Jonathas e Maria Eduarda Guerra, sócios da Banlek: "A nossa corrida sempre foi em fazer um fotógrafo parceiro entender que a gente é a melhor opção não necessariamente só em tecnologia" (Banlek/Divulgação)
Repórter de Negócios
Publicado em 14 de julho de 2026 às 10h38.
Última atualização em 14 de julho de 2026 às 11h10.
Por décadas, ganhar dinheiro com fotografia dependeu de agenda cheia: casamento, ensaio, evento corporativo. Fora dessa lógica, o atleta amador que quisesse uma foto correndo, pedalando ou surfando não tinha a quem recorrer.
A brasileira Banlek construiu um negócio exatamente sobre essa lacuna.
Em vez de vender horas, o fotógrafo vai a treinos, corridas e estádios, registra quem está ali e sobe tudo para a plataforma. Do outro lado, o cliente envia uma selfie e o reconhecimento facial devolve todas as imagens em que ele aparece, à venda a partir de 20 reais.
São mais de 8 milhões de clientes conectados por mês a mais de 90 mil fotógrafos.
A empresa vive sua fase mais agitada. Em 2025, vendeu mais de R$ 400 milhões em fotos e vídeos, o dobro do ano anterior. No mesmo período, iniciou a operação europeia, que rendeu mais de 300 mil euros nos primeiros 60 dias, e começou a trocar processos internos por agentes de inteligência artificial.
A projeção é cruzar 1 bilhão de reais em vendas até o início de 2027.
"A nossa corrida sempre foi em fazer um fotógrafo parceiro entender que a gente é a melhor opção não necessariamente só em tecnologia", diz Jonathas Guerra, CEO e sócio-fundador da Banlek com a Maria Eduarda Guerra. "Eu sou aquele cara que é obcecado pelo cliente."
O plano para os próximos anos é acelerar a presença internacional, ampliando a operação na Europa e iniciando a expansão na América do Norte, onde a empresa já fez a cobertura de dois amistosos da seleção americana antes da Copa do Mundo. A meta financeira para 2026 é chegar a R$ 50 milhões de receita, com a possibilidade, segundo a empresa, de dobrar esse número, dependendo do desempenho no segundo semestre.
O modelo tem dois lados. De um, o fotógrafo vai a eventos, treinos ou locais movimentados — praias, estádios, pistas de corrida — e fotografa quem está praticando esporte. Depois, sobe as imagens para a plataforma, que usa inteligência artificial para reconhecimento facial.
Do outro, o cliente entra no site, envia uma selfie e encontra todas as fotos em que aparece. A compra é feita na hora, e as imagens vão para o celular ou, se impressas, para a casa do cliente.
A maior parte das vendas vem da fotografia esportiva amadora: corrida, surf, bike, futebol, beach tennis, crossfit. O preço médio de uma foto digital gira em torno de 20 reais. A Banlek fica com uma comissão de até 10% sobre as vendas digitais e de cerca de 50% no caso das fotos impressas, produzidas e enviadas por parceiros de logística.
Segundo a empresa, há fotógrafos que faturam mais de R$ 75 mil por mês na plataforma.
Fundada em 2020, a Banlek reduziu a comissão média cobrada do fotógrafo de cerca de 30% para perto de 9%, segundo Guerra.
"Provamos que é possível crescer pelo volume, pela confiança e pela recorrência, e não pela exploração do profissional", afirma.
O modelo combina comissão sobre vendas com uma assinatura premium e a venda de produtos físicos, como impressões e quadros, que ampliam o ticket médio.
Nos últimos doze meses, a Banlek reorganizou a operação em torno da inteligência artificial.
A tecnologia assumiu áreas que antes dependiam de equipes inteiras, como a análise de risco das vendas e o atendimento ao cliente. Segundo Guerra, os agentes autônomos, sistemas de IA que executam tarefas sem intervenção humana, absorveram de 70% a 80% do trabalho de verificação de risco e reduziram em 70% o volume de atendimento.
O movimento levou a empresa a repensar o próprio negócio. Guerra conta que passou os últimos seis meses refazendo o modelo de operação, mudou a sede de Petrópolis, no Rio de Janeiro, para São Paulo, e trouxe a equipe de volta ao trabalho presencial para acelerar o desenvolvimento de novos produtos.
O desafio, diz o CEO, é menos técnico e mais de gestão.
"Eu sei que eu consigo fazer essa receita dobrar até o final do ano, mas eu preciso convencer todos os meus funcionários que esse é o novo caminho e que todo mundo vai ter que mudar radicalmente", afirma.
A comparação que ele usa é a de uma empresa que já estava em pleno funcionamento antes da onda de IA e precisa trocar peças sem parar de crescer — como um foguete já lançado.
A expansão internacional começou de forma cautelosa, em 2024, e ganhou ritmo no último ano.
Em seis meses, a empresa afirma ter vendido mais de 1 milhão de reais na Europa, com operação em países como Portugal, Espanha, Finlândia, França e Irlanda. A estratégia repete a fórmula brasileira: começar por eventos esportivos e locais de grande circulação, como partidas de futebol, vôlei, futsal, crossfit e corridas de rua.
A base tecnológica veio de aquisições. A Banlek comprou a Epics, empresa com mais de 15 anos de mercado que já operava na Europa, por 9,5 milhões de reais, e a SurfMappers, voltada aos segmentos esportivo e outdoor. A expectativa da empresa é ultrapassar 5 milhões de euros em receita no continente até o final de 2026.
Nos Estados Unidos, a Banlek começou a testar o modelo antes da Copa do Mundo, cobrindo a torcida em dois amistosos da seleção americana, nos mesmos moldes do que faz no Maracanã. Durante o torneio, a empresa também lançou uma função em que o usuário tira uma selfie e gera uma figurinha personalizada, vendida como imã de geladeira ou adesivo — uma experiência que, segundo Guerra, abriu uma nova frente de receita voltada ao consumidor final.
Com cerca de 70% do mercado, segundo a empresa, a Banlek virou alvo.
"Fica muito mais fácil as outras plataformas assediarem o nosso fotógrafo fazendo ofertas", diz Guerra.
Ele reconhece que a disputa pelo profissional ficou mais dura nos últimos doze meses e que a empresa sofreu com o assédio de concorrentes, mas afirma ter conseguido reverter boa parte das perdas. No Brasil, a principal rival é a FotoTop.
A resposta da Banlek tem sido lançar funções que dificultam a cópia e prendem o fotógrafo à plataforma.
Uma delas permite ao profissional repassar a taxa de serviço ao cliente final, nos moldes do que fazem iFood e Uber — mudança que, segundo a empresa, deve gerar 2 milhões de reais adicionais de receita ao ano. Outra protege as imagens contra prints: ao tentar capturar a tela, o cliente tem a visualização bloqueada, um recurso pensado para impedir que a IA remova marcas d'água de fotos de pontos turísticos como o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar.
A empresa também passou a investir em outras startups. Guerra afirma que a Banlek tem como meta aplicar ao menos 1 milhão de reais por ano no ecossistema, e já fez aportes fora de seu setor de origem, incluindo uma rodada de 700 mil reais em uma startup de correspondente bancário e imobiliário.
A tese, diz o CEO, é levar a experiência acumulada na fotografia para negócios que enfrentam problemas parecidos.