(J Studios/Getty Images)
Redação Exame
Publicado em 20 de abril de 2026 às 17h30.
Durante o Brazil at Silicon Valley 2026, muito se falou sobre inteligência artificial. Modelos, infraestrutura, capital e a velocidade desse avanço dominaram o debate, como esperado em um momento em que a corrida global por IA redefine cadeias de valor, competitividade e poder entre países e empresas.
Os grandes modelos seguem concentrados em empresas como OpenAI, Google e Anthropic. Há investimentos massivos em infraestrutura, acesso a dados e talento altamente especializado. Não há atalhos nesse nível do jogo.
Ao mesmo tempo, o evento evidenciou uma segunda camada igualmente relevante: a capacidade de transformar tecnologia em valor. Isso passa por articulação, execução e presença nos ambientes onde decisões são tomadas.
Participei desta edição pela terceira vez e a percepção se consolida. O Brazil at Silicon Valley se firma como um dos principais fóruns do ecossistema de inovação conectado ao Brasil. Não apenas pelo conteúdo, mas pelo que acontece ao redor.
Estar no Vale do Silício, nesse contexto, é mais do que acompanhar tendências. É vivenciar um ambiente onde capital é alocado, empresas são construídas e decisões estratégicas acontecem em ritmo acelerado.
Ao longo dos dias, busquei visitar empresas, encontrar empreendedores brasileiros que estão construindo negócios de escala global, estabelecer conexões com investidores e entender, de perto, como esse ecossistema evolui.
Existe uma energia particular nos entornos de Stanford que combina densidade intelectual com velocidade de execução. O Brazil at Silicon Valley captura essa dinâmica de forma singular. Outro ponto relevante é sua origem.
Organizado por estudantes brasileiros de Stanford e Berkeley, com governança estruturada e curadoria criteriosa, o evento demonstra a capacidade do Brasil de criar fóruns globais e atrair quem está, de fato, construindo o futuro.
Ao longo da programação, ficou claro que o valor econômico da IA não está apenas na capacidade de prever ou sugerir, mas na integração aos fluxos reais de operação. Embora a tecnologia seja desenvolvida em escala global, a captura de valor acontece na aplicação, muitas vezes em contextos locais e específicos.
Nesse contexto, o avanço de agentes de IA, como os discutidos por João Moura, da CrewAI, aponta para uma nova etapa. Softwares deixam de ser ferramentas e passam a executar tarefas complexas de forma autônoma, com impacto direto em produtividade e modelos de negócio.
O principal aprendizado, no entanto, está na interseção desses fatores. A tecnologia avança rapidamente, o capital se move em escala e as oportunidades se multiplicam. Ainda assim, capturar valor depende de algo adicional: estar inserido nos ambientes onde decisões são tomadas.
É aqui que a inteligência de comunidade ganha relevância. Não como substituto da tecnologia, mas como fator de aceleração. Trata-se da capacidade de conectar empreendedores a investidores, tecnologia a aplicações reais e o Brasil a oportunidades globais.
O Brasil reúne condições relevantes para ampliar seu papel nessa dinâmica. Há talento técnico, empreendedores com ambição global, setores complexos e uma presença crescente em hubs internacionais. O que o BSV evidencia é esse potencial: empreendedores brasileiros construindo negócios de escala global ganham visibilidade diante de investidores sobretudo internacionais.
Essa exposição a capital e parceiros globais não é acessória. É parte essencial do processo de escala. O desafio, portanto, não é apenas tecnológico. É também de posicionamento. Colocar o Brasil, e mais brasileiros, nos fóruns onde decisões são tomadas passa a ser parte central da estratégia.
O Brazil at Silicon Valley cumpre esse papel ao atuar como catalisador dessas conexões. Mais do que um espaço de discussão, é um ponto de encontro onde relações se formam e oportunidades começam a ganhar forma. Nesse contexto, inteligência de comunidade deixa de ser um conceito abstrato e passa a ser uma capacidade prática de articulação, com impacto direto na geração de valor.
O Brasil pode não liderar, no curto prazo, a construção dos grandes modelos. Mas pode ampliar sua relevância na aplicação, na conexão entre ecossistemas e na presença em arenas estratégicas. Isso passa por tecnologia, passa por capital e passa, sobretudo, por pessoas conectadas às redes certas e atuando de forma coordenada.
Diogo Garcia é líder dos Programas de Startups da KPMG Brasil e cofundador da comunidade Confraria do Empreendedor.