Fundador da Ricardo Eletro vira 'coach' após deixar negócio à beira da falência

Mais de 6 mil pessoas aguardavam o início do evento "Explosão de Vendas", que seria conduzido no YouTube por Ricardo Nunes
Ricardo Nunes: novo negócio de cursos e mentoria vem garantindo um bom dinheiro ao empresário, denunciado por suspeita de sonegação (Leandro Fonseca/Exame)
Ricardo Nunes: novo negócio de cursos e mentoria vem garantindo um bom dinheiro ao empresário, denunciado por suspeita de sonegação (Leandro Fonseca/Exame)
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Estadão ConteúdoPublicado em 07/08/2022 às 13:34.

No mês passado, mais de 6 mil pessoas aguardavam o início do evento "Explosão de Vendas", que seria conduzido no YouTube por Ricardo Nunes, 52 anos, fundador da Máquina de Vendas, a dona da Ricardo Eletro - varejista que dribla hoje repetidos pedidos de falência.

Com um público inflamado no chat, o curso, de três dias em modelo híbrido, começou com ele dizendo que seu objetivo era passar o melhor de sua experiência em 30 anos de trabalho para "construir a segunda maior empresa de varejo desse País".

Segundo fontes, o novo negócio de cursos e mentoria vem garantindo um bom dinheiro ao empresário. Procurado várias vezes pela reportagem, Nunes não deu entrevista.

Com 182 mil seguidores no Instagram, rede social que ele também usa para vender seus cursos, o empresário foi denunciado, em junho, por suspeita de sonegação da ordem de R$ 86 milhões.

Nunes também já foi alvo de denúncias de lavagem de dinheiro e chegou a ser preso. "Ele mora nos Jardins, leva uma vida luxuosa e fica postando fotos em avião particular. Enquanto isso, mente sobre o que fez na empresa. Se ele hoje é bilionário, tirou esse dinheiro de algum lugar", diz outra fonte ligada à Ricardo Eletro.

No curso, o empresário enaltece a varejista que construiu, e que chegou a empregar 40 mil pessoas e a faturar mais de R$ 10 bilhões ao ano, brigando com as grandes do setor, como Magazine Luiza e Casas Bahia.

Em recuperação judicial desde 2020, a rede tenta hoje driblar uma série de pedidos de falência, puxados pelos bancos Itaú, Bradesco e Santander. Todas as lojas físicas da companhia foram fechadas. Com um novo dono, o negócio tenta se reinventar como um e-commerce.

Frases de efeito

O jornal O Estado de S. Paulo acompanhou a "live" de Nunes no dia 18 de julho, que teve a participação especialmente de pequenos varejistas do interior do País. Logo de início, ele disse que queria ensinar os ouvintes a enfrentar a concorrência e a fazer caixa. As mensagens negativas que eram publicadas na caixa de comentários do YouTube, incluindo as de ex-funcionários eram deletadas em segundos.

"Paga meus direitos, nem seguro-desemprego consegui por irregularidades suas", escreveu um espectador, que não se identificou. "Ele é carismático, messiânico. Ele chora, transpira. Tem dom de vender, muita capacidade de envolver as pessoas", diz um executivo que teve contato próximo com Nunes na época da Máquina de Vendas.

O executivo lembra que a empresa cresceu muito rapidamente, com aquisições, mas pondera que faltou planejamento. "Em menos de dez anos, ele foi do zero ao topo, e voltou ao zero", diz o executivo, que pediu anonimato.

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As dívidas cresceram rapidamente e, apesar de auditorias apontarem irregularidades nas finanças, Nunes teria omitido até o último minuto a dimensão das dívidas fiscais e trabalhistas, segundo fontes com acesso ao processo de sucessão do fundador.

A necessidade de capital intensivo é uma das características do setor de eletroeletrônicos no varejo. O ciclo de venda é longo e precisa de crédito. Aos poucos, dizem as fontes, o empresário deixou de pagar os credores.

Sempre muito preocupado com o marketing, produtos e estratégia de vendas, Nunes costumava se levantar da mesa se o assunto era contas e governança corporativa.

Estilo de vida

Em um dos processos movidos contra a Máquina de Vendas, os bancos destacaram uma viagem dele com a família em que teria se hospedado em um hotel de luxo, com diária de R$ 5,1 mil, por seis dias. Porém, os credores não encontram bens de Nunes passíveis de arresto.

Sem lojas físicas e com um time de 30 pessoas, o e-commerce aposta hoje na venda de produtos de terceiros e sustenta um faturamento mensal estimado em R$ 600 mil. Nunes vendeu a empresa em 2019, quando ela já afundava em dívidas.

Agora, como "coach" (treinador, em tradução livre), em vez de convencer os consumidores a comprar eletrônicos, ele dedica seu tempo a compartilhar lições que aprendeu na carreira, a um custo de até R$ 10 mil pelos ensinamentos, embora ofereça parte do conteúdo gratuitamente na internet. Nunes adota uma estratégia agressiva de engajamento, com grupos de WhatsApp, ligação via robôs e muitos SMS.

Histórico

A história de Nunes como empreendedor começou cedo, em Divinópolis (MG). No início dos anos 1980, ele vendia mexericas do sítio da família na porta de uma faculdade para completar a renda de casa. O pai morrera dois anos antes, em 1979, deixando uma joalheria como herança. Mas, após um assalto que deixou familiares feridos, sua mãe vendeu o negócio.

O empreendimento de mexericas evoluiu para uma banca na frente da faculdade e, pouco depois, Nunes começou a ir até a Rua 25 de Março, em São Paulo, para comprar produtos de moda e revendê-los em sua cidade. Foi aí que nasceu a Ricardo Eletro, quando ele tinha 18 anos. Oficialmente, a fundação da empresa data de dois anos mais tarde, de 1989, quando começou a ganhar escala.

O crescimento foi forte na década de 2000, quando a rede patrocinava programas na TV aberta para se tornar conhecida nacionalmente. Em 1999, a varejista começou a sua expansão em Belo Horizonte e, em 2002, chegou ao Espírito Santo. Outro marco importante foi a chegada ao e-commerce, em 2009, com 80 mil produtos à venda.

No ano seguinte, a empresa se uniu à concorrente Insinuante, negócio que deu origem à Máquina de Vendas. O grupo tornou-se o segundo maior do varejo de eletromóveis, atrás do Grupo Pão de Açúcar, que tinha Casas Bahia, Ponto Frio e Extra (o GPA, posteriormente, saiu do segmento).

Ricardo Eletro: sem lojas e atrasada no digital, recuperação é um desafio

No auge, em 2014, a Ricardo Eletro chegou a ter 1,2 mil lojas. A maré virou em 2015, com Nunes enfrentando as primeiras acusações de sonegação. Três anos depois, a varejista iniciou um processo de recuperação extrajudicial.

Em 2020, Nunes foi preso, acusado de sonegar R$ 387 milhões, e todas as lojas físicas foram fechadas, em parte por causa da pandemia. O negócio entrou em recuperação judicial e o empresário ficou apenas um dia na cadeia.

Foi nessa época que o empresário Pedro Bianchi - vindo da Starboard, empresa que investe em negócios em dificuldades e que tentava ajudar a varejista - assumiu o comando da Ricardo Eletro e uma dívida de R$ 6 bilhões. Ao mesmo tempo, Nunes partiu para sua nova vida de coach de vendas.

Hoje, a Máquina de Vendas segue em apuros: depois de um vaivém de liminares, a Justiça ainda não autorizou a empresa a sair do status de falência - o que a impede até mesmo de pagar os salários dos atuais funcionários.