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Grupo Boticário supera R$ 38 bilhões em vendas: 'Sem tecnologia, não faríamos o que fazemos hoje'

Com 26 milhões de clientes no programa de fidelidade, o Grupo Boticário aposta em IA e sistemas próprios para crescer

Fernando Modé, CEO do Grupo Boticário: "Queremos transformar a fidelidade em uma forma de experiência de compra exclusiva" (Leandro Fonseca /Exame)

Fernando Modé, CEO do Grupo Boticário: "Queremos transformar a fidelidade em uma forma de experiência de compra exclusiva" (Leandro Fonseca /Exame)

Isabela Rovaroto
Isabela Rovaroto

Repórter de Negócios

Publicado em 14 de abril de 2026 às 06h16.

Última atualização em 14 de abril de 2026 às 15h05.

Para Fernando Modé, CEO do Grupo Boticário, tecnologia é a espinha dorsal do negócio. "Sem essa evolução em tecnologia, a gente não conseguiria fazer nem metade do que está fazendo hoje", afirmou o executivo em entrevista à EXAME. "Tanto a lógica de dados quanto a retirada de atritos nos processos do consumidor foram fundamentais."

O Grupo Boticário registrou R$ 38,1 bilhões em vendas ao consumidor (GMV) em 2025, consolidando a liderança do setor de beleza no Brasil em participação de mercado, segundo pesquisa do painel Homescan da NielsenIQ, realizada presencialmente em domicílios que representam 90% do potencial de consumo urbano do país. O grupo também lidera, pelo mesmo critério, as categorias de perfumaria, maquiagem e cuidados com a pele.

O avanço do Boticário acontece num momento de contraste com a principal concorrente do setor. No último ano, a Natura registrou receita líquida de R$ 22,2 bilhões em 2025, queda de 5%, em meio a um processo de reestruturação que inclui a venda da Avon Internacional. O GMV da Natura no período foi de R$ 47 bilhões.

"O setor cresceu menos de 6% em 2025, contra 13% em 2024", diz Modé. Crescer acima do mercado nesse cenário, segundo ele, é a prova de que a vantagem competitiva construída ao longo de anos começa a se traduzir em resultados estruturais.

Como o Grupo Boticário desenvolveu tecnologia própria

A base da estratégia tecnológica do Boticário está numa decisão tomada há anos e que hoje se revela um diferencial difícil de replicar: todos os sistemas de transação da companhia são proprietários. Do e-commerce ao aplicativo, passando pelas lojas físicas e pela venda direta, cada compra realizada em qualquer canal do grupo é registrada, identificada e processada por plataformas da própria empresa.

Um único CPF é reconhecido de forma unificada em todas as marcas e canais do grupo. O consumidor não precisa criar cadastros diferentes para O Boticário, Quem Disse, Berenice? ou Beleza na Web. Para o grupo, isso significa uma base de dados transacional integrada, capaz de mapear o comportamento de compra de cada cliente ao longo do tempo e em diferentes contextos.

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Essa jornada de internalização tecnológica tem exemplos concretos. Um deles é a F360, plataforma de gestão financeira que nasceu dentro da própria rede de franqueados, desenvolvida originalmente por um franqueado que buscava resolver suas próprias dores operacionais. O grupo enxergou o valor da solução, comprou os dados da sua base de lojas e incorporou ao seu ecossistema, transformando uma iniciativa de base em ferramenta estratégica de gestão da rede. Hoje, a F360 segue de forma independete do grupo e atende outros varejistas.

"A gente partiu com essa visão em 2021 e foi mais recentemente que conseguimos completar essa jornada de viabilizar tudo isso. Estamos longe ainda do ponto de chegada, talvez nunca haja um ponto de chegada aqui. A gente vai evoluir sempre", diz Modé.

Os 26 milhões de clientes no programa de fidelidade

O principal produto visível dessa infraestrutura tecnológica é o programa de fidelidade Beautybox, que encerrou 2025 com base ativa de 26 milhões de clientes — consumidores que transacionaram com o grupo nos últimos 12 meses. O grupo tem mais de 60 milhões de CPFs cadastrados no total.

Lançado em 2024 com investimento de R$ 35 milhões, o Beautybox é uma plataforma gamificada que oferece descontos exclusivos, frete grátis, presentes de aniversário e até convites para visitar as fábricas do grupo. Mais de 1,3 milhão de clientes já iniciaram ao menos um dos desafios disponíveis na plataforma.

"Nosso programa de fidelidade, o maior do setor de beleza do país em número de participantes, é responsável por unificar os benefícios e vantagens das nossas marcas. Queremos transformar a fidelidade em uma forma de experiência de compra exclusiva", diz Modé.

O executivo destaca que o valor do Beautybox não está apenas na atração de novos clientes, mas na retenção e no aumento da frequência de compra dos já existentes.

"A gente está muito mais olhado não para a operação que acontece no canal, mas para a vida desse consumidor. O que gera mais opções de compra, mais frequência e maior LTV", diz o CEO.

IA e o desafio da demanda

Menos visível para o consumidor, mas igualmente estratégica, é a aplicação de inteligência artificial preditiva na gestão de estoques e previsão de demanda.

O desafio, no caso do Boticário, é particularmente complexo: a cada 21 dias, o grupo renova catálogos, lança produtos, atualiza preços e aciona campanhas em múltiplos canais — do Instagram ao TikTok, passando pelo catálogo da venda direta e pelas vitrines das lojas físicas.

"A previsão de demanda é uma coisa que a gente vai errar. Mas a gente precisa errar em parâmetros que permitam atender minimamente a demanda do consumidor com menos ruptura. E aí tem muita tecnologia para isso. A inteligência artificial preditiva é o que equaciona essa visão de demanda, ela é importantíssima", diz Modé.

Hoje, cerca de 70% das previsões de demanda para os franqueados são feitas pela própria companhia, por adesão voluntária dos parceiros. O resultado prático é a redução de estoques de segurança, menor nível de ruptura e menos perdas.

"A gente consegue absorver variações de demanda de até 300%. Às vezes dá 500% e aí não conseguimos dar conta, mas para 300% estamos preparados", diz o CEO.

A tecnologia também sustenta a capacidade de inovação em produtos. Cerca de 27% das vendas totais do grupo em 2025 vieram de itens lançados há menos de um ano, proporção mantida de forma consistente e que reflete um processo estruturado de desenvolvimento baseado em dados do consumidor.

O grupo utiliza desde metodologias proprietárias de escuta do cliente, como o processo interno chamado de "design do valor", que busca entender o que o consumidor de fato valoriza antes de incrementar atributos de produto, até consumidores sintéticos criados por inteligência artificial para simular comportamentos e orientar decisões de portfólio.

Um lançamento que chamou atenção foi uma linha de volume capilar desenvolvida para consumidores que usam medicamentos emagrecedores e sofrem com o afinamento dos fios, necessidade captada pelo radar de dados da companhia antes de virar tendência ampla no mercado.

"Tem muito dado por trás disso. A gente oferece esse tipo de solução entendendo o consumidor com essa necessidade no tempo certo", explica Modé.

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