Vanessa e Vinícius Pilz, irmãos e sócios da Reiter Log: "É um produto novo, é inovador e a gente está sendo pioneiro e líder absoluto com um volume muito grande de ativos” (Jefferson Bernardes / Reiter Log/Divulgação)
Repórter de Negócios
Publicado em 22 de agosto de 2026 às 08h04.
Uma transportadora da região metropolitana de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, está prestes a anunciar a compra, de uma única vez, de 220 caminhões a gás. O lote será entregue até dezembro e, segundo a empresa, representa a maior compra já feita da história da Scania no Brasil, a montadora dos veículos.
A responsável é a Reiter Log, criada em 2008 pelo empresário Vinicius Pilz, então com 22 anos. A empresa começou com um único caminhão e hoje faz parte de um grupo que fatura cerca de 2,5 bilhões de reais, emprega 2.500 pessoas e opera aproximadamente 2.500 caminhões e carretas.
Com a nova compra, a Reiter vai superar a marca de 600 veículos movidos a gás. E boa parte dos 220 veículos já chega para atender ampliações de contratos e novos negócios com companhias interessadas em reduzir as emissões de suas operações.
“No passado a gente comprou os caminhões no escuro, comprou os caminhões para oferecer aos clientes. Agora a gente já compra sob a demanda dos clientes”, diz Vinicius Pilz.
A próxima etapa é tentar controlar também o combustível que move essa frota.
O grupo está construindo uma operação que liga pecuária — com a fazenda Estância del Sur, que faz parte da familia — produção de biometano e transporte rodoviário. A ideia é usar resíduos do gado criado pela família para produzir parte do gás consumido pelos caminhões da Reiter.
Ao mesmo tempo, a empresa amplia uma rede própria de abastecimento que deve chegar a dez pontos.
A história começou em 2008, em Nova Santa Rita, município da região metropolitana a cerca de 20 quilômetros de Porto Alegre. Vinicius Pilz tinha 22 anos e recebeu da família um caminhão. Era o primeiro ativo da empresa.
A paixão vinha de antes. Segundo Vanessa Pilz, irmã de Vinicius e diretora de negócios e ESG da companhia, o irmão queria dirigir caminhões desde criança. “Meu irmão sempre foi apaixonado por caminhões. O sonho dele de criança era ser motorista”, diz Vanessa.
Ela própria entrou cedo no negócio. Tinha 22 anos quando assumiu a área comercial da empresa. Os primeiros anos foram concentrados no transporte de carga frigorificada. A dependência de um único segmento começou a incomodar os irmãos. Uma crise sanitária, por exemplo, poderia derrubar rapidamente o volume transportado.
A decisão foi migrar também para bens de consumo e pulverizar a carteira. A partir daí, a Reiter criou uma regra que continua norteando o negócio: nenhum cliente deveria representar mais de 10% do faturamento.
A diversificação levou a empresa a contratos com companhias como Unilever, L’Oréal, Natura, Boticário, Colgate, Mondelez, Mars, Nestlé e Beiersdorf, dona de Nívea e Eucerin.
Hoje, São Paulo representa uma parte importante da operação da Reiter Log, apesar das raízes gaúchas. A empresa também atua em rotas que conectam o Sul ao Sudeste e começa a avançar pelo Centro-Oeste.
A escala atual é bem diferente da que a companhia tinha poucos anos atrás. Em 2024, a Reiter Log registrou receita de 721 milhões de reais, tinha mais de 1.900 caminhões na frota própria e 2.265 funcionários. Agora, os Pilz passaram a divulgar também os números do grupo, que inclui negócios fora da transportadora.
Segundo Vinicius, o grupo fatura aproximadamente 2,5 bilhões de reais, emprega cerca de 2.500 pessoas e tem aproximadamente 2.500 caminhões e carretas em operação.
A Reiter começou a testar uma escala maior de caminhões a gás em 2021.
Naquele ano, comprou 124 unidades da Scania. Depois, fez uma nova aquisição do mesmo tamanho e adicionou outros veículos à frota. Agora, parte para o maior lote desde o início da estratégia.
São 220 caminhões a gás, que começaram a chegar em agosto e devem ser entregues integralmente até dezembro. Com isso, a empresa afirma que vai superar 600 veículos desse tipo em operação.
“É um feito muito grande porque é um produto novo, é inovador e a gente está sendo pioneiro e líder absoluto com um volume muito grande de ativos”, diz Vinicius.
A concentração de tantos caminhões numa única empresa traz um problema prático: onde abastecer. A rede pública de biometano e gás natural veicular ainda não permite que uma transportadora opere longas distâncias com a mesma facilidade encontrada no diesel. A resposta da Reiter foi construir seus próprios pontos de abastecimento.
Hoje são nove pit stops, pontos internos instalados nas filiais e usados exclusivamente pela empresa. Um décimo está em implantação.
Essa estrutura permite conectar o Rio Grande do Sul a estados como Minas Gerais, Goiás, Espírito Santo e Rio de Janeiro com veículos movidos a gás.
“Somos a única transportadora que consegue fazer interestadual, um transporte de longa distância que liga o Rio Grande do Sul até Minas Gerais, Goiás, Espírito Santo e Rio de Janeiro”, afirma Vinicius.
O avanço geográfico continua concentrado nas regiões em que a empresa já tem operação. O foco segue no Sul e Sudeste, com entrada mais recente no Centro-Oeste.
É nessa etapa que a história da Reiter começa a se misturar com outro negócio da família.
Os Pilz também controlam a Estância Del Sur, operação ligada à pecuária. A fazenda aparece agora como uma peça da estratégia de abastecimento dos caminhões.
O modelo planejado funciona em cadeia. A propriedade produz milho, usado na alimentação do gado. O esterco dos animais pode ser levado a biodigestores, equipamentos que transformam matéria orgânica em produtos como biogás.
Depois de purificado, esse gás pode se transformar em biometano, combustível renovável com características semelhantes às do gás natural.
O processo também gera biofertilizante, que pode voltar para a lavoura.
“Nós plantamos o milho que o boi come. O boi vai defecar, nós vamos coletar todo esse esterco e, num processo de internalização, a gente vai gerar biofertilizante, que aduba o milho. E vai trazer o outro produto, que é biometano, que vai abastecer o caminhão da Reiter”, diz Vinicius.
A intenção é criar uma cadeia circular dentro do próprio grupo: parte do que sai da atividade agropecuária volta para a logística na forma de combustível.
A produção própria, porém, não deve ser suficiente para abastecer toda a frota. A Reiter seguirá comprando biometano de fornecedores externos para completar a demanda dos pontos de abastecimento.
A maior mudança desde as primeiras compras aparece do outro lado do balcão.
Quando a Reiter começou a investir na tecnologia e na sustentabilidade, a empresa assumia o risco primeiro. Comprava os caminhões, montava a estrutura e só então buscava clientes dispostos a substituir parte da operação a diesel.
Agora, segundo os irmãos, empresas com metas de redução de emissões começaram a procurar esse tipo de solução.
L’Oréal e Natura estão entre os clientes citados pela Reiter. Outro exemplo é a Copersucar, com quem a transportadora opera uma rota com combustíveis de menor emissão. “São os clientes que estão buscando a descarbonização”, diz Vanessa.
Isso também ajuda a Reiter a enfrentar um dos problemas históricos da logística rodoviária: a disputa quase exclusivamente pelo preço do frete.
Uma operação com menor emissão de carbono cria outra variável na negociação. Em alguns contratos, segundo Vinicius, o cliente remunera diretamente a redução de emissões. “Tem cliente nosso que já remunera a redução de emissões. Ao invés de ele ir comprar crédito de carbono, ele está evitando emissão, que é o mais lógico”, diz Vinicius.
A tese é que a conta pode fazer sentido quando o transporte ajuda a companhia contratante a avançar em seus próprios compromissos ambientais.
O movimento também carrega riscos. Caminhões movidos a tecnologias alternativas ainda exigem mais capital, e sua viabilidade depende do tipo de rota, da utilização do veículo e da disponibilidade de combustível.
No caso dos caminhões a gás, a infraestrutura própria resolve uma parte do problema, mas aumenta a quantidade de capital imobilizado no negócio. A empresa precisa comprar a frota, construir pontos de abastecimento, garantir fornecimento de combustível e encontrar contratos que mantenham os veículos rodando.
É por isso que a mudança relatada por Vinicius — comprar já com demanda contratada ou em negociação — se torna central para a próxima fase. Em vez de depender apenas da expectativa de que os clientes adotem a tecnologia, a Reiter tenta conectar cada novo lote de veículos a contratos que sustentem o investimento.
O desafio daqui para frente será repetir em uma frota de mais de 600 caminhões a gás uma estratégia que começou com algumas dezenas de veículos. Para uma empresa que nasceu com um caminhão, o tamanho da aposta mudou.