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Ele largou o consultório, criou um produto e agora mira R$ 18 milhões com saúde capilar

Filho de feirantes, João Gabriel criou a Anagrow após atender mulheres com queda de cabelo — problema que ele transformou em negócio com base científica e apelo emocional

João Gabriel Fernandes, da Anagrow: "Sempre tive facilidade com vendas, mas jamais imaginei que a ciência seria o caminho que mudaria tudo" (Divulgação/Divulgação)

João Gabriel Fernandes, da Anagrow: "Sempre tive facilidade com vendas, mas jamais imaginei que a ciência seria o caminho que mudaria tudo" (Divulgação/Divulgação)

Karla Dunder
Karla Dunder

Freelancer

Publicado em 30 de janeiro de 2026 às 10h18.

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A indústria da beleza cresce, mas poucos negócios conseguem unir ciência, escala e impacto real na saúde. No meio desse mercado ruidoso, um biomédico brasileiro construiu uma marca milionária apostando em educação, dados clínicos e um problema concreto: a queda de cabelo feminina.

Essa é a história da Anagrow, marca de saúde capilar criada por João Gabriel Fernandes, 34 anos, biomédico e tricologista formado na Universidade Cidade de São Paulo (Unicid). Filho de feirantes do extremo leste de São Paulo, ele saiu do consultório para estruturar um e-commerce que faturou R$ 12,6 milhões em 2025 e projeta R$ 18 milhões em 2026.

Agora, a empresa entrou em uma nova fase. Com crescimento acelerado, migração de operação logística, aposta em TikTok Shop e afiliados, a Anagrow começa a testar seus limites de escala fora do modelo tradicional de mídia paga.

“Eu venho de uma realidade em que fazer faculdade não era algo óbvio. Trabalhei desde os 13 anos na feira. Sempre tive facilidade com vendas, mas jamais imaginei que a ciência seria o caminho que mudaria tudo”, afirma João Gabriel.

O próximo passo é claro: consolidar a marca como plataforma de saúde feminina, ampliar canais de venda e sustentar crescimento sem perder margem.

Da feira ao laboratório

João cresceu em uma família sem histórico acadêmico. Os pais eram feirantes, sem banca própria, e a renda familiar girava em torno de R$ 2.000 por mês. Ele trabalhou desde cedo vendendo calçados, roupas, assinaturas de revista e, mais tarde, em telemarketing — experiência que viabilizou uma meia bolsa para cursar Biomedicina.

A entrada na Unicid, em 2010, mudou o rumo da história. O contato com a metodologia PBL (Problem Based Learning), aprendizado baseado em problemas, despertou o interesse pela pesquisa científica.

“Nunca tinha lido um livro inteiro antes da faculdade. Depois disso, eu lia livros de patologia de 4.000 páginas”, diz.

Ele passou quatro anos no Instituto do Coração (InCor), integrou projetos de pesquisa e foi selecionado para um programa acadêmico na Wright State University, em Ohio, nos Estados Unidos, onde estudou farmacologia e toxicologia por um semestre.

Mesmo formado, a transição para o mercado foi dura. João saiu da faculdade com cerca de R$ 20 mil em dívidas bancárias, salário de R$ 750 em laboratório e sem registro profissional ativo.

A tricologia como ponto de virada

A virada não veio da estética facial, caminho mais comum e rentável na biomedicina. Veio do atendimento a mulheres com alopecia.

“Não fui eu que escolhi a tricologia. Foi a tricologia que me escolheu”, afirma.

Os primeiros casos — mulheres com alopecia androgenética e histórico de queda severa — mostraram algo além do sintoma estético. A recuperação do cabelo impactava autoestima, relações pessoais e saúde mental.

Em 2017, João decidiu abandonar outras frentes e se posicionar exclusivamente como tricologista. Em seis meses, sua renda mensal saltou de cerca de R$ 5 mil para R$ 30 mil. A agenda explodiu por indicação orgânica de pacientes e grupos online.

Pandemia, conteúdo e escala

Quando a pandemia fechou os consultórios, João fez o movimento oposto ao da maioria. Intensificou estudos, passou a produzir conteúdo diário e migrou os atendimentos para o online.

Os tratamentos, baseados em suplementação prescrita, se adaptaram bem ao formato remoto. A demanda cresceu.

Dessa fase nasceu o Método PRC (Programa de Reabilitação Capilar), estruturado para ser replicável por outros profissionais. Em novembro de 2020, foi lançada a primeira turma do curso. Em 2021, veio a Clínica PRC.

O modelo, porém, tinha limites claros.

“Eu tinha fila de espera de seis, sete meses. A clínica não andava sozinha. Dependia muito de mim”, afirma.

Da fórmula ao produto

A ideia da Anagrow surgiu sem plano de negócios. O primeiro produto, o Ferritin B12, foi criado para atender seguidoras que não conseguiam pagar uma consulta nem uma fórmula manipulada.

“Não era para ser uma marca. Era para ser um produto para indicar”, diz João.

O resultado surpreendeu. Em 15 dias, o faturamento chegou a R$ 27 mil. Em poucos meses, ultrapassou R$ 100 mil. Novos produtos vieram, como o óleo de semente de abóbora, já usado por ele desde 2018 em consultório.

Em março de 2023, a empresa abriu CNPJ. Em 2024, faturou R$ 3 milhões. Em 2025, saltou para R$ 12,6 milhões.

O crescimento trouxe problemas: desenquadramento do Simples Nacional, aumento abrupto da carga tributária, margem comprimida e desafios logísticos. A empresa chegou a operar com margem inferior a 1% em meses de faturamento acima de R$ 1 milhão.

A resposta foi rápida. Mudança de estrutura fiscal, migração da operação logística para Minas Gerais e reorganização interna.

Conteúdo, comunidade e TikTok Shop

Hoje, a Anagrow aposta menos em mídia tradicional e mais em comunidade, afiliadas e creators. O TikTok virou peça central da estratégia.

“O TikTok é uma plataforma onde as pessoas querem aprender. Dá para aprofundar conteúdo muito mais do que no Instagram”, afirma João.

A TikTok Shop já responde por 14% do faturamento mensal da empresa, mesmo com apenas três meses de operação estruturada. A meta é descentralizar o investimento em mídia e redistribuir renda por meio de afiliadas — majoritariamente mulheres.

A Anagrow faturou 3,02 milhões de reais em 2024 e saltou para 12,64 milhões de reais em 2025. Para os próximos anos, a projeção é chegar a 18 milhões de reais em 2026 e 30 milhões de reais em 2027.

O futuro: saúde antes do cabelo

Para João, a Anagrow não vende apenas cabelo. O foco está na saúde feminina, especialmente em deficiências nutricionais como ferro e vitamina B12, associadas não só à queda capilar, mas a doenças neurológicas no longo prazo.

“Queda de cabelo é a dor visível. Mas o problema é muito maior”, afirma.

A empresa oferece materiais educativos, grupos de apoio, lives e orientação alimentar às clientes. O objetivo é criar uma plataforma de cuidado contínuo — com produto, conteúdo e comunidade.

“Empreender, para mim, só faz sentido se ampliar impacto. A ciência vem primeiro. O negócio é consequência”, diz João.

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