Eduardo Costa, do Grupo Farroupilha: “Hoje, o Brasil tem mais de 12.000 pontos de recarga, mas menos de 3.000 são rápidos de verdade" (Carlos Macedo / Esquina do Futuro/Divulgação)
Repórter de Negócios
Publicado em 19 de janeiro de 2026 às 11h29.
Última atualização em 19 de janeiro de 2026 às 13h48.
A corrida pela infraestrutura da mobilidade elétrica acaba de ganhar um novo capítulo — e ele começa no Sul do Brasil.
Até março de 2026, Porto Alegre vai receber o eletroposto mais potente do país, capaz de carregar um carro elétrico em apenas 15 minutos.
O projeto é da Esquina do Futuro, rede de eletropostos criada pelo Grupo Farroupilha, holding gaúcha com faturamento de R$ 500 milhões e mais de 20 mil atendimentos diários.
A empresa acaba de firmar uma parceria com a fabricante catarinense WEG e com a integradora Tupi para trazer ao país sua primeira High Power Charger, carregadora ultrarrápida de 480 kW — potência nunca antes instalada no Brasil.
O movimento marca uma nova fase da Esquina do Futuro, que vem crescendo com foco em recarga rápida, operação própria e padrão de conveniência. Agora, a empresa mira também o avanço tecnológico e a interiorização.
“Essa é uma entrega inédita no país. Nenhuma outra empresa está operando um carregador com essa potência e padrão de infraestrutura”, afirma Eduardo Costa, fundador da rede.
A novidade chega num momento estratégico. Em 2025, a expectativa é que o Brasil ultrapasse 330.000 veículos eletrificados vendidos. Isso representa mais do que o dobro do volume registrado dois anos antes — e pressiona montadoras, redes e governos a acelerar os investimentos em recarga.
“Hoje, o consumidor ainda não tem confiança de que vai encontrar um ponto disponível e funcional. Essa é a principal trava do mercado. A gente está enfrentando esse problema com operação, e não só com equipamento”, diz Costa. Segundo ele, os pontos da Esquina mantêm disponibilidade acima de 99%.
O novo carregador de 480 kW será instalado no Complexo do Futuro, um centro multisserviço que a empresa está construindo em Porto Alegre. O espaço terá café, conveniência, banheiros, Wi-Fi gratuito, áreas de descanso e expositores para montadoras testarem lançamentos elétricos.
O investimento na unidade será de 1,5 milhão de reais, com capacidade de carregar até quatro carros ao mesmo tempo. De acordo com o fabricante, o tempo de recarga pode variar, mas alguns modelos terão carga completa em até 15 minutos, dependendo da bateria.
Ao todo, a Esquina do Futuro já adquiriu mais de 50 carregadores rápidos e ultrarrápidos, e agora acelera a segunda fase de expansão.
Além da parceria com a WEG, a Esquina do Futuro também fechou um acordo com a prefeitura de Porto Alegre para testar carregamento rápido em vias públicas, algo inédito no país.
A iniciativa, parte do programa Living Lab POA, vai começar com oito pontos estratégicos, incluindo locais como a Praça da Encol, o Parque Germânia e a avenida 24 de Outubro.
Os carregadores terão potência de 40 kW, apropriada para baixa tensão, e serão equipados com câmeras com inteligência artificial, sensores de presença e Wi-Fi gratuito. A meta é garantir segurança e confiabilidade para incentivar a adoção do carro elétrico urbano.
“O desafio não é só infraestrutura. É confiança. O motorista só vai trocar de carro se souber que não vai ficar na mão”, afirma Costa.
A história da Esquina do Futuro começa longe do Brasil — mais precisamente, no trajeto entre Los Angeles e Las Vegas. Entre 2014 e 2018, Eduardo Costa morou na Califórnia com a família. Depois de vender a rede de postos que operava no Rio Grande do Sul, decidiu tirar um tempo para estudar, acompanhar o crescimento do filho e observar o que o futuro da mobilidade reservava.
Foi nesse período que ele testemunhou o que chama de “o ponto de virada da Tesla”. “Eles perceberam que só vender carro não bastava. Precisavam entregar infraestrutura. E aí começaram a instalar carregadores rápidos em lugares estratégicos”, diz. O exemplo mais simbólico, segundo ele, foi a instalação de um ponto de recarga em Primm, no meio do deserto de Nevada. “Ali virou o marco zero da revolução elétrica. Não era só tecnologia. Era logística, conveniência, visão de longo prazo.”
De volta ao Brasil, a ideia ganhou nome, projeto e endereço. A Esquina do Futuro seria mais que um eletroposto. Seria um ponto de recarga rápida com operação completa: loja de conveniência, banheiros, café, espaço de convivência e um ambiente para testar produtos sustentáveis — batizado de Lançamento do Futuro.
A inspiração veio no momento certo. A frota de veículos elétricos no Brasil, que ainda engatinhava em 2018, deu um salto nos últimos anos. Só em 2024, as vendas de carros eletrificados cresceram 113%, impulsionadas pela entrada de novas montadoras, queda nos preços e benefícios fiscais.
“Hoje a gente vê muito carregador lento em supermercado ou estacionamento. Isso não resolve. O motorista precisa de estrutura, de uma boa experiência. E isso ninguém está entregando ainda com consistência”, afirma Costa.
A proposta da Esquina do Futuro vai na contramão dos grandes players que tentam ganhar o mercado pela quantidade. Enquanto algumas empresas espalham milhares de carregadores em estacionamentos e supermercados, a Esquina aposta em locais com operação ativa, atendimento humano e padrão de conveniência.
“Ninguém quer sentar no meio-fio enquanto o carro carrega. A gente vê carregador instalado na frente de lavanderia, sem banheiro, sem cobertura, sem nada. Isso é um desserviço”, diz. Em Porto Alegre, por exemplo, a unidade da Avenida Nilo Peçanha já virou ponto de encontro. Outras foram instaladas em bairros como Menino Deus e Santa Cecília, com novas chegando na zona sul e em cidades vizinhas.
Cada ponto precisa cumprir três critérios: segurança, conveniência e estrutura operacional. Se não tiver os três, não entra. “Nem tudo vira Esquina do Futuro. Às vezes a gente só instala o ponto, mas ele precisa estar no lugar certo. Um bom posto é como um bom restaurante. Tem que ser onde as pessoas querem estar”, afirma.
O custo para montar uma unidade completa pode passar de 10 milhões de reais. Mas o retorno, segundo Costa, já é positivo: “Está se pagando. Melhor do que eu esperava, inclusive. Mas eu sei que isso vai mudar. Vai vir concorrência. Vai ter guerra de preço. E aí só quem operar bem vai sobreviver.”
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