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Gigante da Itália aposta no Brasil para fabricar 300 milhões de itens de beleza

Grupo Alfaparf anuncia compra da brasileira Coferly. Com três fábricas no Brasil, multinacional quer triplicar produção e transformar o país em centro de exportações

Grupo Alfaparf: Presente em mais de 120 países e com 11 fábricas próprias, o grupo colocou o Brasil no centro de sua estratégia global (Divulgação/Divulgação)

Grupo Alfaparf: Presente em mais de 120 países e com 11 fábricas próprias, o grupo colocou o Brasil no centro de sua estratégia global (Divulgação/Divulgação)

Karla Dunder
Karla Dunder

Freelancer

Publicado em 9 de janeiro de 2026 às 12h00.

Última atualização em 9 de janeiro de 2026 às 12h40.

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Escala virou vantagem competitiva na indústria de beleza. Em um mercado pressionado por custos, inovação constante e disputa por espaço no ponto de venda, controlar produção e tecnologia passou a ser decisivo.

É nesse cenário que o Grupo Alfaparf Milano, multinacional italiana de cosméticos profissionais fundada em 1980, avança no Brasil. Presente em mais de 120 países e com 11 fábricas próprias, o grupo colocou o Brasil no centro de sua estratégia global após uma sequência de aquisições.

O Brasil passou a concentrar cerca de um terço da produção global, após a compra da Coferly, maior fabricante de produtos de coloração e descoloração capilar para terceiros da América do Sul.

“O private label é um business muito estratégico dentro do grupo. E a Coferly é líder justamente no que é o nosso coração: tintura”, afirma Josué Sampaio, diretor-geral da Alfaparf Milano no Brasil.

O próximo passo é claro: ampliar capacidade, integrar tecnologia e transformar o país em plataforma de exportação.

Os números globais por trás da estratégia

Em 2024, o Grupo Alfaparf Milano registrou receitas totais de 463 milhões de euros, segundo demonstrações financeiras preparadas sob as normas IAS/IFRS. O negócio principal respondeu por 445.974 milhões de euros, crescimento de 15,2% na comparação com 2023.

A divisão de Cuidados com os Cabelos concentrou 64% do faturamento, com 297 milhões de euros. Cuidados com a Pele somaram 31 milhões de euros, enquanto Marcas Próprias atingiram 81 milhões de euros. O varejo de mercado de massa gerou 25 milhões de euros, e produtos para animais de estimação, 10 milhões de euros.

Geograficamente, Europa e Ásia responderam por 49,8% das receitas. A América Latina ficou com 35,8%, e os Estados Unidos, com 14,4%.

O EBITDA alcançou 106,5 milhões de euros, margem de 23%, alta de 28,8% sobre 2023. Os dados de 2025 ainda não foram divulgados.

Por que a Coferly

A aquisição da Coferly não foi oportunista. Segundo Sampaio, ela parte de uma lógica industrial e estratégica.

“Somos uma empresa cosmética 360 graus, mas reconhecidamente muito fortes em tintura. A Coferly é líder em coloração e descoloração para private label na América Latina. A sinergia é direta”, diz.

A empresa brasileira tem 89 anos de atuação, parque fabril de 14.000 metros quadrados e produção anual de cerca de 32 milhões de unidades.

Antes da compra, passou por auditoria de uma Big Four, o que, segundo o executivo, reduziu riscos e deu conforto à matriz.

“Foi constatado o que a gente já via: uma empresa muito organizada, sólida e com um parque industrial interessante”, afirma.

Riscos mapeados e mitigação

O principal risco avaliado foi fiscal. Para Sampaio, esse é um ponto sensível em qualquer aquisição no país.

“O primeiro risco analisado foi o fiscal. No Brasil ainda existe muita insegurança jurídica. A lei é muito interpretativa, então isso precisou ser bem mitigado”, diz.

Outro ponto foi a reação dos clientes de private label, que passam a ser atendidos por um grupo que também concorre no mercado com marcas próprias.

“A preocupação é como o cliente entende ser atendido por uma empresa que também está na gôndola. O que garantimos é qualidade. A Alfaparf é sinônimo de qualidade”, afirma.

Segundo ele, a experiência recente com a aquisição do Grupo Bioclean mostrou que o risco é administrável.

“Vimos que foi muito positivo. A recompra não é a embalagem. É o que está dentro”, diz.

Capacidade industrial: de 100 milhões a 300 milhões de unidades

Com a Coferly, o Brasil passa a operar três fábricas: uma focada em depilatórios e skincare, outra em cosméticos capilares, e uma terceira voltada ao private label capilar.

Hoje, a capacidade produtiva total no país é de cerca de 100 milhões de unidades por ano. O plano é triplicar esse número.

“O Brasil pode chegar a 300 milhões de peças por ano. Vamos investir para transformar a Coferly em uma planta também de tratamento, não só de coloração”, afirma Sampaio.

A estimativa inicial é elevar a capacidade da operação adquirida em 30% a 40%, com investimentos em tecnologia e equipamentos.

Private label vira pilar no Brasil

O private label, termo usado para produtos fabricados para marcas de terceiros, sempre existiu dentro do grupo, mas ganha novo peso a partir da aquisição.

“No Brasil, antes era um negócio tímido. Agora se torna um pilar”, afirma Sampaio.

Segundo ele, a proposta é democratizar o acesso à mesma tecnologia usada nas marcas próprias do grupo.

“A mesma máquina que enche nosso produto enche o produto do cliente. A mesma tecnologia, a mesma matéria-prima, os mesmos fornecedores qualificados”, diz.

Mais de 60% das matérias-primas do grupo ainda são importadas da Europa, por exigência de pureza e padronização global.

Além da escala industrial, o Brasil ganhou relevância estratégica dentro do grupo.

“Hoje, o Brasil voltou a ser a filial número 1. Isoladamente, é o país que mais contribui financeiramente com o grupo”, afirma Sampaio.

A participação brasileira gira em torno de 16% do faturamento global, segundo o executivo, além de ter papel central em testes, desenvolvimento e inovação.

“O Brasil reúne todos os tipos de cabelo do mundo em um só lugar. Isso faz dele um laboratório natural”, diz.

Cultura, pessoas e integração

Na integração da Coferly, a diretriz é preservar a cultura e evitar rupturas.

“Ninguém compra um negócio ruim. Se compramos, é porque é bom. Nossa preocupação é não cometer erros comuns de grandes grupos que impõem uma cultura e encolhem a empresa”, afirma.

Segundo ele, não há planos de cortes e os empregos estão mantidos. A estratégia segue o modelo aplicado na Bioclean, com integração gradual, melhoria de processos e investimento em sistemas e benefícios.

“Queremos preparar essas pessoas não só para a Alfaparf, mas para o mercado”, diz.

Aquisições futuras no radar

O grupo segue atento a novas oportunidades, mas sem pressa.

“Não temos hoje nenhuma empresa em diligência. Estamos sempre dispostos a escutar, mas tem que fazer sentido estratégico”, afirma Sampaio.

Segundo ele, todas as aquisições feitas no Brasil foram sem endividamento.

“A Alfaparf faz aquisições sem loucura financeira. Elas precisam contribuir para o desenvolvimento do grupo”, diz.

Com a Coferly e a Bioclean integradas, o Brasil deixa de ser apenas um grande mercado consumidor e passa a ocupar um papel industrial e estratégico na engrenagem global da Alfaparf Milano.

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