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Ele fará R$ 60 milhões com um 'Mercado Livre' para compras públicas de governos

O Portal de Compras Públicas aposta no Compra Simples para acelerar e simplificar compras de órgãos públicos

Leonardo Ladeira, CEO e cofundador do Portal de Compras Públicas: “Estamos diante de uma mudança de lógica.” (Divulgação)

Leonardo Ladeira, CEO e cofundador do Portal de Compras Públicas: “Estamos diante de uma mudança de lógica.” (Divulgação)

Bianca Camatta
Bianca Camatta

Freelancer em Negócios

Publicado em 27 de setembro de 2026 às 09h01.

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Comprar uma caixa de canetas pode parecer uma tarefa simples. Para a administração pública, porém, a aquisição precisa seguir regras de competição, transparência, logística e prestação de contas. Esse conjunto de exigências pode transformar uma compra corriqueira em um processo que leva meses. Foi para simplificar esse processo que nasceu a govtech Portal de Compras Públicas, especializada em licitações, em 2016.

Neste ano, a empresa lançou o Compra Simples, um e-marketplace voltado à aquisição de bens pela administração pública, com catálogo padronizado, integração logística e mecanismos para tornar mais previsível o pagamento aos fornecedores. A ideia é transformar parte das compras públicas em uma experiência próxima à de marketplaces privados, sem retirar as exigências legais do setor.

“Meu sonho é ver alguém dizer que daqui a dois, três anos que os hospitais brasileiros praticamente não sofrem mais com falta de medicamento, de insumo, de material cirúrgico, por conta de compras que levam meses”, diz Leonardo Ladeira, CEO e cofundador do Portal de Compras Públicas.

O próximo desafio é provar que essa lógica funciona em escala. A empresa estima que o Compra Simples represente 5% do volume de compras realizado atualmente no Portal nos próximos 24 meses. Em cinco anos, a projeção de Ladeira é chegar perto de 20%. Para 2026, a meta é fechar com um faturamento de R$ 60 milhões.

Da licença ao marketplace

Leonardo Ladeira, analista de sistemas e administrador por formação, começou a empreender no fim dos anos 1990. A primeira ideia tinha relação com gestão de conteúdo e permissões na internet, sem conexão direta com compras públicas.

Em 2001, a empresa passou a olhar para as necessidades dos municípios. A percepção era de que pequenas prefeituras precisavam cumprir as mesmas regras de órgãos maiores, mas tinham menos pessoas, equipamentos e infraestrutura.

A regulamentação do pregão eletrônico, em 2002, abriu uma oportunidade. Em 2003, a companhia lançou a primeira versão do que viria a ser o Portal de Compras Públicas.

O modelo inicial vendia licenças de software. Em 2008, veio a primeira grande mudança: a empresa passou a oferecer a infraestrutura como serviço, incluindo servidores, conexão, suporte e atendimento.

O problema apareceu em outro lugar. Se cada prefeitura tivesse sua própria plataforma, fornecedores interessados em vender para o governo precisariam acompanhar milhares de sistemas diferentes.

“Imagina um fornecedor querendo vender para a administração pública, se cada município brasileiro tivesse a própria plataforma. Eu ia ter mais de 5 mil sites, logins e senhas para acompanhar. Não funcionava”, diz Ladeira.

Em 2016, veio a segunda grande mudança. A empresa abriu mão dos contratos que tinha com a administração pública e deixou de cobrar dos órgãos. Em troca, as prefeituras migraram seus endereços de compras para o Portal de Compras Públicas e autorizaram a empresa a cobrar uma assinatura dos fornecedores. A transição quase levou três anos para atingir o break even. Cerca de 80% a 85% dos clientes anteriores aderiram rapidamente ao novo modelo.

“Acreditávamos que conseguiríamos chegar a uma quantidade muito grande de municípios e de fornecedores e, com isso, construir uma plataforma que fosse muito maior do que a gente tinha até então”, diz Ladeira.

O problema de transformar uma compra em processo

A dificuldade desse nicho começa antes mesmo do fornecedor aparecer. Na compra pública tradicional, o órgão precisa descrever o que pretende adquirir e abrir o processo para que os fornecedores apresentem suas propostas. A descrição pode variar entre órgãos e até para um mesmo produto.

No Compra Simples, e-marketplace que acaba de ser lançado, a proposta é inverter essa lógica. Em vez de o órgão criar uma descrição a cada compra, a plataforma trabalha com um catálogo padronizado.

O fornecedor, por sua vez, consegue cadastrar previamente os produtos e manter informações como preço e estoque atualizadas. Segundo Ladeira, a base do Portal tem cerca de 600 mil fornecedores cadastrados e atende mais de 4 mil municípios.

A mudança busca reduzir uma etapa que, na avaliação da empresa, aumenta o tempo e a incerteza da operação. Um processo que pode levar cerca de três meses, diz o executivo, poderia chegar a três dias em determinados casos.

“Estamos diante de uma mudança de lógica. Não se trata de criar mais um processo para o gestor público, mas de oferecer um novo modelo de compra, com tecnologia, critérios claros e segurança jurídica”, afirma Ladeira.

No Compra Simples, a plataforma começa pelo catálogo. Quando o órgão procura determinado produto, o sistema consulta fornecedores, considera preço e logística e apresenta as alternativas. O processo fica registrado para permitir a posterior verificação da compra.

Essa rastreabilidade é importante porque a responsabilidade não termina no órgão. Segundo Ladeira, o agente público responsável pelo processo também precisa demonstrar que seguiu os critérios exigidos.

A operação ainda é integrada ao Portal Nacional de Contratações Públicas, o PNCP, criado pela nova Lei de Licitações, de 2021, para centralizar informações sobre contratações públicas.

O preço também depende do prazo de pagamento

Um dos problemas que a empresa tenta atacar está depois da escolha do fornecedor. O prazo para receber pode alterar o preço oferecido à administração pública. Na operação observada pelo Portal, a média do prazo para pagamento é de cerca de 93 dias, com grande diferença entre os órgãos.

O Compra Simples tenta reduzir essa variável com um depósito em garantia. O dinheiro fica retido até a confirmação da entrega, seguindo uma lógica semelhante à utilizada em plataformas de comércio eletrônico.

Para viabilizar a operação, o fornecedor cadastra previamente sua conta bancária na plataforma. O dinheiro da compra fica em uma estrutura de conta de garantia e é liberado para essa conta depois que a entrega é confirmada. Se houver algum problema, o recurso pode retornar para a administração pública. O Portal organiza o fluxo e as condições da transação, mas não recebe o dinheiro em sua própria conta para depois repassá-lo ao fornecedor.

O primeiro foco da plataforma foi a área de saúde, especialmente situações relacionadas à judicialização, quando uma decisão determina que o poder público forneça um medicamento ou outro produto em prazo curto. Depois, o catálogo avançou para material de construção, escritório, limpeza e outros produtos usados no dia a dia da administração.

A empresa pretende ampliar os itens conforme surgirem novas demandas. Quando um produto ainda não está na base, a equipe pode procurar fornecedores entre os 600 mil cadastrados e também fazer prospecção ativa em associações comerciais e outras entidades.

O desafio é mudar o hábito de compra

A tecnologia resolve parte do problema. A outra parte depende da mudança de comportamento de quem compra e de quem vende para o governo.

O mercado público exige planejamento, documentação e prestação de contas. O próprio Ladeira reconhece que o marketplace não substitui o planejamento das compras. A ideia é atuar principalmente nos gargalos e nas necessidades que aparecem fora do planejamento original, como uma reposição urgente de medicamentos, materiais hospitalares ou itens de manutenção.

É aí que a empresa enxerga espaço para crescer. Além dos municípios, há estatais, autarquias, empresas de saneamento, hospitais e outras organizações que também realizam compras seguindo regras próprias de contratação pública. Segundo o executivo, a empresa já atende perto de 80% dos municípios brasileiros. A expansão, portanto, depende menos de conquistar novas prefeituras e mais de aumentar o volume de compras dentro da base existente e avançar sobre outros compradores públicos.

O lançamento também acontece em um momento de expansão da empresa. O Portal de Compras Públicas projeta faturamento de R$ 60 milhões em 2026. Para o Compra Simples, a expectativa é que 5% do volume atual de compras da plataforma migre para o novo modelo nos próximos 24 meses. Em um horizonte de cinco anos, Ladeira estima que essa participação possa chegar a 20%.

“O Compra Simples nasce para resolver uma questão muito concreta: como trazer para as compras públicas a simplicidade que as pessoas já experimentam no comércio digital, sem abrir mão das regras que protegem o interesse público. A tecnologia existe, a estrutura existe e a segurança jurídica também. Agora, estamos colocando essa combinação para funcionar”, diz Ladeira.

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