Gustavo Werneck, CEO da Gerdau: “Nos EUA, a indústria é defendida de fato, e é lá que a gente tem conseguido os resultados mais robustos da nossa história” (Leandro Fonseca/Exame)
Repórter
Publicado em 19 de janeiro de 2026 às 09h30.
Última atualização em 19 de janeiro de 2026 às 18h56.
Aos 125 anos, a Gerdau chega a 2026 combinando três forças que definirão o seu futuro: uma cultura organizacional que coloca pessoas no centro da estratégia, oportunidades ligadas à transição tecnológica e à sustentabilidade — e uma “prova de fogo” no Brasil, onde a concorrência do aço importado pressiona resultados e investimentos.
“O aço muitas vezes chega no Brasil mais barato que a matéria-prima que a gente manda para fora. Está faltando o Brasil defender um pouco mais a indústria”, afirma Gustavo Werneck, CEO da Gerdau, em entrevista ao podcast De Frente com o CEO, da EXAME.
Hoje, mais de 30% do aço consumido no país é importado. Na avaliação do executivo, o problema não é competição — mas competição desigual, sustentada por subsídios públicos em outros mercados.
“A gente compete de igual para igual com qualquer produtor do mundo. O que não dá é competir com aço que vem com dinheiro público”, diz.
A disparidade aparece com clareza quando se olha para os números. Embora tenha nascido no Brasil, em 1901, a Gerdau vê mais de 60% da sua geração bruta de caixa vir da América do Norte. Segundo Werneck, isso não é fruto de uma escolha recente.
“Essa decisão de ir para a América do Norte tem mais de 40 anos. A gente entendeu lá atrás que ter uma receita forte em dólar seria fundamental”, afirma.
O fato de produzir localmente nos Estados Unidos e no Canadá também ajudou a companhia a atravessar um período de maior rigor comercial.
“Nos EUA, a indústria é defendida de fato — e é lá que a gente tem conseguido os resultados mais robustos da nossa história.”
No Brasil, o cenário é outro, segundo o CEO. “A penetração desleal do aço importado tem corroído os nossos resultados e os investimentos no futuro”.
Ainda assim, Werneck afirma que a demanda doméstica segue firme. “O consumo de aço no Brasil é resiliente. O problema não é falta de demanda, é quem está suprindo essa demanda.”
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Mesmo em um ambiente desafiador, a Gerdau mantém um patamar elevado de investimentos, neste ano será de R$ 4,7 bilhões, com foco especial no Brasil e nos Estados Unidos. O principal projeto hoje é uma plataforma de mineração sustentável em Minas Gerais, que abastecerá a usina de Ouro Branco.
“A competitividade do aço passa por ter uma fonte própria de minério. É uma questão de sobrevivência”, afirma Werneck.
O projeto segue padrões ambientais rigorosos e rendeu à empresa a certificação IRMA, uma das mais exigentes do mundo para atividades minerárias.
Outro pilar estratégico é a economia circular.
“Mais de 70% da nossa capacidade produtiva vem da sucata metálica”, diz o CEO.“Aquilo que para muitos é descartável, como uma bicicleta velha ou um fogão velho, para nós é a principal matéria-prima.”
A Gerdau é hoje a maior recicladora de sucata da América Latina — uma operação que, além do impacto ambiental, movimenta uma cadeia social relevante.
“O Brasil tem cerca de 1 milhão de pessoas que tiram o sustento da reciclagem. Quando a gente tira a sucata da rua, também gera renda e desenvolvimento.”
A tecnologia aparece como uma das principais oportunidades para os próximos anos — desde que usada com disciplina.
“Transformação digital não é moda para nós, é questão de sobrevivência”, afirma Werneck.
A empresa já utiliza algoritmos e inteligência artificial nas usinas, com ganhos concretos de produtividade e redução de custos de manutenção.
“É muito fácil se encantar com a tecnologia e perder o foco. Se ela não gera resultado no final do mês, ela não faz sentido”, diz o CEO que afirma que é preciso ter foco inclusive no uso da IA.
Para sustentar essa agenda, a Gerdau criou até uma escola interna de formação de cientistas de dados, capacitando profissionais para aplicar IA diretamente nas áreas de negócio — e não apenas na área de tecnologia.
Ao longo da conversa, Werneck volta diversas vezes ao mesmo ponto: cultura. Para ele, esse é o ativo menos visível — e mais decisivo — da companhia centenária.
“A gente levou a sério aquela ideia de que cultura vem antes da estratégia. As pessoas são a nossa estratégia”, afirma.
Essa visão se traduz em temas como diversidade, saúde mental e desenvolvimento de lideranças.
“Quando você cria um ambiente onde as pessoas conseguem usar o melhor do seu potencial, a performance vem como consequência”, diz.
É essa combinação — cultura forte, investimentos direcionados e capacidade de adaptação — que, segundo o CEO, permitirá à Gerdau atravessar 2026 com sustentabilidade.
“O que me tiraria o sono não são as eleições, nem a volatilidade global. Seria não ter uma empresa preparada para mudar rápido”.
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A Gerdau surgiu em 1901, em Porto Alegre (RS), como uma pequena fábrica de pregos. A partir daí, cresceu ao longo do século 20 até se tornar uma das maiores siderúrgicas do país e do mundo. Hoje, produz açõ para diferentes setores como construção civil, indústria, agronegócio, setor automotivo, energia e infraestrutura
Conhecida como gigante de aço, a Gerdau já teve filiais em 13 países, mas atualmente está presente em 7 (Brasil, Estados Unidos, Canadá, México, Argentina, Uruguai e Peru), empregando cerca de 30 mil funcionários, sendo aproximadamente 15 mil no Brasil.