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Caso Wirecard: julgamento do maior escândalo financeiro da Alemanha começa hoje

Antigo CEO Markus Braun é acusado de fraude contábil, manipulação de mercado, quebra de confiança e fraude em grupo organizado

 (Peter Kneffel/Getty Images)

(Peter Kneffel/Getty Images)

A
AFP

8 de dezembro de 2022, 10h30

O julgamento do ex-presidente da empresa alemã Wirecard começou nesta quinta-feira (8), em Munique, dois anos e meio depois do colapso da empresa de pagamentos digitais que abalou o mundo financeiro e político.

Todos os olhares se voltaram para Markus Braun, o comandante da gigante do setor digital, cujo auge se revelou ilusório quando colapsou em junho de 2020.

O austríaco de 53 anos, em prisão preventiva desde o início da investigação, rejeitou as acusações de desvio de fundos e apresenta-se como vítima de estelionato, embora nunca tenha falado detalhadamente sobre os fatos.

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Nesta quinta-feira ele começou a responder os juízes sobre sua identidade, segundo os jornalistas da AFP presentes na audiência.

O julgamento acontece dentro da prisão de Stadelheim, na capital da Baviera, e deve durar pelo menos até 2024.

Durante os anos de crescimento da Wirecard, Braun, um engenheiro de computação por formação, vestia-se como o ex-chefe da Apple, Steve Jobs, com gola alta escura, e espalhava uma visão de um futuro digital.

A Promotoria de Munique, porém, o considera um fraudador. E para o atual chanceler Olaf Scholz, então ministro das Finanças, foi o responsável por um escândalo "sem precedentes" na Alemanha do pós-guerra.

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Braun é acusado de fraude contábil, manipulação de mercado, quebra de confiança e fraude em grupo organizado.

Também são julgados o ex-chefe de contabilidade, Stephan von Erffa, e o ex-diretor de uma subsidiária em Dubai, Oliver Bellenhaus, que serviu como "testemunha-chave" da acusação.

Em 2002, Braun assumiu a gestão desta empresa emergente que ganhava dinheiro com sites pornográficos e de jogos e a fez crescer até ser incluída no índice Dax da bolsa alemã em 2018.

Naquela época, a empresa de Aschheim (sul) valia mais que o Deutsche Bank, enquanto Braun, com 7% das ações, era bilionário.

Falta de supervisão

Mas a empresa quebrou em junho de 2022, depois que seus dirigentes reconheceram que um quarto de seus ativos, o equivalente a 1,9 bilhões de euros, não existia.

O braço direito de Braun e suposta figura central nesta fraude, o austríaco Jan Marsalek, está foragido desde então.

A trama ganhou contornos de um romance de espionagem com Marsalek suspeito de ter cúmplices nos serviços secretos e de estar ligado a interesses russos e líbios.

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A investigação revelou que as contas da Wirecard entre 2015 e 2018 embelezaram a situação da empresa para torná-la atrativa para os investidores e continuar se financiando por anos, escondendo suas perdas reais.

Os acionistas perderam mais de 20 bilhões de euros com a falência e os bancos credores, cerca de 2 bilhões de euros.

O escândalo revelou falhas por parte do supervisor alemão dos mercados financeiros (BaFin), colocado sob a tutela do Ministério das Finanças, e da empresa de auditoria EY.

A classe política, incluindo a ex-chanceler Angela Merkel que viajou à China acompanhada de Braun, recebeu duras críticas de uma comissão parlamentar de inquérito que, no entanto, não conseguiu apurar a responsabilidade dos governantes.