Setores como saúde, turismo e serviços já aparecem no radar da companhia. A lógica é simples e parte da ideia de que sempre que houver venda parcelada há margem financeira envolvida, e a ambição da Ume é capturar essa camada invisível da economia.
Berthier Ribeiro e Theo Ramalho, sócios fundadores da Ume: "Todo lugar onde existir uma venda entre um negócio e um consumidor final é um espaço onde a gente pode atuar" (Ume/Divulgação)
Repórter de Negócios
Publicado em 20 de fevereiro de 2026 às 15h35.
Última atualização em 20 de fevereiro de 2026 às 19h42.
Poucos temas são tão sensíveis para o varejo brasileiro quanto crédito. Vender parcelado sempre foi uma engrenagem essencial para sustentar o consumo no país. Mas, na maior parte das vezes, o lucro financeiro dessa engrenagem fica com bancos e instituições especializadas. A loja vende o produto. Outro captura os juros.
Foi nesse ponto que a Ume encontrou espaço para crescer.
“Quando a gente olhava para os maiores varejistas do país, era claro que o crédito era parte relevante da última linha. Existia uma oportunidade de construir infraestrutura para permitir que os varejistas também tivessem acesso a esse resultado financeiro”, diz Berthier Ribeiro, CEO da Ume.
Fundada em 2019, a fintech nasceu a partir de uma tecnologia acadêmica de análise de risco desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas.
A empresa construiu uma plataforma que permite que varejistas operem sua própria estrutura de crédito sem precisar virar banco. Em vez de depender de terceiros, passam a internalizar o resultado financeiro da venda parcelada.
Os números mostram a aceleração. Em 2025, a companhia operou um GMV anualizado de R$ 730 milhões e faturou R$ 170 milhões. Para 2026, a projeção é fechar o ano com R$ 2,3 bilhão de GMV anualizado e faturamento de R$ 350 milhões.
Na base, são mais de 3,5 milhões de consumidores cadastrados, 1.700 varejistas e 4.600 lojas conectadas.
“Quando a gente olhava para os maiores varejistas do país, era claro que o crédito era parte relevante da última linha. Existia uma oportunidade de construir infraestrutura para permitir que os varejistas também tivessem acesso a esse resultado financeiro”, diz o CEO.
No início, o modelo era semelhante ao de outras fintechs de crédito: o consumidor baixava o aplicativo, solicitava análise, era aprovado em poucos minutos e a empresa antecipava o pagamento ao varejista.
Com o amadurecimento da operação, o foco mudou.
Hoje, a Ume se posiciona como uma plataforma de infraestrutura financeira. Entrega análise de risco com inteligência artificial, processamento tecnológico, aplicativo para o cliente final, ferramenta para o vendedor na ponta, atendimento, cobrança e acesso a funding estruturado.
A área de tecnologia é liderada por Berthier Ribeiro-Neto, fundador da Akwan (empresa adquirida pelo Google em 2005), e ex-líder do centro de engenharia da big tech no Brasil por quase duas décadas. Ele assumiu o cargo de CTO da fintech em 2024, reforçando o foco em escala e robustez da infraestrutura.
Segundo a empresa, o sistema de análise de crédito foi desenvolvido a partir de modelos de redes neurais criados no ambiente acadêmico e adaptados ao varejo brasileiro.
“A gente não quer ser o player que concede crédito ao consumidor final. Quem concede é o dono da operação. Nosso papel é entregar toda a infraestrutura tecnológica e de risco para que ele internalize o lucro da transação”, diz o CEO.
O foco está em varejistas regionais com faturamento entre R$ 300 milhões e R$ 1 bilhão e forte presença local. "São empresas grandes demais para ignorar o peso do crédito no resultado, mas que não montariam sozinhas uma estrutura sofisticada", diz Ribeiro.
O modelo pode funcionar de duas formas. O varejista pode assumir o risco da carteira e capturar integralmente o resultado financeiro ou pode utilizar estruturas organizadas pela própria Ume para financiar a operação.
A escalada recente da empresa tem um componente estrutural: acesso a capital.
Além das rodadas de venture capital que financiaram o crescimento da operaçãom incluindo uma seed de US$ 10 milhões em 2022, uma Série A de US$ 15 milhões liderada pelo PayPal Ventures em 2024 e uma Série B de US$ 21,8 milhões em 2025, liderada por Valor Capital Group e Bewater, a Ume também avançou na estruturação de funding via mercado de capitais.
A Ume estruturou um Feeder FIDC de R$ 150 milhões, com participação de investidores como Itaú BBA, Bradesco BBI, Credit Saison e Western Asset.
A estrutura permite criar veículos dedicados para cada parceiro, conectando as carteiras diretamente ao mercado de capitais com governança própria e políticas independentes.
Em vez de depender exclusivamente de capital bancário tradicional, as operações passam a acessar funding estruturado de forma mais flexível e escalável.
“Essa estrutura nos permite criar operações específicas para cada varejo, conectando essas iniciativas ao mercado de capitais com governança e disciplina. É um passo importante para construir uma infraestrutura financeira que fortaleça as empresas no longo prazo”, afirma o CEO.
Segundo a companhia, o modelo viabiliza que varejistas internalizem margens financeiras e ampliem o lucro líquido ao longo do tempo. Para a Ume, o movimento reduz a necessidade de imobilizar capital próprio na mesma proporção do crescimento e cria uma arquitetura capaz de sustentar expansão acelerada.
A empresa afirma ter crescido duas vezes e meia no último ano e projeta manter ritmo acelerado, mas crédito não é negócio neutro. Ele amplifica tanto crescimento quanto risco.
“Quando o momento é muito bom, o crédito gera muito lucro. Quando o ciclo aperta, a gente ajuda o varejo a continuar vendendo. Nosso papel é garantir que a máquina continue rodando”, diz Ribeiro.
O desafio está em equilibrar expansão com disciplina de risco e governança nas estruturas de funding.
Hoje a operação está concentrada no varejo. Mas a visão declarada é mais ampla.
“Nos próximos anos vamos ajudar mais empresas a internalizar o resultado das transações financeiras. Todo lugar onde existir uma venda entre um negócio e um consumidor final é um espaço onde a gente pode atuar.”
No fim das contas, a proposta precisa fazer sentido para quem está no balcão.
“Nenhum empreendedor abre um negócio para virar banco. A gente cuida da parte financeira para que ele possa focar no que faz melhor”, resume o CEO.
Se conseguir sustentar crescimento, manter inadimplência sob controle e ampliar o acesso a capital, a Ume pode se consolidar como a infraestrutura por trás do novo crediário do varejo brasileiro.