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Gigante alemão tem uma fábrica única no mundo. Ela fica em SP e terá R$ 50 milhões para crescer

Planta paulista é a única do conglomerado alemão thyssenkrupp no mundo dedicada a um tipo de peça, concentra 28% do faturamento da divisão e agora se prepara para mirar a Europa

Alessandro Alves, vice-presidente global de Vendas e Marketing e CEO Brasil: Hoje cerca de 5% da produção da planta paulista é exportada, sobretudo para os Estados Unidos. A meta da thyssenkrupp é chegar a 30% (thyssenkrupp/Divulgação)

Alessandro Alves, vice-presidente global de Vendas e Marketing e CEO Brasil: Hoje cerca de 5% da produção da planta paulista é exportada, sobretudo para os Estados Unidos. A meta da thyssenkrupp é chegar a 30% (thyssenkrupp/Divulgação)

Daniel Giussani
Daniel Giussani

Repórter de Negócios

Publicado em 14 de maio de 2026 às 08h30.

Quem passa por uma rodovia brasileira nesta tarde provavelmente vai cruzar com um caminhão da Scania, da Mercedes-Benz ou da Volkswagen carregando uma peça invisível ao motorista — o feixe de mola que sustenta a suspensão e amortece cada buraco do asfalto.

Em grande parte desses veículos, essa peça saiu de uma única fábrica, escondida no extremo sul da capital paulista.

A planta pertence à thyssenkrupp Springs & Stabilizers, divisão do conglomerado alemão thyssenkrupp dedicada a sistemas de suspensão automotiva. E carrega um status raro dentro do grupo: entre os oito sites da unidade espalhados pelo mundo — entre México, China, Europa e Brasil —, a fábrica de São Paulo é a única dedicada à produção de componentes de suspensão para veículos comerciais pesados, dos caminhões de baixa tonelagem aos extrapesados.

A fábrica concentra 28% do faturamento global da divisão e cerca de um quarto dos 2.500 funcionários da operação mundial. No Brasil, são 800.

Agora, a operação acaba de entrar em uma fase de expansão. A thyssenkrupp Springs & Stabilizers anunciou um aporte de 20 milhões de reais para instalar duas novas linhas de produção de feixes de molas parabólicos — peças mais leves e com melhor desempenho do que os modelos tradicionais. O investimento integra um plano maior, de 50 milhões de reais, que vai elevar a capacidade fabril da planta paulista em 35% a partir de 2027.

A operação passará de cinco para sete linhas de feixes de molas, peça que conecta a suspensão ao eixo do veículo.

"Existe parte de feixes de mola nessa tecnologia que ainda são importados da Europa pelos grandes fabricantes. Foi com foco nesse potencial de mercado que a gente fez o investimento", afirma Alessandro Alves, vice-presidente global de Vendas e Marketing e CEO Brasil da divisão.

O passo seguinte da operação é mais ambicioso: usar a mesma capacidade instalada para inverter o fluxo do comércio exterior. Hoje cerca de 5% da produção da planta paulista é exportada, sobretudo para os Estados Unidos. A meta da thyssenkrupp é chegar a 30%, com vendas para montadoras europeias a partir do norte do continente.

Qual é a história da planta

A história da fábrica começou em 1967, quando a alemã Hoesch desembarcou no Brasil para produzir feixes de mola, depois molas helicoidais e barras de torção.

Em 1992, a Hoesch foi incorporada ao grupo Krupp. Com a fusão entre Thyssen e Krupp, em 1999, a operação passou por sucessivas mudanças de nome até a marca atual da unidade de negócios. Em 1999 também foi inaugurada uma segunda planta no Brasil, em Ibirité, na região metropolitana de Belo Horizonte, dedicada a componentes de suspensão para veículos de passeio.

A divisão de elevadores do grupo, que durante décadas foi a face mais conhecida da thyssenkrupp no Brasil, foi vendida em 2019.

A operação paulista completa 60 anos em 2027 — coincidindo com o término do ciclo de investimentos.

O conglomerado alemão thyssenkrupp faturou 32,8 bilhões de euros no ano fiscal 2024/2025, com cerca de 93.400 funcionários em 48 países, segundo o relatório anual da companhia.

O grupo se divide em cinco grandes segmentos: tecnologia automotiva, descarbonização, materiais, aço e sistemas marinhos — esse último responsável pela construção das fragatas brasileiras que estão sendo produzidas em Santa Catarina.

Como é o mercado

No mercado de caminhões e ônibus, a thyssenkrupp Springs & Stabilizers detém 35% de participação na América do Sul, segundo Alves. Em veículos de passeio, fica em torno de 30%. Entre os clientes da planta paulista estão Scania, Mercedes-Benz e Volkswagen Caminhões e Ônibus.

Há uma operação também em Minas Gerais que atende Fiat, Jeep, Toyota, General Motors, Renault e Nissan.

A lista incorporou recentemente um nome que reorganizou parte da indústria automotiva brasileira nos últimos anos: a montadora chinesa BYD, que estabeleceu fábrica no país.

Por que o aço importa — e os desafios a frente

Em uma operação verticalizada — que parte do aço bruto e entrega o componente pronto, com corte, conformação, tratamento térmico e pintura feitos dentro de casa —, o custo da matéria-prima é determinante.

A thyssenkrupp trabalha majoritariamente com aço de usinas brasileiras, mas importa uma parcela específica da Europa por questões de tecnologia, não apenas de preço.

A planta funciona também como centro global de desenvolvimento tecnológico para veículos comerciais dentro da divisão.

A engenharia local recebe os parâmetros da suspensão do cliente, modela o produto em três dimensões, simula condições reais de estrada em software e testa o componente em bancada que reproduz o funcionamento da suspensão em uso.

Para entrar no jogo das exportações para a Europa, a thyssenkrupp brasileira passou os últimos dois anos sendo auditada por compradores na Suécia e na Alemanha. Os clientes europeus exigem participação em painéis globais de concorrência, processos longos de homologação e o cumprimento de especificações técnicas distintas das praticadas no mercado brasileiro.

A vantagem que a operação tenta vender combina dois argumentos. O primeiro é financeiro: feixes de mola são peças pesadas, e o frete marítimo da Europa para o Brasil — ou vice-versa, no caso de exportações para clientes europeus que produzem caminhões no Brasil — pesa no custo final. O segundo argumento é ambiental: ao localizar a produção, o cliente reduz emissões ligadas ao transporte oceânico, um dado relevante em uma indústria sob pressão crescente por metas de descarbonização.

A meta financeira do plano é de crecer 7% ao ano no faturamento.

O primeiro dos dois novos equipamentos parabólicos já foi entregue e está em fase de implementação. O segundo tem entrega prevista para dezembro de 2026. A produção em escala comercial está marcada para 2027 — quando, se o plano se confirmar, quase um terço do que sai da planta brasileira será embarcado para fora do país.

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