Negócios

Ele alugou um ponto sem saber o que abriria. Agora seu negócio fatura R$ 16 milhões no Rio

Após testar diferentes negócios, Rodrigo Ramos encontrou na simplicidade operacional o caminho para escalar sua operação carioca

Rodrigo Ramos, da Burger Rio: "Antigamente eu era considerado comerciante. Hoje, por já ter outras estruturas, fiz o turnaround para empresário" (Burger Rio/Divulgação)

Rodrigo Ramos, da Burger Rio: "Antigamente eu era considerado comerciante. Hoje, por já ter outras estruturas, fiz o turnaround para empresário" (Burger Rio/Divulgação)

Daniel Giussani
Daniel Giussani

Repórter de Negócios

Publicado em 17 de maio de 2026 às 07h53.

Era 2018 quando Rodrigo Ramos passou de bicicleta por uma das ruas mais valorizadas de Ipanema, na Zona Sul do Rio de Janeiro, e viu uma plaquinha de "aluga-se" pendurada na fachada de uma pequena loja na Rua Vinícius de Moraes.

O aluguel era salgado: R$ 15 mil por mês, num dos quadriláteros mais caros da cidade. Do lado, funcionava uma casa de burritos que ele frequentava e admirava. Rodrigo não tinha cardápio, não tinha sócio, não tinha marca — não tinha sequer decidido qual produto venderia. Mesmo assim, fechou o contrato ali mesmo.

"Você é louco, você não sabe nem o que vai abrir", disse a esposa quando ele chegou em casa com a notícia. "Eu sei porque eu vou abrir. Não sei qual o produto", respondeu.

O que veio depois transformou aquele ponto vazio na primeira unidade da Burgers Rio — uma rede que hoje soma cinco hamburguerias em Ipanema, Botafogo, Barra da Tijuca, Copacabana e Tijuca, uma pizzaria recém-inaugurada e cerca de R$ 16 milhões de faturamento.

Para 2026, a meta é chegar entre R$ 19 milhões e R$ 20 milhões, com a abertura de mais duas lojas, incluindo uma operação combinada de hamburgueria e pizzaria no Leblon.

Mas antes do hambúrguer, veio a aposta no vazio.

Qual é a história de Rodrigo e da Burger Rio

A decisão impulsiva em Ipanema não foi a primeira aposta de Rodrigo — foi a culminação de mais de duas décadas testando negócios. Antes dela, veio uma franquia que quase o quebrou.

Em 2017, depois de uma trajetória que já incluía uma empresa de educação física em condomínios e uma escolinha de futebol do Fluminense, Rodrigo decidiu entrar no segmento de alimentação.

Abriu uma franquia de grelhados em um shopping pequeno na Zona Oeste do Rio, atraído pela promessa de que aquele empreendimento seria a porta de entrada para um shopping maior na cidade. A expansão prometida nunca veio. O shopping não engrenou, o movimento era fraco, e a operação simplesmente não rodou.

Foi ali, vendo o investimento alto se esvair em um ponto morto, que ele entendeu o que queria — e o que não queria — fazer. A frustração virou método: quando finalmente abrisse seu próprio negócio, seria com cardápio enxuto, processos simples e controle total da marca.

Mas o instinto para os negócios não nasceu na franquia.

Veio bem antes, ainda na infância na Ilha do Governador, zona norte do Rio. Filho de funcionário público e dona de casa, Rodrigo cresceu numa casa onde a regra era clara: se quisesse algo além do básico, teria que pagar metade. A outra metade vinha da família. Foi a primeira lição de educação financeira — e a faísca para o resto.

Aos 12 anos, descobriu que a cantina da escola não vendia chiclete. Comprou uma caixa de Bubbaloo e começou a revender para os colegas dentro da sala de aula. O lucro de uma caixa virava duas. "Para minha idade, com 11, 12 anos, era um negoção". Era pouco dinheiro, mas a lógica do empreendedorismo já estava lá: identificar uma dor, oferecer a solução, reinvestir o lucro.

Aos 15, a brincadeira escalou. Junto com amigos, começou a organizar festas para a galera dos colégios da Ilha.

O primeiro evento foi planejado para 30 pessoas na casa de Rodrigo — até um dos sócios divulgar em outras escolas pelo Orkut e pelo MSN sem avisar. De repente, a casa não comportava mais a multidão que confirmou presença. Mudaram tudo para a casa de um amigo um dia antes, contrataram segurança, refizeram a divulgação.

A mãe do amigo desceu a escada com uma bandeja de cachorro-quente achando que era um aniversário e deu de cara com um DJ e dezenas de adolescentes que nunca tinha visto. A festa foi um sucesso. O grupo passou a fazer eventos a cada 20 dias, faturando entre R$ 1 mil e R$ 1.500 por noite — dinheiro alto para um adolescente em meados dos anos 2000.

Depois vieram a faculdade de Educação Física na UFRJ, o estágio em Xerém como auxiliar de preparação física do Fluminense, e a constatação de que o futebol não pagaria as contas que ele queria pagar.

Foi então que abriu a Múltiplos Esportivo, empresa que montava academias dentro de condomínios e fornecia personal trainers aos moradores. Chegou a ter cinco contratos ativos, cada um rendendo cerca de R$ 1 mil por mês. Com o caixa que sobrou, comprou uma cota de uma escolinha de futebol franqueada do Fluminense no Recreio dos Bandeirantes — entrou como sócio investidor, recebeu dividendos por um ano e revendeu sua parte por o dobro do que investiu.

Foi exatamente esse dinheiro, somado a um empréstimo do sogro, que sustentaria a aposta seguinte. E essa, sim, seria a definitiva.

A viagem que virou cardápio

Com o ponto alugado em Ipanema e seis meses de carência negociados com o proprietário, Rodrigo tinha tempo — mas não tinha produto.

Pegou a mochila, chamou a esposa e foi atrás de referência onde havia de sobra: o irmão morava em Nova York, e foi de lá que começou a peregrinação. Comeu em todas as hamburguerias relevantes da cidade. Naquele momento, o mercado americano vivia a disputa entre Shake Shack e Five Guys pelo posto de melhor smash burger do país. Para Rodrigo, foi clareza imediata.

"Tem tudo a ver com o que eu quero fazer", pensou.

O conceito era radicalmente diferente do que dominava o Rio de Janeiro na época. Enquanto a cidade vivia o auge do hambúrguer gourmetizado — com molhos elaborados, ingredientes exóticos e fichas técnicas longas —, Shake Shack e Five Guys vendiam o oposto: pão, carne e queijo, executados com excelência. Cardápio curto, ingredientes frescos, operação simples.

A pesquisa continuou em Londres, onde visitou mais hamburguerias para entender as estruturas operacionais. Depois São Paulo, onde já existiam algumas casas trabalhando no formato. Foi nessa rodada de viagens que Rodrigo bateu o martelo: traria o primeiro smash burger especializado do Rio de Janeiro.

Voltou com uma lista clara de referências. Do Shake Shack, importou a obsessão pela qualidade dos insumos. Do Five Guys, a transparência

O conceito estava pronto. Faltava o cardápio.

Quarenta dias para inventar uma hamburgueria

A 40 dias da inauguração, Rodrigo não tinha receitas. Os dois profissionais que havia contratado para desenvolver o cardápio — um dono de hamburgueria, outro chef — caíram fora em sequência.

Pegou um avião para São Paulo, fez um curso intensivo de dois dias sobre hamburgueria e voltou para o Rio com cadernos cheios de anotações sobre maioneses, blends de carne, percentuais de gordura. No primeiro teste, chamou dez amigos para a casa, montou uma hamburgada e serviu como se fosse aniversário da esposa. Todos elogiaram. Faltando algumas semanas, refinou a receita com mais um casal de amigos: definiu uma maionese da casa, escolheu o blend de carne e fechou os detalhes finais.

A maionese da casa virou marca registrada. Rodrigo passou a servi-la separada do sanduíche, à parte, para o cliente usar como quisesse. Outro toque que vinha das hamburguerias americanas. A batata frita também ganhou tempero próprio: enquanto o resto da cidade trabalhava com páprica, ele apostou no lemon pepper. Até hoje, é o item mais vendido da loja.

O pão exigiu pesquisa específica. O brioche tradicional não tinha a textura ideal, e o protetor americano não existia no mercado brasileiro. Rodrigo fechou parceria com uma panificadora carioca em expansão e desenvolveu, em conjunto, um pão híbrido — brioche com batata —, macio o suficiente para acomodar o smash sem desmanchar.

A Burgers Rio inaugurou em 2 de agosto de 2018.

Os desafios iniciais

Os primeiros meses foram brutais. Com aluguel de R$ 15 mil, Rodrigo vendia entre cinco e seis hambúrgueres por semana. A conta não fechava — não chegava nem perto de fechar. Mas o investimento já estava feito, até o capital do sogro já estava na operação, e voltar atrás não era opção.

A virada veio por dois lados. O primeiro foi o boca a boca: aos poucos, o público local começou a descobrir que havia uma hamburgueria diferente em Ipanema, e a marca foi ganhando tração orgânica.

O segundo, mais decisivo, foi a aposta antecipada no delivery. Antes mesmo de a pandemia mudar o jogo do setor, Rodrigo já vinha estruturando a operação para entrega — embalagens caprichadas, mimos para o cliente (bala, cartinha escrita à mão), processos de logística afinados.

Quando a covid-19 chegou, em 2020, e o consumo dentro das lojas evaporou, a Burgers Rio estava pronta. Enquanto concorrentes corriam atrás de embalagens, fornecedores e operação remota, ele já tinha tudo no lugar. O faturamento praticamente dobrou no período, e a marca consolidou o delivery como pilar permanente do negócio.

A partir dali, a expansão virou rotina: uma loja nova por ano. Botafogo, Barra da Tijuca, Copacabana, Tijuca. Cada unidade replicando o mesmo conceito enxuto, o mesmo cardápio focado, os mesmos processos.

A próxima aposta: pizza

Em 2025, Rodrigo abriu a Izzas Pizza, em Botafogo, ao lado da unidade da Burgers Rio. A pizzaria nasceu da mesma lógica do hambúrguer: simplicidade operacional, cardápio curto, qualidade nos insumos. Mas com uma proposta de produto diferente do que domina o Rio.

"A galera aqui gosta de pizza recheada, borda alta, tudo cheio", explica. "Eu vou no caminho oposto." A Izzas trabalha com massa de fermentação de 48 horas, hidratação mais baixa e menos ingredientes — uma adaptação da escola italiana com pegada nova-iorquina, pensada para ser comida com a mão.

Para garantir consistência, Rodrigo fez algo que não tinha feito na primeira aventura: contratou um chef consultor para desenhar o cardápio do zero. Lição aprendida com os 40 dias de pânico de 2018.

O modelo de expansão também evoluiu. No Leblon, onde abre as próximas unidades até o fim do mês que vem, Rodrigo alugou um galpão e dividiu o espaço em dois boxes — um para a Burgers Rio, outro para a Izzas. É a primeira operação combinada da rede, um teste para o formato que ele enxerga como futuro: um grupo de fast-food de qualidade, com várias marcas convivendo sob a mesma estrutura.

"Antigamente eu era considerado comerciante. Hoje, por já ter outras estruturas, fiz o turnaround para empresário", define. "Mas com sangue de comerciante, que a gente não pode largar."

A meta para 2026 é fechar o ano entre R$ 19 milhões e R$ 20 milhões de faturamento, com a abertura de mais duas lojas. E, no horizonte mais distante, a possibilidade de um exit. "Sou um cara que, se aparecer oportunidade de fazer um exit, não teria problema. Tenho ideias no meu escopo para criar outras empresas, vender outros tipos de produto, viver de outra forma."

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