futebol.

Com o slogan "Kichute, calce esta força", teve seu ápice entre 1978 e 1985, quando suas vendas ultrapassaram 9 milhões de pares anuais — o equivalente a quase 10% da população brasileira comprando pelo menos um par por ano.

A partir da década de 1990, o Kichute começou a perder espaço no mercado brasileiro de calçados.

Qual é a história do Kichute

O Kichute nasceu da combinação entre praticidade e paixão nacional: o futebol.

Era uma mescla de calçado esportivo com chuteira feito de lona resistente e com solado de borracha com cravos. O design era simples — todo preto, cadarço longo que muitos enrolavam na canela antes de amarrar. Servia para ir à escola e para jogar bola na rua.

O sucesso do tênis foi reforçado pela forte publicidade.

Se marcas como Adidas e Nike hoje recorrem a Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, a Kichute teve o craque Zico como principal garoto-propaganda. Seu preço acessível e durabilidade também se tornaram populares entre as famílias brasileiras, especialmente aquelas que buscavam alternativas econômicas para seus filhos.

Mais barato que chuteiras tradicionais e tênis importados, o Kichute virou uma solução econômica para as famílias brasileiras. Em 1978, a Alpargatas lançaria sua marca Topper e compraria a Rainha. O Kichute, porém, continuava sendo a menina dos olhos da empresa, ao menos por mais alguns anos.

Como foi a queda do Kichute

A partir da década de 1990, o Kichute começou a perder espaço no mercado brasileiro de calçados.

Isso se deveu a vários fatores: a abertura econômica do país, que trouxe mais concorrência externa; a mudança no perfil dos consumidores, que passaram a valorizar mais a moda e o conforto.

O mercado mudou rápido. Os novos tênis importados chegavam com tecnologia, cores e marketing agressivo. O Kichute, simples e preto, ficou para trás.

Em 1996, a Alpargatas decidiu descontinuar sua produção para concentrar esforços em outras marcas como Havaianas e Topper, consolidando sua aposta em novos nichos de mercado. O tênis que havia calçado uma geração inteira saiu de linha sem cerimônia. Nos anos seguintes, a Vulcabras adquiriu os direitos da marca, mas não lançou a linha.

Em 2022, o Grupo Alexandria anunciou ao mercado que faria um retrofit para voltar com a Kichute como uma marca digital, sem lojas físicas. Mas o plano não saiu do papel. A empresa focou no relançamento do calçado Bamba, outro sucesso da Alpargatas.

O que sobrou da Kichute

A nostalgia vende. Em sites como Mercado Livre e OLX, pares originais e em bom estado de Kichute são disputados e podem valer mais de 500 reais, dependendo da conservação e da numeração. O tênis que custava centavos virou relíquia.

Hoje, o Kichute não é mais exatamente uma marca, é um modelo de calçado. O nome ficou, o produto se diluiu.

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