Negócios

Ele trabalhou no STF, virou franqueado e agora vai faturar R$ 120 milhões com óculos

Marca chegou a cair de 84 para 38 lojas na pandemia. Agora, com fábrica no Rio e linha para grifes como Reserva, projeta abrir 20 unidades em 2026

Flávio Costa Barros, da Fuel: "É um desafio realmente mostrar que a Fuel é ótica também" (Renata Coutinho/Divulgação)

Flávio Costa Barros, da Fuel: "É um desafio realmente mostrar que a Fuel é ótica também" (Renata Coutinho/Divulgação)

Daniel Giussani
Daniel Giussani

Repórter de Negócios

Publicado em 5 de maio de 2026 às 09h12.

Última atualização em 6 de maio de 2026 às 16h01.

A virada na vida do carioca Flávio Costa Barros começou com um convite improvável. Advogado tributarista no Rio, ex-assessor do ministro Marco Aurélio no Supremo Tribunal Federal, ele representava o pai de um dos sócios de uma rede de churrascarias quando ouviu a oferta: virar franqueado de uma marca de óculos que ainda engatinhava.

Aceitou.

Dez anos depois, comanda a operação como CEO, e mira 120 milhões de reais em receita para este ano.

A Fuel Eyewear, fundada em 2013 no Rio de Janeiro, fechou 2025 com 90 milhões de reais em receita, opera 65 unidades em 10 estados e está em 14 operações em aeroportos.

Recentemente, montou uma fábrica própria no Rio com equipamentos de uma indústria desativada em Montes Claros que fornecia para a concorrente Chilli Beans. A linha artesanal carioca, batizada de Born in Rio, é o pilar de uma estratégia que envolve também produzir óculos para grifes como Reserva.

A empresa está investindo 800 mil reais em equipamentos para escalar a produção própria.

São 300.000 reais nas máquinas vindas de Montes Claros e mais 500.000 em equipamentos importados da Itália, que devem chegar nos próximos meses. A meta para 2026 é abrir 20 novas operações entre quiosques e óticas.

O futuro da rede passa por três frentes simultâneas. A primeira é a fábrica do Rio, que deve dobrar a capacidade de produção nos próximos meses e abrir caminho para atender marcas com volumes menores.

A segunda é a expansão da rede de óticas, que hoje soma 10 unidades e tem ticket médio maior que o dos quiosques.

A terceira é o licenciamento de clubes de futebol, com linhas já lançadas para Flamengo.

Qual é a história de Barros

Barros construiu carreira na advocacia empresarial e tributária no Rio depois de deixar Brasília, em 2005.

A relação com clientes raramente ficava restrita ao operacional jurídico, e ele começou a virar sócio de negócios que assessorava. Em 2015, entrou como franqueado da Fuel, que então tinha 15 operações. Comprou a participação de um sócio que morava em Cancún e não atuava no dia a dia, depois adquiriu outra fatia.

Em 2019, a empresa montou um conselho consultivo. Foi nesse colegiado que surgiu a indicação para Barros assumir a operação. Os outros sócios apoiaram. O fundador Miguel Zabotinsky segue na sociedade.

Como foi o desafio durante a pandemia

A operação da Fuel é 99% dentro de shoppings, e o modelo cobrou seu preço quando os centros comerciais fecharam.

A rede chegou a 84 unidades antes da pandemia e despencou para 38. Concorrentes do setor óptico que operavam em rua se beneficiaram do enquadramento das óticas como serviço de saúde, com menos restrições, e cresceram no mesmo período.

A reconstrução começou em 2024, com a estruturação de um setor comercial dedicado à expansão.

Barros contratou um executivo com passagem pela Óticas Carol, para a diretoria comercial. Até então, o crescimento da Fuel era movido por indicação de franqueados que abriam segunda e terceira unidades. "Aquele setor comercial dentro da empresa para capilarizar a expansão a gente nunca teve", diz o CEO.

A aposta na produção carioca

A fábrica no Rio nasceu de uma oportunidade. A indústria Clair Mont, em Montes Claros, fechou em 2020 sem resistir à pandemia. Era uma das maiores do país e fornecia para Chilli Beans e outras redes. A Fuel adquiriu o equipamento, montou a operação no Rio e batizou a linha de Born in Rio.

A produção é artesanal e responde por uma fatia pequena do volume. A maior parte das armações continua vindo da China, mercado para onde a empresa viaja em média duas vezes por ano.

O aporte de 500.000 reais em máquinas italianas é a aposta para escalar essa frente.

Os desafios no meio do caminho

Os 65 pontos da Fuel estão majoritariamente em shoppings, modelo que pesa cada vez mais no caixa.

Para driblar o aumento nos preços, a rede começou a estudar um modelo mais econômico para lojas de rua. Já tem unidades em Búzios e Ipanema.

Para crescer, também quer mostrar para o consumidor que vai além do óculos de sól, e vende ótica.

As 10 unidades do tipo já oferecem lentes de grau e tratamento visual completo, mas a percepção pública ainda não acompanhou. O caso do BarraShopping é didático: a rede tem ali uma ótica e um quiosque a 15 metros de distância, e Barros relata ter visto clientes olharem a vitrine sem fazer a conexão de que se tratava da mesma marca.

A diferença visual contribui. Enquanto os quiosques carregam a cor laranja característica da Fuel, a ótica adotou identidade em preto e tons sóbrios. "É um desafio realmente mostrar que a Fuel é ótica também", afirma o CEO.

Entre os obstáculos que Barros considera mais difíceis estão os que não dependem da empresa. O lead time, prazo entre o embarque da mercadoria na China e a chegada ao Brasil, costumava ser de 35 dias e agora chega a 60. A oscilação cambial impacta diretamente o custo das importações. A mão de obra no varejo, especialmente entre a primeira geração que entra em shopping center, é apontada como dificuldade estrutural.

Para 2026, a meta é elevar o ticket médio com mais óticas, capilarizar a marca pelo trabalho do novo diretor comercial e ampliar a produção carioca. A combinação dos três movimentos é o que sustenta a projeção de 120 milhões de reais. Seja com óculos de sol ou de grau.

Acompanhe tudo sobre:ÓculosFranquiasRio de Janeiro

Mais de Negócios

A estratégia da marca bilionária que cansou de brigar por proteína e focou no público do matcha

Warren Buffett revela o erro oculto que faz profissionais brilhantes desperdiçarem seu potencial

Esta gigante francesa tem 350 mil vagas de estacionamento no Brasil — agora quer os estádios

O herdeiro 'desconhecido' da JBS que lidera um negócio bilionário com 14 fazendas