Gibson: a derrocada de um ícone da música

Angus Young, B.B. King e Pete Townshend revolucionaram a música com Gibsons. Empresa pede falência ao ver o interesse por guitarras diminuir entre jovens

No dia primeiro de maio de 2018, uma notícia da editoria econômica abalou os fãs de música. Aos 120 anos, um ícone da cultura norte-americana declarava falência. A Gibson, produtora de algumas das mais icônicas guitarras do universo, se deparava com uma dívida de 375 milhões de dólares e um mundo menos receptivo ao seu icônico produto. Nenhuma novidade de fato: o declínio do mercado de guitarras, a queda livre na venda de instrumentos musicais nos últimos anos e a mudança de perfil da juventude já estavam nas manchetes havia pelo menos uma década. O que provocou uma certa comoção foi menos o fato em si e mais a marca envolvida: uma Gibson é uma daquelas marcas tão fortes que você simplesmente não imagina que possa falir.

Ainda que você não tenha qualquer intimidade com a guitarra elétrica, certamente já viu uma Gibson e possivelmente é capaz de reconhecê-la. Como o modelo SG que Angus Young, do AC/DC, transformou o rock de arena nas últimas décadas. Como o desenho ousado da Flying V que bandas como Megadeth e Slayer mudaram o som do heavy metal no século 20. A famosa Lucille, de B.B. King, era uma versão customizada da Gibson ES-355. De Slash, do Guns’N Roses, a Pete Townshend, do The Who, ambos donos de modelos assinados da marca, não é exagero afirmar que a Gibson ajudou a criar a mística da guitarra elétrica para os fãs de música. Slash e Townshend são parte de uma longa história da marca com músicos que referendam seus modelos, tradição que nasceu com o mais icônico de seus instrumentos. Nos idos de 1941, Lester William Polsfuss, conhecido como Les Paul, insatisfeito com os modelos de sua época, criou uma guitarra chamada The Log e ofereceu à marca. Visto com certa desconfiança no início, o modelo só chegaria ao mercado em 1952, com a primeira versão da Gibson Les Paul, a guitarra que transformou a sonoridade do rock’n’roll que nasceria pouco depois.

Ou seja, a questão esta semana foi menos sobre a saúde financeira do mercado de guitarras e mais sobre a iconoclastia da nova economia, na qual uma marca com raízes profundas e respeitabilidade inquestionável pode ser atropelada pelo tempo, como qualquer outra, se não se adaptar. Até porque os sinais de tempestade já vinham aparecendo há algum tempo. Em junho de 2017, o jornal Washington Post noticiou que a venda de guitarras elétricas nos Estados Unidos, que havia contabilizado um milhão e meio de unidades dez anos antes, estava um terço menor e suas principais fabricantes estavam endividadas. Elas são duas, a Gibson e a Fender, e a primeira poderia ter aprendido alguma coisa com a segunda, que conseguiu se reinventar no começo desta década – até quando, só o tempo dirá.

Fundada por um técnico de rádio chamado Leo Fender em 1948, a empresa que produz os lendários modelos Stratocaster e Telecaster, eternizados por Keith Richards, Jimi Hendrix e Bruce Springsteen, entre muitos outros, lutava em 2012, segundo reportagem do The New York Times, para sobreviver em um mercado que movimentava na época 6,5 bilhões de dólares, 13% a menos do que sete anos antes. De crise a empresa entendia: vendida para a CBS em 1965, ela chegou a registrar prejuízo de 40 milhões de dólares em 1980, auge do sucesso das guitarras Yamaha.

Um plano de recuperação da marca, que focava na recuperação da imagem de produto de qualidade das guitarras Fender e na internacionalização da produção, especialmente mirando o mercado asiático, ajudou-a a atravessar a crise. Em 2001, dez anos depois da morte de Leo Fender, a Weston comprou 43% da empresa por 58 milhões de dólares. Mesmo assim, segundo executivos da empresa, nenhuma crise foi tão pesada como a que ela vivia em 2012, a da era digital. A mesma que destruiu a concorrente Gibson e a indústria fonográfica, intrinsecamente ligada ao mercado de instrumentos musicais – que representava em 2016 nos Estados Unidos um negócio estimado em 6 bilhões de dólares.  

Quando, no ano da chamada pior crise, passou a ser controlada pelas empresas de private equity TGP Growth e Servco Pacific, a nova direção da Fender entendeu que era muito difícil conseguir entreter com uma guitarra um jovem dono de um iPhone. Além disso, era preciso convencê-lo a ter paciência com o instrumento – metade dos consumidores são tidos como iniciantes e uma boa parte deles abandona o instrumento em algum momento pouco depois da compra. A Fender passou a investir em tecnologia e em vídeo-aulas por meio do aplicativo Fender Play, o que a ajudou a manter uma receita de meio bilhão de dólares em 2016.

Foi uma boia, não a salvação em si. Nos últimos três anos, as duas fabricantes de guitarras icônicas sofreram com as mudanças do mercado. Enquanto no período o faturamento da Fender caiu de 675 milhões para 545 milhões de dólares, no mesmo intervalo a receita anual da Gibson caiu de 2,1 bilhões para 1,7 bilhão de dólares.

No Brasil, a situação não é muito diferente. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, a importação de guitarras caiu 70% em cinco anos no país. Se no início de 2012 18.696 guitarras foram vendidas no país, este número caiu vertiginosamente para 5.260 unidades no segundo semestre do ano passado.  Essa queda deu origem este ano a manchetes que indicavam uma redução de 80% nas vendas do instrumento no pais, mas os números podem ser mais um reflexo do momento econômico.

Estudo feito pelo site Música e Mercado mostrou que, se a massa salarial e a taxa de câmbio tivessem se mantido entre um período e outro, a importação de guitarras no país teria crescido 11%. A crise de 2015, a queda dos índices econômicos e a desvalorização cambial precisam, portanto, ser levada em conta nessa equação. Além disso, segundo a revista Music Trades Magazine, dados do censo anual da indústria da música apontaram ano passado, na realidade, um crescimento do número de guitarras vendidas nos Estados Unidos, só que pulverizado por centenas de novos fabricantes menores. O que poderia até arruinar as grandes marcas, mas estaria longe de ser um indicativo ruim de mercado. Ou seja, a culpa pela falência da Gibson seria, acima de tudo, da própria Gibson, por não ter entendido o momento do mercado.

Independente da interpretação dos números, o tempo, como diria uma canção dos Rolling Stones, não espera por ninguém. Mas a resposta definitiva para essa questão talvez esteja em outra composição icônica de Mick Jagger e Keith Richards. “O que resta a um garoto pobre fazer senão cantar numa banda de rock?”, perguntava a letra de Street Fighting Man, gravada em 1968, cuja melodia foi composta por Richards entre 1966 e 1967 em um violão Gibson Hummimgbird. Buscar investimento para um negócio que pode mudar o mundo. Praticar a militância digital. Tornar-se empreendedor de si próprio. Lutar por direitos nas redes sociais. Engajar seus pares a partir do telefone no bolso. Repostas inimagináveis há quarenta anos.

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