O mercado de beleza sempre correu atrás da juventude.
Cremes, maquiagens e campanhas falaram por décadas com mulheres mais novas, enquanto a pele madura ficava à margem.
Nos últimos anos, esse desequilíbrio começou a aparecer nos números — e abriu espaço para marcas que decidiram nadar contra a corrente.
É nesse vácuo que surge a Le Moritz.
Fundada em 2022, a empresa nasceu com foco exclusivo em mulheres a partir dos 40 anos e adotou desde o início o discurso pro-aging, conceito que rejeita a ideia de “combater” o envelhecimento e passa a tratar a maturidade como fase ativa da vida.
A marca alcançou escala.
A Le Moritz já soma mais de 200 mil clientes no Brasil, ultrapassou 140 mil pedidos em um único ano e projeta faturamento de R$ 70 milhões em 2026, tudo isso operando com capital próprio e sem investidores externos.
“O mercado de beleza ignorou por muito tempo mulheres que seguem consumindo, decidindo e influenciando. A Le Moritz nasceu para atender mulheres que não se sentiam vistas”, afirma o fundador Moritz Neto.
O próximo passo é claro. A empresa quer se consolidar como o principal ícone digital de beleza para pele madura no país e ampliar seu portfólio, mantendo o foco no público 40 mais.
Da frustração ao empreendedorismo global
A trajetória de Moritz Neto começa longe da indústria da beleza.
Em 2016, o então estudante de engenharia mecânica da UFSC se mudou para a Austrália e teve contato direto com o ecossistema de startups e inovação. Foi ali que decidiu seguir o empreendedorismo como carreira.
“Eu levantei a mão na sala quando o professor perguntou quem queria viver de empreendedorismo. Fui o único”, diz.
Entre Austrália e China, Moritz passou quatro anos criando startups de tecnologia.
Em uma delas, chegou a captar mais de US$ 2 milhões de investidores chineses. Apesar do capital, os projetos não avançaram.
Em 2019, ele voltou ao Brasil após uma sequência de rupturas pessoais e profissionais, incluindo a morte do pai e o fechamento da empresa.
O período de frustração virou aprendizado. “Aquilo me mostrou que, se você entrega valor, consegue competir em nível global”, afirma.
Construir marcas, não atalhos
De volta ao Brasil, Moritz começou a testar modelos de negócios digitais.
A aposta foi construir marcas desde o primeiro dia, e não operações oportunistas como o dropshipping, que ganhava força na época.
O primeiro acerto veio com uma marca voltada a soluções capilares.
Depois, com a Pink Perfect, focada em beleza e bem-estar. Foi ali que o modelo ficou claro: identificar comunidades pouco atendidas, entender suas dores e criar produtos simples, recorrentes e com forte vínculo emocional.
“A gente entendeu como fazer um produto realmente bom, que gere recompra e vire parte da rotina da pessoa”, diz.
Esse aprendizado foi decisivo para a criação da Le Moritz.
A leitura da pele madura
A ideia da Le Moritz nasceu da observação do cotidiano.
Moritz percebeu que mulheres como sua mãe, tias e avó não se viam representadas pelas marcas de beleza. O problema ia além do produto e passava pela comunicação e pela sensação de relevância.
“A experiência de envelhecimento feminina não é só estética. É sobre ser ouvida, ser relevante. A beleza funciona quase como um token de relevância social”, afirma.
Antes mesmo do primeiro produto, a marca já tinha um conceito: devolver confiança e protagonismo às mulheres maduras.
O portfólio começou com maquiagens em bastão, focadas em simplificar a rotina, e depois avançou para skincare desenvolvido para as transformações naturais da pele ao longo do tempo.
Os números da escala
A resposta do mercado veio rápido. Desde a fundação, a Le Moritz já acumulou mais de 200 mil clientes. Em um único ano, foram mais de 140 mil novos pedidos e 1,2 milhão de acessos no e-commerce.
A empresa fechou 2025 com faturamento estimado entre R$ 35 milhões e R$ 40 milhões e projeta ultrapassar R$ 70 milhões em 2026. Hoje, o grupo tem cerca de 50 funcionários e cresce em ritmo acelerado.
“A Le Moritz está estourando todos os patamares de velocidade de crescimento que a gente já viu em outras marcas”, afirma Moritz.
Digital como estratégia central
A Le Moritz é uma marca nativa digital. As vendas acontecem exclusivamente pela internet, sem presença em lojas físicas ou canais B2B. A decisão é estratégica.
“2026 é sobre se tornar o ícone digital. A gente não quer abrir outras frentes agora”, diz o fundador.
Um dos motores de crescimento são as revendedoras digitais: clientes que usam os produtos e passam a indicá-los para amigas, com incentivos financeiros. A estratégia se apoia no comportamento natural do público 40+, que compartilha experiências de confiança dentro de seus círculos sociais.
A marca também trabalha com criadoras de conteúdo e referências do segmento, como Alice Salazar e Paty Silva, reforçando autoridade e alcance.
Produção, erros e ajustes
A maior parte dos produtos é fabricada no Brasil, com parceiros locais. A China entra principalmente na etapa de embalagens, onde o custo e a qualidade ainda são mais competitivos.
O caminho, porém, não foi linear. O primeiro produto da Le Moritz acabou sendo descontinuado. “Era sofisticado demais para aquele momento. A gente precisou simplificar”, afirma Moritz.
O ajuste veio com a linha de sticks. “Ali a coisa estourou. A gente entendeu que não era só tecnologia, era facilitar a vida da mulher madura.”
O futuro: ser um ícone brasileiro
A ambição de longo prazo é alta. Moritz acredita que a Le Moritz tem os elementos para se tornar um novo grande nome da beleza nacional.
“A marca tem história, comunidade, produto e propósito. O mais importante é que tem uma audiência que se importa”, diz.
A estratégia é repetir um princípio simples: melhorar a cada ciclo. “As empresas que duram décadas se perguntam todo ano como ficar melhores. É essa cultura que a gente está construindo.”
No centro desse plano está um mercado que ficou tempo demais invisível — e que agora começa a mostrar sua força.
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