Abrir novas unidades costuma ser visto como prova de sucesso. No varejo, porém, expansão não é a mesma coisa que escala. Escalar significa repetir resultado com consistência, manter a qualidade e garantir que cada nova loja funcione com o mesmo padrão da anterior.
Esse é o desafio da Sampa Burger. A rede criada pelos irmãos Giulio e Gian Mirante nasceu na Chácara Santo Antônio, na zona sul da capital paulista, e cresceu rapidamente nos últimos anos. Depois de abrir novas unidades e entrar no modelo de franquias, a empresa chegou a seis lojas. O próximo passo exige organizar processos para que o modelo realmente funcione em escala.
No novo episódio do Choque de Gestão, reality show da EXAME com patrocínio de Santander Empresas e Claro Empresas, quem assume a mentoria é Paulo Camargo, executivo com mais de três décadas no setor de alimentação e ex-presidente do McDonald’s e do Burger King no Brasil.
Conhecido pela abordagem direta, Camargo chamou atenção para um ponto central da estratégia da marca. Para ele, alcançar muitas visualizações nas redes sociais não é o mesmo que construir posicionamento.
Conteúdos virais podem gerar alcance, mas não necessariamente ajudam a transmitir qualidade ou fortalecer a identidade da marca. “É um negócsio ou um canal de humor?”, questiona o executivo.
Da panfletagem na rua a rede de franquias
A Sampa Burger nasceu em 2017, quando os irmãos Giulio e Gian Mirante decidiram abrir uma pequena hamburgueria com apoio da família, na Chácara Santo Antônio, na zona sul de São Paulo. Os dois tinham 21 anos e nenhuma experiência no setor de alimentação, mas apostaram em uma operação enxuta para tirar o negócio do papel.
No começo, o desafio era atrair os primeiros clientes. Sem orçamento para marketing, os próprios fundadores iam para a rua distribuir panfletos na tentativa de aumentar o movimento na loja. “Teve um sábado que a gente vendeu um hambúrguer o dia inteiro”, lembra Giulio no episódio.
A virada veio quando os irmãos passaram a apostar nas redes sociais como principal canal de divulgação. Vídeos, conteúdos pensados para viralizar e parcerias com influenciadores ajudaram a ampliar o alcance da marca e a atrair novos clientes.
Com o aumento do movimento, o negócio começou a ganhar tração. A empresa abriu novas unidades e, poucos anos depois, decidiu apostar no modelo de franquias como caminho de expansão. Em pouco tempo, a rede chegou a seis lojas, sendo quatro delas franqueadas.
O crescimento acelerado aumentou a visibilidade da marca, mas também trouxe desafios típicos de empresas que entram cedo demais em uma fase de expansão. Agora, o desafio da Sampa Burger é transformar esse crescimento inicial em um modelo que consiga se repetir com consistência.
A visita como cliente oculto
Antes mesmo da gravação do episódio, Paulo Camargo decidiu visitar a hamburgueria sem se identificar. Ao passar pelo drive-thru e pedir alguns itens do cardápio, o executivo conseguiu observar detalhes da operação que muitas vezes passam despercebidos pelos donos.
A visita revelou alguns pontos de atenção. O tempo de atendimento foi mais longo do que o esperado, alguns produtos chegaram frios e a montagem dos lanches não transmitia a qualidade que a marca diz querer entregar.
Um dos exemplos apareceu quando Camargo mostrou a foto de um sanduíche de frango pedido naquela visita. A carne estava escura demais, sinal de que havia passado do ponto na fritura. Ao ver a imagem, um dos fundadores reagiu com constrangimento. “Justo na vez que o seu Paulo vem aqui comer, o frango está queimado”, disse.
Para Camargo, esse tipo de inconsistência é comum em empresas que cresceram antes de estruturar processos. “Crescer é abrir lojas. Escalar é repetir resultado”, afirma.
Complexidade acima do necessário
Ao analisar a operação da Sampa Burger, Camargo identificou um problema comum em empresas que crescem rápido demais. Complexidade acima do necessário. O cardápio reúne diferentes tipos de hambúrguer, acompanhamentos e até pratos feitos no horário de almoço.
Para o mentor, essa variedade aumenta as etapas na cozinha e dificulta manter padrão na qualidade. “Vocês são muito novos, ainda muito pequenos para ter tanta complexidade. Simplifica, faz aquilo, faz bem feito”, diz.
O ponto se torna ainda mais crítico em uma rede que decidiu crescer por franquias. Nesse modelo, padronização é essencial para que todas as unidades entreguem a mesma experiência ao cliente. “Quem compra franquia compra previsibilidade”, afirma Camargo.
A recomendação passa por enxugar a operação antes de continuar expandindo. Revisar o cardápio, definir melhor o posicionamento da marca e estruturar processos mais claros são passos necessários para tornar o negócio replicável.
Para Camargo, escalar um negócio vai além de abrir novas lojas. O desafio está em repetir o mesmo resultado em cada unidade. “O que mata não é estratégia ruim, é execução inconsistente.”