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Com novo CEO, Leroy Merlin mira R$ 10 bilhões e aposta em serviços e digital

Sob nova direção, a companhia prioriza resolver gargalos no digital, reduzir a perda de clientes e ampliar serviços para ganhar escala

Isabela Rovaroto
Isabela Rovaroto

Repórter de Negócios

Publicado em 25 de março de 2026 às 06h00.

Última atualização em 25 de março de 2026 às 10h34.

O varejo de construção vive um momento ambíguo no Brasil. Juros altos freiam reformas, mas a demanda por melhorias na casa segue resiliente, ainda que mais fragmentada e sensível a preço.

É nesse cenário que a Leroy Merlin tenta mudar de patamar. A varejista faturou cerca de R$ 9,4 bilhões em 2025 e colocou como meta alcançar R$ 10 bilhões já em 2026. A missão agora está nas mãos do novo CEO no país, Ricardo Dinelli, o primeiro brasileiro no cargo.

A companhia bateu na trave no último ano e cresceu menos do que o esperado. Agora, a estratégia passa menos por abrir lojas e mais por resolver gargalos internos — especialmente na operação digital, serviços e gestão de pessoas.

“Talvez seja mais fácil dobrar o digital do que crescer no físico”, afirma Dinelli. “A gente tem bastante oportunidade dentro de casa.”

A empresa quer acelerar o digital, ampliar a oferta de serviços e corrigir falhas operacionais que ainda travam a experiência do cliente. Ao mesmo tempo, precisa lidar com um desafio menos visível, mas crítico: reter clientes e funcionários em um negócio cada vez mais complexo.

Do produto ao serviço

Ricardo Dinelli, novo CEO da Leroy Merlin

Ricardo Dinelli, novo CEO da Leroy Merlin: “Serviço é o coração da nossa diferenciação" (Leroy Merlin/Divulgação)

A principal mudança na Leroy Merlin está na proposta de valor. A empresa quer deixar de ser apenas um varejista de materiais de construção para vender soluções completas de reforma.

Hoje, os serviços já cresceram cerca de 17% e, combinados com produtos, geram mais de R$ 500 milhões em faturamento. Internamente, esse modelo é chamado de “grande solução”.

“Serviço é o coração da nossa diferenciação. Não é todo mundo que faz, não é todo mundo que oferece garantia”, afirma Dinelli .

A aposta faz sentido, mas aumenta a complexidade. Diferente da venda de produtos, o serviço envolve execução, terceiros e uma experiência mais difícil de controlar.

Hoje, a companhia já conta com mais de 3.000 prestadores para atender esse modelo.

O digital virou porta de entrada

Outro ponto central da estratégia é o digital. Hoje, 30% dos clientes têm o primeiro contato com a Leroy Merlin por canais online, seja site, app ou marketplace.

Mas essa relevância ainda não se traduz em vendas. Apenas 13% das transações acontecem no digital. “Quero dobrar o digital em três anos”, afirma Dinelli.

O problema não está na demanda, mas na execução. A empresa reconhece que ainda há falhas em logística, prazo de entrega e custo de frete, pontos críticos para o consumidor.

“Hoje algumas das travas do digital estão ligadas a supply e operação”, afirma o CEO.

Nos últimos três anos, a Leroy investiu R$ 1,2 bilhão em tecnologia. Agora, o foco deixa de ser infraestrutura e passa a ser eficiência.

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O paradoxo do cliente

A Leroy Merlin tem um problema clássico de varejo omnichannel. Consegue atrair clientes, mas tem dificuldade em mantê-los. A empresa perde cerca de 30% dos clientes todos os anos.

Ao mesmo tempo, sabe que a fidelização pode multiplicar receita. Um cliente que circula entre canais pode gastar até quatro vezes mais do que um cliente tradicional.

“Trazer esse cliente para dentro do ecossistema e reter ele é o que vai alavancar o crescimento”, afirma Dinelli.

Se o serviço é o diferencial e o digital é a alavanca, as pessoas viraram o principal risco.

A Leroy Merlin tem cerca de 10.000 funcionários no Brasil e enfrenta uma taxa de turnover de 30% ao ano. Metade das saídas acontece em menos de um ano.

“Para a gente isso é muito relevante, porque a nossa mão de obra precisa ser especializada”, diz Dinelli.

O problema vai além do custo. A rotatividade impacta diretamente a experiência do cliente, especialmente em categorias técnicas, como ferramentas e projetos.

Para tentar reverter o cenário, a empresa lançou um programa de acionariado para funcionários e reforçou iniciativas de formação.

Hoje, mais de 1.200 pessoas ligadas à empresa, incluindo familiares, estão cursando ensino superior com apoio da companhia.

Menos loja, mais eficiência

Diferente de ciclos anteriores, a expansão física não é prioridade no curto prazo. A Leroy Merlin tem 55 lojas no Brasil e segue testando novos formatos, como unidades compactas em cidades menores. Ainda assim, o foco está no crescimento orgânico.

“Meu foco não está em abertura de lojas agora. Eu preciso resolver outras coisas”, afirma o CEO.

A leitura é que ainda há espaço para crescer dentro da base atual, seja aumentando ticket médio, frequência ou participação de serviços.

A meta de R$ 10 bilhões de reais está próxima — e, segundo o CEO, factível. A companhia espera crescer novamente em serviços, manter expansão no digital e ganhar eficiência operacional.

“Mesmo com esse cenário complexo, eu estou bastante otimista com o que a gente pode fazer”, afirma.

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