Negócios

Ele começou como office boy ganhando R$ 150. Hoje, é dono da empresa e fatura R$ 77 milhões

Koria cresceu 30% ao ano nos últimos cinco anos e quer quadruplicar o faturamento até 2030

Renato Valcarengh Nunes, da Koria: "Comecei como office boy e aprendi tudo na prática, no contato com as pessoas e com os problemas reais do dia a dia"  (Koria/Divulgação)

Renato Valcarengh Nunes, da Koria: "Comecei como office boy e aprendi tudo na prática, no contato com as pessoas e com os problemas reais do dia a dia" (Koria/Divulgação)

Daniel Giussani
Daniel Giussani

Repórter de Negócios

Publicado em 21 de abril de 2026 às 07h14.

Última atualização em 22 de abril de 2026 às 09h35.

Aos 17 anos, Renato Valcarengh Nunes atravessava o centro de Caxias do Sul, cidade na serra gaúcha a 120 quilômetros de Porto Alegre, correndo contra o relógio.

Ele era office boy, ganhava 150 reais por mês e dependia mais de conversa com caixas e seguranças de banco do que de tecnologia — celular ainda era artigo raro. O trabalho exigia improviso e jogo de cintura.

Sem saber, ali começava a trajetória do executivo que hoje fatura milhões num setor não tão conhecido, mas importantíssimo para as indústrias brasileiras.

A Koria fornece tudo que uma fábrica precisa para pintar — das cabines onde peças de avião, caminhões e móveis recebem acabamento até as pistolas, filtros, máscaras e equipamentos que o pintor usa no dia a dia. É o maior portfólio do setor no Brasil, com clientes como Embraer, Toyota, Scania e Tramontina.

A empresa, com sede em Caxias do Sul (RS) e filial em Araras (SP), faturou 77 milhões de reais em 2025 e projeta 108 milhões para 2026.

A empresa reúne as operações das marcas Aspersul, Arpi, Orange, Arply, Doxa e Tudo Para Pintar sob uma única identidade — a Koria, lançada em março de 2025 após nove meses de processo e mais de 100 nomes avaliados. É a consolidação de um ecossistema construído ao longo de três décadas, que a gestão atual quer quadruplicar até 2030.

"Comecei como office boy e aprendi tudo na prática, no contato com as pessoas e com os problemas reais do dia a dia. Hoje, me vejo como um facilitador, alguém que ajuda a destravar processos e abrir caminho para que pessoas e negócios cresçam", diz Nunes.

A meta da Koria é sair dos 77 milhões de reais para 300 milhões até 2030.

Para isso, a empresa aposta em três frentes: ampliar o portfólio de acessórios para pintura, entrar no mercado de pintura por pó — tecnologia usada na indústria metal-mecânica para aplicar tinta em formato sólido sobre superfícies metálicas — e fechar novas parcerias com fabricantes europeus.

Qual é a história de Nunes

Em menos de um ano como office boy, Nunes deixou de circular com documentos e passou a vender filtros e acessórios por telefone. As cabines de pintura precisam de filtros de papel trocados regularmente, e alguém tinha que ligar para os clientes oferecendo o produto. Ele era esse alguém.

Aos 18 anos, começou a aprender a vender máquinas ao lado do dono da empresa, um engenheiro que reconheceu no funcionário uma habilidade que ele próprio não tinha: relacionamento comercial.

Aos 19, já viajava o Brasil acompanhando representantes mais experientes. "Eu estava com caras com habilidade comercial muito grande do meu lado, vendo eles venderem. Fui conhecendo todos os Brasis — em Minas Gerais uma cultura, em São Paulo outra, no Espírito Santo outra. Comecei a aprender a me moldar", diz.

Aos 24 anos, era gerente comercial. No meio do caminho, tirou um ano e sete meses para morar na Nova Zelândia e na Austrália — voltou no domingo e estava de volta ao trabalho na segunda-feira seguinte, na mesma função.

A virada decisiva, porém, veio anos depois, quando ele e o sócio Ezequiel Nieto passaram de gestores a donos, numa aquisição fechada sem garantias tradicionais, com as próprias marcas servindo de lastro no contrato.

A dívida foi quitada um ano antes do prazo. Nos seis anos seguintes, a empresa cresceu em média 30% ao ano.

Qual foi o ponto de virada da empresa

O ponto de virada na estratégia da Koria foi uma constatação simples: se a empresa já vendia máquinas e cabines de pintura, por que não fornecer tudo que orbita esse processo?

A lógica levou à construção de um portfólio que hoje inclui macacões, máscaras, pistolas, plásticos protetivos e filtros — tudo, menos a tinta, que fica a cargo de parceiros.

A resposta para essa pergunta transformou a relação da empresa com os clientes.

Vender uma cabine de pintura é uma transação que pode demorar anos para se repetir — o equipamento dura de 10 a 20 anos. Vender os insumos do dia a dia criou uma receita recorrente e manteve a Koria presente na rotina das fábricas.

"Quando a gente tem máquina, aquela história: eu vendia e, em tese, não tinha mais o que vender para ele. Com os acessórios, a gente conseguiu crescer muito essa continuidade com o cliente", afirma Nunes.

A relação com a GE ilustra bem a profundidade dessas parcerias. A fabricante tem mais de 30 cabines da Koria instaladas e, no projeto mais recente — a construção de um novo hangar no Rio de Janeiro —, antecipou o pagamento de 6 cabines por conta da confiança acumulada, mesmo diante de um atraso de obra causado por temporal.

A fusão que dobrou a empresa do dia para a noite

A estrutura atual da Koria é resultado de um processo de consolidação que começou há mais de uma década. Em 2014, Nunes e seu sócio Ezequiel Nieto fizeram a fusão entre duas empresas de 40 funcionários cada.

Do dia para a noite, passaram a gerir uma operação de 80 pessoas, com duas culturas corporativas distintas e, como Nunes descreve, rivais de Grêmio e Inter convivendo no mesmo escritório.

"Não tem escola que te ensina a sair de 40 para 80. Você vai ter que vivenciar e encontrar os melhores caminhos", afirma. A empresa contratou uma psicóloga para conduzir dinâmicas de integração. Mesmo assim, pagaram preços altos nas escolhas feitas naquele período.

Quatro anos depois, com o sócio original querendo se aposentar, Nunes e Nieto compraram a participação restante.

Os desafios no meio do caminho

Chegar a 300 milhões de reais sem recorrer a dívidas é o caminho que Nunes prefere, mas reconhece os limites dessa escolha. A Koria tem uma política de reinvestir o lucro no próprio negócio. A única exceção foi a aquisição de um fabricante de filtros de papel para cabines, comprado via empréstimo bancário depois que uma negociação mais flexível não foi possível.

"Nós não temos, por característica, alavancagem. E nesse momento, com uma taxa de juros ainda não tão interessante, alavancagem se torna mais cara", diz Nunes.

A escolha por crescimento orgânico reduz a exposição a riscos financeiros, mas impõe um ritmo que pode ser difícil de manter numa meta tão ambiciosa.

Outro desafio que o CEO aponta é a mão de obra. A empresa criou um programa de jovens aprendizes para formar profissionais internamente e começou a construir uma camada de supervisores abaixo dos gerentes.

"O maior desafio ainda são pessoas. Conseguir construir um time engajado e preparado para o futuro", afirma.

E para além do negócio

Em paralelo ao crescimento do negócio, Nunes tirou do papel um projeto que carregava há uma década.

O Koria Summit, realizado em abril de 2026, é considerado o primeiro evento dedicado à pintura industrial no Brasil. A inspiração veio dos grandes eventos de marketing e tecnologia que ele frequenta há anos — em especial o RD Summit, o maior evento de marketing digital da América Latina, de onde costumava sair com a cabeça fervilhando de ideias.

O evento reuniu palestrantes internacionais e atraiu mais participantes do que o esperado — as 450 sacolas preparadas acabaram antes do meio da manhã. O pipeline gerado chegou a 10 milhões de reais. A segunda edição já está em planejamento, em um espaço maior.

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