Publicado em 26 de março de 2026 às 13h54.
Depois de anos de liquidez farta e valuations em alta, o cenário do mundo de tecnologia mudou: juros elevados, incerteza global e investidores mais seletivos reduziram o apetite por risco — e fecharam, ao menos parcialmente, a janela para aberturas de capital.
A QI Tech chegou a um estágio em que o IPO naturalmente entra no radar.
A empresa, que fornece infraestrutura para serviços financeiros — o chamado banking as a service, modelo que permite que empresas ofereçam crédito e produtos bancários sem serem bancos — virou unicórnio e ganhou escala dentro do sistema financeiro brasileiro.
Mas o timing não acompanha a maturidade do negócio. No South Summit Brasil, em Porto Alegre, o fundador e CEO Pedro Mac Dowell deixou claro que a decisão de abrir capital depende mais do mercado do que da empresa.
“Estamos crescendo muito. Mas se fosse hoje, não seria o melhor momento para um IPO. A gente enxerga que 2027 pode ter uma janela melhor", disse em entrevista no estúdio da EXAME no South Summit.
A leitura reflete um cenário em que empresas seguem crescendo, mas precisam ser mais disciplinadas na forma como acessam capital. Com menos liquidez disponível, o custo de errar aumentou — e esperar pode ser mais estratégico do que acelerar.
Se o IPO depende do mercado, a operação segue em ritmo próprio.
A QI Tech projeta crescer cerca de 80% em 2026 e já avançou 20% no primeiro trimestre, mantendo a trajetória dos últimos anos. O motor desse crescimento é uma operação de crédito em escala, que roda por trás de plataformas de terceiros.
Hoje, a empresa processa entre 7 bilhões e 9 bilhões de reais por mês em operações de crédito. Esse volume não aparece diretamente para o consumidor final, mas está presente em diferentes jornadas — do varejo à mobilidade.
Ao todo, cerca de 20% da população economicamente ativa do Brasil passa, de alguma forma, pela infraestrutura da companhia, diz Mac Dowell.
Com a janela de IPO mais distante, a QI Tech recorreu a outro instrumento para gerar liquidez: a venda secundária de ações.
A empresa realizou uma operação de cerca de 380 milhões de dólares, combinando entrada de recursos no caixa com a venda parcial de participações de sócios.
O movimento contraria uma lógica tradicional do venture capital, que costuma concentrar a liquidez no momento do IPO. Na visão de Mac Dowell, isso pode criar incentivos equivocados ao longo da jornada. “Quando o empreendedor tem tudo concentrado na empresa, ele fica mais cauteloso. Quando consegue fazer uma secundária, passa a ter mais liberdade para tomar risco”, diz.
A estratégia também se conecta a um modelo interno de partnership, no qual executivos acumulam participação na empresa ao longo do tempo. Com a secundária, parte desse valor deixa de ser apenas potencial e passa a ser realizado — o que ajuda na retenção e no alinhamento de longo prazo.
Dentro da empresa, a inteligência artificial deixou de ser uma aposta e passou a ser infraestrutura básica.
O impacto aparece em diferentes etapas da operação. Um dos exemplos mais diretos é o cadastro para operações de crédito, que caiu de cerca de 5 dias para 2 minutos com o uso de IA. No desenvolvimento de software, o ganho é ainda mais visível. Segundo o CEO, tarefas que antes levavam meses de trabalho passaram a ser executadas em minutos, com apoio de ferramentas automatizadas.
Esse salto de produtividade não levou à redução de equipe. A empresa segue contratando cerca de 30 pessoas por mês, com a leitura de que a tecnologia amplia — e não substitui — a capacidade dos times. “A tecnologia é meio. Ela não é fim”, afirma. “Ela aumenta a capacidade das pessoas.”
Em meio à crise econômica que atingiu a Espanha no início da década passada, um evento surgiu com a proposta de conectar empreendedores e investidores. O South Summit foi criado em 2012, em Madri, pela empreendedora María Benjumea em parceria com a IE Business School, escola de negócios sediada na capital espanhola.
Naquele momento, o país enfrentava desemprego acima de 20% da população adulta e mais de 50% entre jovens. A falta de crédito e a incerteza sobre o futuro pressionavam empresas e profissionais.
A ideia do South Summit nasceu desse contexto. Benjumea reuniu acadêmicos da IE, executivos de grandes empresas e representantes do governo para criar um encontro voltado a negócios e inovação. “A Espanha estava muito mal naquela época”, afirmou a empreendedora à EXAME.
Empreendedora desde o fim dos anos 1970, Benjumea já havia criado negócios como uma galeria de arte, em 1981, e o Infoempleo, plataforma de empregos lançada nos anos 1990 com a chegada da internet.
A primeira edição do South Summit foi pequena, com algumas centenas de participantes e poucos fundos de investimento. Ao longo dos anos, o evento cresceu e passou a atrair startups e investidores de vários países.
Um dos pilares do encontro é a competição de startups, que seleciona empresas com potencial de crescimento. Entre as participantes estão companhias que depois atingiram valor de mercado acima de 1 bilhão de dólares.
Com o tempo, o evento se consolidou como ponto de encontro do ecossistema de inovação na Espanha. Madri passou a atrair mais investimento em startups e ganhou espaço entre os principais polos de tecnologia na Europa.
A expansão internacional começou anos depois. Em 2022, o South Summit chegou ao Brasil, com a primeira edição realizada em Porto Alegre, no Cais Mauá. O evento reuniu cerca de 15 mil pessoas de 76 países.
A edição seguinte ampliou a estrutura, com aumento de área e número de palestrantes. Em 2025, o encontro manteve a realização na capital gaúcha mesmo após as enchentes que atingiram a região, reunindo mais de 20 mil participantes.
Hoje, o South Summit reúne startups, investidores e executivos em diferentes países, mantendo o formato baseado em conteúdo, conexões e apresentação de negócios.