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Este artesão de BH viralizou nas redes, exportou bolsas para 6 países e agora abre loja física

Bolsas de crochê feitas à mão viralizam nas redes, dobram o faturamento da Margelo em 2025 e levam o artesanato de Belo Horizonte para mercados como Europa e Estados Unidos

Margelo Barbosa, da Margelo Bolsas Artesanais: “Não dá para resolver crescimento com máquinas. Escalar, no nosso caso, foi formar pessoas, padronizar processos sem padronizar o produto e aprender a dizer não.” (Rodrigo Lobo/Divulgação)

Margelo Barbosa, da Margelo Bolsas Artesanais: “Não dá para resolver crescimento com máquinas. Escalar, no nosso caso, foi formar pessoas, padronizar processos sem padronizar o produto e aprender a dizer não.” (Rodrigo Lobo/Divulgação)

Karla Dunder
Karla Dunder

Freelancer

Publicado em 28 de abril de 2026 às 09h14.

O artesanato brasileiro vive um paradoxo. Ganha visibilidade nas redes, mas raramente consegue transformar alcance em negócio recorrente.

É nesse ponto que entra a Margelo Bolsas Artesanais, marca criada pelo estilista e artesão Margelo Barbosa, há 50 anos presente na Feira Hippie de Belo Horizonte. O que começou como produção autoral de bolsas de crochê hoje opera como empresa em expansão.

A história passou a merecer atenção a partir de maio de 2025, quando vídeos das bolsas viralizaram nas redes sociais, dobraram o faturamento mensal e colocaram a marca no radar de clientes fora do Brasil.

“A viralização foi um tsunami”, diz Margelo Barbosa. “Uma influenciadora passou na minha barraca, gostou da arte, comprou e divulgou de forma espontânea. A partir daí, tudo ganhou outra proporção.”

O próximo passo já está definido: crescer sem perder o controle do tempo, da autoria e do processo manual.

Do acaso ao método

A explosão de demanda não foi totalmente planejada, mas a resposta a ela foi. Depois do primeiro pico de visibilidade, a Margelo passou a mostrar o processo produtivo nas redes — mãos trabalhando, tempo do crochê, bastidores reais.

“Sabíamos que o consumidor buscava autenticidade”, afirma Barbosa. “O acaso entrou na escala. Não controlamos o algoritmo, mas criamos as condições para que ele nos encontrasse.”

Com a viralização, vieram decisões práticas. A marca organizou a fila de produção, estruturou atendimento via site, WhatsApp e Instagram, revisou prazos e passou a comunicar limites com transparência. “Viralizar é fácil; sustentar é gestão”, diz.

Quando o artesanal vira gargalo

Dobrar faturamento expôs o principal limite do modelo: a produção manual. Cada peça exige tempo, técnica e mão de obra qualificada.

“O gargalo foi a produção artesanal”, afirma Barbosa. “Não dá para resolver crescimento com máquinas. Escalar, no nosso caso, foi formar pessoas, padronizar processos sem padronizar o produto e aprender a dizer não.”

A pressão atingiu prazos, fluxo de caixa e planejamento. O aprendizado foi claro: volume sem controle compromete qualidade — e identidade.

De projeto autoral a empresa

Em 2025, a Margelo fechou o ano com média de 30.000 reais por mês em faturamento. Quase 60% das vendas vieram do digital.

“O negócio deixou de ser apenas autoral quando o faturamento se tornou recorrente e previsível”, diz Barbosa. “Foi aí que entraram controle financeiro, margem, investimento e metas.”

Segundo ele, a criatividade segue como motor, mas a gestão passou a guiar o caminho. “A criatividade continuou sendo o motor, mas a gestão virou o volante.”

Bolsas de crochê que cruzam fronteiras

O alcance digital abriu portas fora do Brasil. Em 2025, a Margelo exportou bolsas para Suíça (26 peças), Estados Unidos, em Los Angeles (16), Índia (5), Portugal (10), Mônaco (6) e Espanha (12), com nova remessa prevista.

“O cliente internacional cobra acabamento, narrativa clara de origem, prazo cumprido e processo confiável”, afirma Barbosa. “Lá fora, o valor simbólico do feito à mão é ainda mais reconhecido.”

Esse reconhecimento trouxe margem, mas também responsabilidade. Cada peça passou a carregar não só estética, mas reputação.

O risco das redes — e como reduzir

Hoje, o digital responde por quase 60% do faturamento. Para Barbosa, a dependência excessiva é um risco estrutural.

“Algoritmos mudam, alcance cai, custo sobe”, diz. A resposta tem sido diversificar: imprensa, relacionamento direto com clientes, base própria e loja física. “O digital é central, mas não pode ser o único pilar.”

Por que abrir loja física em 2026

O principal investimento previsto para 2026 é a abertura de um ponto no Mercado Novo, em Belo Horizonte, polo de negócios criativos.

“A loja física não é um contraponto ao digital, é uma extensão”, afirma Barbosa. “É onde o cliente entende o valor do processo, da matéria-prima e do fazer.”

O retorno esperado vai além do caixa. A aposta é em marca, ticket médio, relacionamento e geração de conteúdo. “Se o espaço gerar percepção de valor, ele já se paga.”

Há também um fator pessoal. “Eu gosto do contato com o cliente. Sou vendedor nato. No Mercado Novo vejo oportunidades para outros negócios da economia criativa”, diz.

O limite do crescimento

Para a Margelo, o dilema entre escala e identidade não está no tamanho da empresa, mas no processo.

“A marca cresce enquanto preserva processo manual real, autoria clara e tempo respeitado”, afirma Barbosa. “O sinal de alerta seria acelerar artificialmente o fazer ou diluir a identidade para ganhar volume.”

Segundo ele, autenticidade virou vantagem competitiva. “Crescer, para nós, é aprofundar no propósito, não descaracterizar.”

A trajetória da Margelo mostra que tradição e inovação não competem. Quando bem geridas, viram estratégia — e produto exportável.

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