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Da periferia ao Shark Tank: carioca ganha destaque e recebe R$ 200 mil de investimento

Conheça a história de Tais Baptista, fundadora da Preta Porter, empresa de cosméticos para mulheres negras que projeta expandir o portfólio, fortalecer a comunidade de revendedoras e ampliar os canais de distribuição

Tais Baptista, à frebte da Preta Porter Cosméticos: “Ninguém começa pronto. A prontidão não vem antes do primeiro passo, nasce no caminho, entre os erros, os aprendizados e as pequenas vitórias que ninguém vê.”

Tais Baptista, à frebte da Preta Porter Cosméticos: “Ninguém começa pronto. A prontidão não vem antes do primeiro passo, nasce no caminho, entre os erros, os aprendizados e as pequenas vitórias que ninguém vê.”

Caroline Marino
Caroline Marino

Jornalista especializada em carreira, RH e negócios

Publicado em 26 de janeiro de 2026 às 14h35.

A comunicação sempre teve um papel estratégico na vida de Tais Baptista – seja para acessar oportunidades, construir narrativas ou abrir caminhos que, historicamente, não estavam disponíveis para mulheres negras. Não à toa, escolheu cursar Letras. “Sempre acreditei no poder da linguagem como instrumento de transformação. Dominar a palavra era também dominar possibilidades”, diz.

Moradora de Santa Cruz, na periferia do Rio de Janeiro, e filha de uma empregada doméstica, cresceu em um ambiente no qual o trabalho era sinônimo de dignidade. Aprendeu cedo o valor do esforço, mas também percebeu a desigualdade estrutural. Dessa vivência nasceu uma convicção que atravessa toda a sua trajetória profissional: talento não falta; o que falta são pontes. Hoje, atua para construir essas pontes. Está à frente da Preta Porter Cosméticos, participante da 10ª temporada do Shark Tank Brasil, que recebeu um aporte de R$ 200 mil de Monique Evelle por 35% da empresa. Também é fundadora da Gand Startups, iniciativa dedicada à promoção da diversidade, equidade e inclusão no ecossistema de inovação e empreendedorismo, desenvolvida no Cubo Itaú, líder da frente de beleza e inovação da Cariocas Startups e embaixadora da Editora Mulheres Pretas.

Capacitação e propósito como bases

O insight para começar a empreender veio durante a graduação, quando decidiu atravessar fronteiras. Com a ajuda de amigos que organizaram uma “vaquinha”, Tais conseguiu realizar um intercâmbio cultural em Nice, na França. O período ampliou seu repertório e a aproximou do setor europeu de cosméticos, evidenciando a baixa oferta, no Brasil, de produtos de alto padrão para mulheres pretas. “Não era apenas uma questão estética, mas de tecnologia, formulação e respeito à diversidade de fios”, afirma. A partir disso, começou a amadurecer a ideia de criar um negócio.

De volta ao Rio e em paralelo ao trabalho como professora da rede municipal, passou a revender maquiagens para peles negras. Acumulou aprendizados práticos sobre logística, precificação e relacionamento com o cliente, além de aprofundar o entendimento do comportamento e das demandas das consumidoras. Esse olhar levou ao segmento de cuidados capilares e, depois, à criação da Preta Porter. “Percebi que podia desenvolver soluções com identidade e potencial de escala”, lembra.

A virada aconteceu em 2020, durante a pandemia de covid-19. Com capital próprio, lançou o primeiro produto para validar a proposta, entender o segmento e organizar a operação. Mas tudo com cautela. Durante muito tempo, dividiu os dias entre a sala de aula e a construção da empresa. “Foram anos de rotina intensa, muitas vezes com recursos limitados, mas com a certeza de onde eu queria chegar”, diz. Segundo ela, a profissionalização ganhou impulso com a participação no programa de aceleração Shell Iniciativa Jovem. Lá, aprendeu sobre plano estratégico, pesquisa de mercado, construção de marca e desenvolvimento de produto.

Depois fez capacitações em gestão, planejamento e inovação, e participou do Cubo Itaú. “Pude trocar com outros empreendedores, entender modelos mais avançados de gestão e reforçar a convicção de que inovação não é só sobre produto, mas sobre processo, cultura e tomada de decisão”, conta.

Do crescimento orgânico ao Shark Tank

A Preta Porter ganhou estrutura e o portfólio cresceu de forma gradual. Atualmente, são nove produtos comercializados, com linhas de shampoo, condicionador, ativador de cachos, óleos africanos e spray de brilho. A estratégia de vendas inclui e-commerce próprio, marketplaces, como Mercado Livre, Magazine Luiza e Shopee, projetos especiais e parcerias B2B. Uma delas com a You Fast, que leva os itens para máquinas inteligentes de venda de cosméticos.

Como reflexo do trabalho, foi um dos destaques da 10ª temporada do Shark Tank Brasil. Mais do que a possibilidade de captar recursos, Tais reforça que a experiência foi um exercício de clareza e tomada de decisão sob pressão. “Foi um profundo amadurecimento como empresária. Saí daquele palco mais segura, consciente e comprometida em construir um negócio sólido e sustentável.”

O sucesso da operação, de acordo com ela, está apoiado em alguns pilares: propósito claro, sempre combinado com estratégia, método e planejamento; tecnologia, essencial para a inclusão, escala e eficiência; escuta ativa da comunidade para a tomada de decisões; rede de apoio e parcerias. “Crescer sozinha é possível, mas crescer de forma sustentável é sempre coletivo.”

Entre os planos para os próximos meses estão a expansão do portfólio, a ampliação dos canais de distribuição e o fortalecimento da comunidade de revendedoras por meio do Clube da Onça, uma plataforma de capacitação que integra tecnologia e cuidado. O uso de inteligência artificial e dados permite personalizar treinamentos, apoiar decisões de venda e desenvolver competências.

“O medo não pode decidir por você”

A frase resume um pouco a visão de Tais sobre a decisão de empreender. “O medo é uma ferramenta de sobrevivência humana. Existe para nos proteger e nos manter atentas. Quando entendemos isso, o sentimento deixa de ser barreira e passa a ser bússola”, diz. Isso porque aponta onde precisamos nos preparar melhor, aprender mais, buscar apoio e criar estratégias. Para ela, não é o medo que impede o avanço, é a falta de ação apesar dele.

Buscar conhecimento, estabelecer uma rede e “profissionalizar os sonhos”, mesmo quando tudo ainda parecer imperfeito, são algumas das recomendações da empresária para as mulheres que desejam ter um negócio. “Ninguém começa pronto. A prontidão não vem antes do primeiro passo, nasce no caminho, entre os erros, os aprendizados e as pequenas vitórias que ninguém vê”, afirma. Ressalta, ainda, que é preciso coragem para começar e constância para continuar. “O resto se constrói com tempo, esforço e fé no processo.”

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