Capacete que 'lê mentes' chega ao mercado após projeto de US$ 110 mi

Um empreendedor americano está dedicando a vida para criar um aparelho capaz de ler o cérebro humano, mas, para isso, vai precisar superar uma série de desafios
 (Damien Maloney/BLOOMBERG BUSINESSWEEK)
(Damien Maloney/BLOOMBERG BUSINESSWEEK)
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Ashlee Vance, da Bloomberg Businessweek

Publicado em 06/07/2021 às 07:10.

Última atualização em 06/07/2021 às 11:10.

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Bryan Johnson, fundador da Kernel, empresa desenvolvedora de capacetes para ler pensamentos: investimento de US$ 110 mi no negócio, boa parte dos recursos vindos do próprio bolso (Damien Maloney/BLOOMBERG BUSINESSWEEK)

Nas próximas semanas, uma empresa chamada Kernel começará a enviar a dezenas de clientes nos Estados Unidos um capacete que pode ler sua mente de US$ 50.000.

Pesando alguns quilos cada, os capacetes contêm ninhos de sensores e outros componentes eletrônicos que medem e analisam os impulsos elétricos do cérebro e o fluxo sanguíneo na velocidade do pensamento, fornecendo uma janela de como o órgão responde ao mundo.

A tecnologia de base existe há anos, mas é geralmente encontrada em máquinas do tamanho de uma sala que podem custar milhões de dólares e exigir que os pacientes permaneçam imóveis em um ambiente clínico.

A promessa de uma tecnologia muito mais acessível que qualquer um possa usar e andar com ela, é, digamos, alucinante. Pesquisadores entusiasmados esperam usar os capacetes para obter uma visão sobre o envelhecimento do cérebro, distúrbios mentais, concussões, derrames e a mecânica por trás de experiências anteriormente metafísicas, como meditação e viagens psicodélicas.

Cérebro online

“Para progredir em todas as frentes de que necessitamos como sociedade, é preciso que o cérebro esteja online”, diz Bryan Johnson, que gastou mais de cinco anos e investiu cerca de US$ 110 milhões – metade disso de seu próprio dinheiro – para desenvolver esses capacetes.

Johnson é o diretor executivo da Kernel, uma startup que está tentando construir e vender milhares, ou até milhões, de capacetes leves e relativamente baratos que têm o vigor e a precisão necessários para aquilo que neurocientistas, cientistas da computação e engenheiros elétricos têm tentado fazer por anos: analisar o crânio humano fora da universidade ou dos laboratórios do governo.

No que deve ser algum tipo de recorde de rejeição, 228 investidores não se sensibilizaram com o discurso de vendas de Johnson, e o CEO, que fez uma fortuna com sua empresa anterior no setor de pagamentos, quase zerou sua conta bancária no ano passado para manter a Kernel funcionando.

“Estávamos a duas semanas de não conseguir pagar a folha de pagamento”, diz ele. Embora a tecnologia da Kernel ainda precise de muita comprovação, demonstrações bem-sucedidas, conduzidas pouco antes da Covid-19 se espalhar pelo mundo, convenceram alguns dos céticos do público-alvo de Johnson de que ele tem uma chance de realizar seu projeto.

Um dos elementos centrais da proposta de Johnson é "Conhece-te a ti mesmo", frase que remonta à Grécia antiga, ressaltando o quão pouco aprendemos sobre nossa cabeça desde Platão.

Cientistas já projetaram todos os tipos de testes e máquinas para medir o coração, o sangue e até mesmo DNA, mas os testes cerebrais continuam raros e caros, limitando drasticamente nossos dados sobre o órgão que mais nos define.

“Se você fosse ao cardiologista e ele perguntasse como está seu coração, você pensaria que ele está louco”, diz Johnson. “Você pediria a ele para medir sua pressão arterial, seu colesterol e tudo mais.”

Os primeiros capacetes da Kernel serão destinados a instituições de pesquisas cerebrais e, talvez menos nobre, empresas que desejam aproveitar os insights sobre como as pessoas idealizam seus produtos.
(Christof Koch, cientista-chefe do Instituto Allen para Ciência do Cérebro, em Seattle, chama os dispositivos do Kernel de "revolucionários")

Em 2030, Johnson pretende reduzir o preço para se equiparar ao de smartphones e colocar um capacete em todos os lares americanos – o que soa como se ele estivesse lançando uma panaceia universal.

Os capacetes, diz ele, permitirão que as pessoas finalmente levem a sério a própria saúde mental, se relacionem melhor, examinem os efeitos mentais da pandemia e até mesmo as raízes da polarização política americana.

Se o governo Biden quisesse financiar essa pesquisa, diz Johnson, ele ficaria mais do que feliz em vender um milhão de capacetes ao governo e dar a partida: “Vamos fazer o maior estudo do cérebro da história e tentar nos unir e retomar nossa trajetória de estabilidade”.

"Eu" quantificado

Johnson é meio obsessivo por aferições. Ele está na vanguarda daquilo que é conhecido como movimento do “eu” quantificado. Quase todas as células de seu próprio corpo foram repetidamente analisadas e estudadas por uma equipe de médicos, e seus testes agora o mostram como sendo dez anos mais jovem do que seus 43 anos de idade.

Nesse sentido, ele deseja que todos os outros analisem, modifiquem e aperfeiçoem suas mentes. Ninguém sabe quais serão os resultados, ou mesmo se isso é uma boa ideia, mas Johnson assumiu a responsabilidade por descobri-los.

Ao contrário de muitos de seus milionários colegas em tecnologia, Johnson cresceu relativamente pobre. Nascido em 1977, foi criado em Springville, Utah, o terceiro de cinco filhos. “Tínhamos muito pouco e vivíamos uma vida muito simples”, diz a mãe, Ellen Huff. Mórmon devota, ela ficava em casa com as crianças tanto quanto possível e ganhava uma renda modesta com o aluguel de uma unidade anexa ao sobrado da família.

Johnson se lembra da mãe tricotando suas roupas e moendo lotes de trigo comprado no atacado para fazer pão. “Não éramos como meus amigos”, diz ele. “Eles compravam coisas nas lojas, e nós simplesmente não fazíamos isso.” O pai, um coletor de lixo que virou advogado, tinha um problema com drogas e um caso extraconjugal, que o levou a se divorciar de Hellen.

Mais tarde, o atraso nos pagamentos de pensão alimentícia o não cumprimento de suas tarefas como coletor de lixo nos fins de semana e problemas legais contribuíram para sua exclusão da ordem dos advogados.

“Depois de algum tempo de desafios, há 20 anos meu pai se reinventou na vida com sucesso”, diz Johnson. “Ao longo de suas lutas, nós permanecemos próximos e sem conflitos. Ele tem sido uma fonte incrível de sabedoria, conselho e estabilidade em minha vida. ”

Johnson tinha pouca ideia do que fazer da vida até ir trabalhar numa missão eclesiástica de dois anos no Equador, onde interagiu com pessoas que viviam em cabanas com piso de terra e paredes feitas de barro e palha. “Quando voltei, a única coisa com que me importava era como fazer o melhor para a maioria das pessoas”, diz ele. “Como não tinha nenhuma habilidade, decidi me tornar empresário.”

O melhor vendedor

Enquanto estava na Universidade Brigham Young, começou o próprio negócio vendendo telefones celulares e planos de serviços, ganhando o suficiente para contratar uma equipe de vendedores. Depois disso, investiu em uma empresa de incorporação imobiliária que faliu e o deixou com uma dívida de US$ 250.000.

Para sair do buraco, conseguiu um emprego como vendedor de serviços de porta em porta, de processamento de cartão de crédito para pequenas empresas. Logo, se tornou o melhor vendedor da empresa.

Isso aconteceu em meados da década de 2000, e seus clientes não paravam de reclamar da complicação de configurar e manter sistemas de pagamento com cartão de crédito em seus sites. Então, em 2007, fundou a Braintree, uma empresa de software focada em facilitar o processo com interfaces inteligentes. Foi um sucesso – e no momento certo.

Depois de cadastrar uma série de restaurantes, lojas e outras pequenas empresas, a Braintree se tornou a intermediária de escolha para uma profusão de startups com base em pedidos de serviços online, incluindo o Airbnb, a OpenTable e o Uber.

A empresa também fez uma grande aposta em pagamentos móveis, adquirindo a Venmo por apenas US$ 26 milhões em 2012. No ano seguinte, o EBay comprou a Braintree por US$ 800 milhões em dinheiro e pouco menos da metade foi para a Johnson.

Apesar da recente onda de sorte, Johnson se sentia muito mal. Estava estressado e acima do peso. Havia casado e tido filhos muito jovem e seu casamento estava desmoronando. Estava questionando a vida, a religião e a identidade. Ele conta que entrou em uma profunda espiral depressiva que incluía pensamentos suicidas.

A decisão de vender a Braintree bem antes de atingir o pico de valor foi motivada em parte pela necessidade de Johnson de mudar esses padrões. “Depois que ganhei dinheiro, foi a primeira vez na vida que consegui eliminar todas as estruturas convencionais”, diz ele. "Eu podia fazer o que quisesse." Rompeu com a igreja mórmon, divorciou-se e mudou-se de Chicago, onde a Braintree estava sediada, indo para Los Angeles para recomeçar a vida.

Vida nova

Ao chegar na Califórnia, Johnson consultou todos os tipos de médicos e especialistas em saúde mental. Sua saúde física melhorou com grandes mudanças na dieta, exercícios e rotinas de sono. Entretanto, sua mente revelou-se um enigma mais difícil.

Fez meditação e estudou as ciências cognitivas, particularmente as maneiras como as pessoas desenvolvem preconceitos, em um esforço para se treinar para pensar de forma mais racional. No final de 2014, estava convencido de que sua riqueza seria melhor gasta promovendo a compreensão do cérebro pela humanidade.

Ele pegou grande parte do inesperado lucro e fundou a OS Fund, empresa de capital de risco que investiu em várias empresas de inteligência artificial e biotecnologia. Isso inclui a Ginkgo Bioworks, a Pivot Bio, a Synthego e a Vicarious, algumas das startups mais promissoras que trabalham na manipulação de DNA e outras moléculas.

Johnson, porém,  investiu quase toda sua fortuna na Kernel. Quando fundou a empresa, em 2015, seu plano era desenvolver implantes cirúrgicos que pudessem transmitir informações entre humanos e computadores, da mesma forma que Keanu Reeves faz o download de kung fu no próprio cérebro no filme Matrix. (No início, Johnson discutiu uma possível parceria com Elon Musk, cuja empresa, Neuralink, colocou implantes em porcos e macacos, infrutiferamente.)

A ideia era, em parte, transferir pensamentos e sentimentos diretamente de um consciência para outra, para transmitir emoções e ideias a outras pessoas de uma forma mais rica do que permite a linguagem humana.

Xamã chileno

Talvez mais importante, admitiu Johnson, a tecnologia de IA estava se tornando tão poderosa que, para a inteligência humana continuar importante, o poder de processamento do cérebro precisaria acompanhar esse ritmo.

Johnson e eu começamos a conversar sobre cérebros em meados de 2018, quando eu estava trabalhando em uma matéria que trata da sobreposição entre neurociência e software de IA. Durante uma entrevista inicial na sede de sua empresa em Venice, o bairro/praia de Los Angeles, Johnson foi cordial, mas um tanto vago sobre seus objetivos.

Mas, no final da visita, por acaso mencionei a ocasião em que passei por um ritual de cura mental que envolvia um xamã chileno queimando meu braço e despejando venenosas secreções de sapo nas feridas. (Menciono muito isso.)

Empolgado, Johnson respondeu que tinha um xamã pessoal no México e médicos na Califórnia que o orientaram em viagens mentais induzidas por drogas. Com base nesse terreno comum, ele decidiu me contar mais sobre o trabalho da Kernel e suas próprias e audaciosas práticas de saúde.

Naquela ocasião, Johnson já havia desistido dos implantes neurais em favor dos capacetes. A tecnologia necessária para fazer os implantes funcionarem é difícil de se aperfeiçoar – entre outras coisas, o corpo humano tende a turvar os sinais dos dispositivos ao longo do tempo, ou rejeitá-los imediatamente – e a cirurgia parecia improvável de se tornar popular.

Da cuca para o computador

Com os capacetes, o princípio básico permaneceu o mesmo: colocar minúsculos eletrodos e sensores o mais próximo possível dos neurônios de alguém e, em seguida, usar os eletrodos para detectar quando os neurônios disparam e retransmitir essa informação para um computador.

Observando-se um número suficiente desses neurônios disparando em um número suficiente de pessoas, pode-se muito bem começar a resolver os mistérios dos incríveis mecanismos do cérebro e como ideias e lembranças se formam.

Ocasionalmente, por quase três anos, observei enquanto a Kernel trazia os capacetes à realidade. Durante uma visita inicial à sede de dois andares da empresa em uma parte residencial de Venice, vi que a equipe de Johnson havia convertido a garagem em um laboratório óptico cheio de espelhos e lasers de última geração.

Perto da entrada estava um cubo metálico do tamanho de um galpão projetado para proteger seu conteúdo da interferência eletromagnética. No segundo andar, dezenas dos maiores neurocientistas, cientistas da computação e especialistas em materiais, estavam mexendo nas primeiras versões dos capacetes ao lado enormes quantidades de outros instrumentos elétricos.

Nesse ponto, os capacetes pareciam menos com dispositivos do século 21 e mais como algo que um cavaleiro medieval poderia usar em batalha, se, naquela época,  tivesse acesso a fios e fita adesiva.

A despeito do calibre da equipe, Johnson e seus estranhos dispositivos foram considerados como brinquedos pelo público. “As pessoas e investidores normais do Vale do Silício nem mesmo falavam conosco ou tentavam saber do que se tratava”, diz ele. “Ficou claro que teríamos que gastar tempo, e eu teria que gastar dinheiro, para mostrar algo às pessoas e demonstrar que estava funcionando.”

Um hospital ou centro de pesquisa normalmente emprega uma variedade de instrumentos para analisar o cérebro humano. A lista é uma miscelânea de siglas: fMRI (imagem de ressonância magnética funcional), fNIRS (espectroscopia de infravermelho próximo funcional), EEG (eletroencefalografia), MEG (magnetoencefalografia), PET (tomografia por emissão de pósitrons), etc.

Essas máquinas medem uma variedade de coisas, desde a atividade elétrica até o fluxo sanguíneo, e fazem isso muito bem. Elas também são enormes, caras e não podem ser facilmente montadas ​​em forma de capacete.

Interferência eletromagnética

Em alguns casos, o tamanho das máquinas deve-se em parte aos componentes que protegem a cabeça do paciente da cacofonia de interferência elétrica presente no mundo. Isso permite que os sensores evitem sinais irrelevantes e capturem apenas o que está acontecendo no cérebro.

Por outro lado, os sinais das máquinas precisam penetrar no crânio humano, que por acaso é muito bem desenvolvido para evitar qualquer penetração. Isso é parte do argumento para os implantes: eles abrigam os sensores em contato direto com os neurônios, aonde os sinais chegam em alto e bom som.

É improvável que um capacete consiga o nível de informação de um implante, mas a Kernel tem se esforçado para fechar essa lacuna diminuindo o tamanho dos sensores e encontrando engenhosas maneiras de bloquear a interferência eletromagnética.

Entre suas descobertas, a equipe de Johnson projetou lasers e chips de computador que eram capazes de ler e registrar mais atividade cerebral do que qualquer tecnologia anterior. Mês após mês, o capacete se tornou mais refinado, polido e leve à medida que a equipe fazia e refazia dezenas de protótipos.

A única dificuldade era que, para se adequar às diferentes aplicações que Johnson imaginou para o capacete, a Kernel acabou precisando desenvolver dois dispositivos separados para imitar todas as funções-chave dos equipamentos mais tradicionais.

Um dos dispositivos, chamado Flow (fluxo), parece um capacete de alta tecnologia para ciclistas, com vários painéis de alumínio escovado que envolvem a cabeça e pequenos espaços entre eles. Ao virá-lo vê-se uma fileira de sensores lá dentro. Um fio na parte traseira pode ser conectado a um sistema de computador.

Este capacete mede as mudanças nos níveis de oxigenação do sangue. À medida que partes do cérebro são ativadas e os neurônios disparam, o sangue flui para fornecer oxigênio. O sangue também carrega proteínas na forma de hemoglobina, que absorve luz infravermelha de maneira diferente ao transportar oxigênio. (É por isso que as veias são azuis, mas sangramos em vermelho.)

Fótons no cérebro

O Flow aproveita esse fenômeno disparando pulsos de laser no cérebro e medindo os fótons refletidos para identificar onde ocorreu uma alteração na oxigenação do sangue. De forma crítica, o dispositivo também mede quanto tempo demora para o pulso voltar.

Quanto mais longa a viagem, tanto mais fundo os fótons vão para o cérebro. “É uma maneira muito boa de destilar os fótons que foram para o cérebro contra aqueles que só atingem o crânio ou couro cabeludo e ricocheteiam”, diz David Boas, professor de engenharia biomecânica e diretor do Centro de Neurofotônica da Universidade de Boston.

O outro capacete da Kernel, o Flux, mede a atividade eletromagnética. Conforme os neurônios disparam e alteram seu potencial elétrico, os íons fluem para dentro e para fora das células. Este processo produz um campo magnético e se um for muito fraco e mudar seu comportamento em milissegundos, torna-se extremamente difícil de detectar.

A tecnologia da Kernel pode descobrir esses campos em todo o cérebro por meio de pequenos magnetômetros, o que oferece outra maneira de ver quais partes do órgão se acendem durante as diferentes atividades.

Os capacetes não são apenas menores do que os dispositivos que desejam substituir, mas também têm melhor largura de banda, o que significa que os pesquisadores receberão mais dados sobre as funções do cérebro.

De acordo com as melhores pesquisas atuais, o dispositivo Flow deve ajudar a quantificar tarefas relacionadas à atenção, resolução de problemas e estados emocionais, enquanto o Flux deve ser mais adequado para avaliar o desempenho do cérebro, o aprendizado e o fluxo de informações.

Talvez a coisa que mais entusiasma os cientistas sobre as máquinas da Kernel seja a mobilidade – a capacidade dos pacientes de se movimentarem usando-as nas atividades do dia a dia. “Isso abre um novo universo de pesquisa”, diz Boas.

“O que nos torna humanos é como interagimos com o mundo ao nosso redor.” Os capacetes também fornecem uma imagem de todo o cérebro, ao contrário dos implantes, que olham apenas para áreas específicas para responder a perguntas mais específicas, de acordo com Boas.

Tão logo os capacetes Kernel chegarem, Boas e seus colegas planejam observar os cérebros de pessoas que tiveram derrames ou sofrem de doenças como Parkinson. Eles querem observar o que o cérebro faz enquanto os indivíduos tentam reaprender a andar, falar e lidar com essas condições.

Varredura cerebral

A esperança é que esse tipo de pesquisa possa aprimorar as técnicas de terapia. Em vez de realizar uma varredura cerebral antes do início das sessões de terapia e outra somente depois de meses de trabalho, como é a prática hoje, os pesquisadores poderiam escanear o cérebro a cada sessão e ver quais exercícios fazem maior diferença.

Os dispositivos também estão indo para a Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard, para a Universidade do Texas e o Instituto de Estudos Avançados da Consciência (um laboratório da Califórnia focado na pesquisa de estados alterados) para estudar doenças como Alzheimer e o efeito da obesidade no envelhecimento do cérebro, como também para refinar técnicas de meditação.

A Cybin, uma startup com o objetivo de desenvolver tratamentos terapêuticos de saúde mental baseados em drogas psicodélicas, usará os capacetes para medir o que acontece quando as pessoas sob o efeito dessas drogas.

Tudo isso entusiasma Johnson, que continua a abrigar a maior das ambições para a Kernel. Ele pode ter desistido dos implantes de interface de computador, mas ainda quer que sua empresa ajude as pessoas a se tornarem algo mais do que apenas humanos.

Há alguns anos, Johnson e eu embarcamos em seu jato particular e voamos da Califórnia para Golden, no Colorado. Johnson, que tem brevê de piloto, cuidou das decolagens e pousos, mas deixou o resto para um profissional. Fomos ao Colorado para visitar uma clínica de saúde e bem-estar administrada pelo médico-guru Terry Grossman e realizar alguns procedimentos para melhorar nossos próprios corpos e mentes.

Cenário de Cocoon

O Centro de Bem-Estar  Grossman parecia um híbrido entre uma clínica médica e o cenário do filme de Cocoon. A maioria dos outros convidados era idosa. Em uma grande sala central, cerca de 10 cadeiras de couro preto e apoios para os pés combinando estavam dispostos em um círculo sem marcação.

Cada cadeira tinha um par de almofadas brancas fofas, com uma haste de metal na lateral para a aplicação de substâncias intravenosas. Algumas das placas do teto foram substituídas e equipadas com imagens de nuvens e palmeiras. Em salas laterais, o pessoal médico realizava consultas e procedimentos.

Nossa manhã começou com uma infusão intravenosa de dois fluidos antienvelhecimento: o Coquetel Myers – uma  mistura de magnésio, cálcio, vitaminas B, vitamina C e outras coisas boas – acompanhada por uma dose de NAD( Dinucleótido de nicotinamida e adenina)[1].

Algumas substâncias intravenosas podem causar náusea, mas Johnson ajustou ao máximo o gotejamento e complementou o IV com um cabo de fibra ótica inserido em suas veias para apimentar seu sangue com comprimentos de onda de luz vermelha, verde, azul e amarela para rejuvenescimento adicional. “Tenho que sentir dor quando faço exercícios ou trabalho”, disse ele, acrescentando que o sofrimento o fazia sentir-se vivo.

Algumas horas depois, Johnson foi a uma das salas de tratamento com o Dr. Grossman para tomar injeções de células-tronco aplicadas diretamente em seu cérebro. Anteriormente, ele forneceu 150 ml do próprio sangue, que foi centrifugado para que Grossman pudesse separar o plasma e submetê-lo a um processo secreto para "ativar as células-tronco".

Em seguida, Johnson dirigiu-se à maca reclinável de exames, deitado de costas com a cabeça inclinada na direção do chão. Grossman puxou uma seringa cheia de líquido. Em vez de uma agulha na ponta, havia um tubo plástico curvo de cerca de 10 centímetros de comprimento, que o médico recobriu com um pouco de gel lubrificante.

Colocou, então, o tubo em uma das narinas de Johnson, disse ao paciente para inspirar com força e, em seguida, tampou o nariz de Johnson. Eles repetiram o processo na outra narina. O procedimento parecia incrivelmente desconfortável, mas, outra vez, Johnson não se incomodou, aspirando as células-tronco com determinação e entusiasmo.

Composto psicoativo

Esse procedimento de aspiração – projetado para melhorar o humor, a energia e a memória – era apenas uma pequena parte do protocolo geral de saúde de Johnson. Todas as manhãs, o CEO tomava 40 comprimidos para estimular as glândulas, membranas celulares e o micro bioma.

Ele colocou adesivos de proteína e sprays nasais para outros finalidades. Depois de tudo isso, ele fez 30 minutos de exercícios de cárdio e 15 minutos de musculação. No almoço, tomou caldo de ossos e vegetais colhidos por seu chef nos quintais das casas de Venice.

Ele poderia fazer uma refeição leve para o jantar mais tarde, mas ele nunca consumiu nada depois das 17 horas. Foi para a cama cedo e mediu o desempenho de seu sono durante a noite. De vez em quando, um xamã ou médico adicionavam mais algumas drogas como ketamina[2] ou psilocibina[3]. Johnson adotou radicalmente essas práticas e fez uma tatuagem no braço com os dizeres "5-MeO-DMT", a fórmula molecular do composto psicoativo secretado pelo sapo do deserto de Sonora.

Para confirmar que todos os seus esforços estavam dando certo, Johnson mandou um laboratório medir seus telômeros[4]. Essas são as partes protetoras no final das fitas de DNA, que alguns cientistas vencedores do Prêmio Nobel mostraram que podem ser bons indicadores de como seu corpo está envelhecendo.

Quanto mais longos os telômeros, melhor você está se saindo. Johnson costumava se registrar internamente como 0,4 anos mais velho do que sua idade cronológica, mas após alguns anos de seu regime com Grossman, quando estava com quarenta e poucos anos, seus médicos disseram que ele estava apresentando resultados como um homem com menos de quarenta anos.

Durante uma de nossas conversas mais recentes, Johnson me disse que parou de aspirar células-tronco e fazer experiências com alucinógenos. “Consegui o que queria com essas coisas e agora não preciso disso”, diz ele. Depois de muitos testes e muitas análises, ele descobriu que funciona melhor se acordar às 4 da manhã, consumir 2.250 calorias de alimentos cuidadosamente selecionados ao longo de 90 minutos e, em seguida, não comer novamente pelo resto do dia.

A cada 90 dias, ele passa por outra bateria de testes e ajusta a dieta para neutralizar quaisquer sinais de inflamação em seu corpo. Ele vai para a cama todas as noites entre 20h e 20h30 e continua a conduzir suas métricas de sono. “Foram muitas tentativas e erros para descobrir o que funciona melhor para minha saúde”, diz ele. “Trabalhei muito para descobrir esses algoritmos”.

Em termos do que dizem nossas certidões de nascimento, Johnson e eu temos a mesma idade. Ele vai fazer 44 anos em agosto, um mês antes de mim. Para alguém como eu, que valoriza as madrugadas com amigos, comida e bebida, o estilo de vida rígido de Johnson não parece exatamente romântico.

Mas parece que está valendo a pena: quando ele fez o teste pela última vez, demonstrava  capacidade de exercício físico de alguém no final da adolescência ou início dos 20 anos, e um conjunto de DNA e outros marcadores de saúde indicaram sua idade em torno de 30. Quanto a mim, não tenho coragem de perguntar à ciência o que ela faz com minhas entranhas e continuarei comemorando meu físico de meia idade.

Na opinião de Johnson, se ele não tivesse mudado o estilo de vida, teria continuado deprimido e possivelmente morreria muito jovem. Agora ele faz o que os dados dizem e nada mais. “Causei muitos danos a mim mesmo trabalhando 18 horas por dia e dormindo embaixo de uma escrivaninha”, diz ele. “Você pode ganhar elogios de seus colegas, mas acho que esse estilo de vida muito em breve será visto como primitivo”.

Ele diz que está em guerra com seu cérebro e as tendências deste para desencaminhá-lo. “Costumava comer compulsivamente à noite e não conseguia me conter”, diz ele. “Isso me encheu de vergonha e culpa e destruiu meu sono, o que acabou com minha força de vontade. Minha mente foi terrível durante todos aqueles anos. Eu quis tirar minha mente do processo de tomada de decisão”.

Dominar a mente

As nuances em seu ponto de vista podem ser difíceis de se compreender. Johnson quer dominar a mente e empurrá-la para o lado. Ele afirma, no entanto, que nosso cérebro é defeituoso apenas porque não entendemos como ele funciona.

Colocar suficientes dispositivos da Kernel em um número suficiente de pessoas, para então poderemos descobrir por que nosso cérebro nos permite ter comportamentos viciantes e debilitantes – para tomar decisões imprudentes e nos enganar.

“Quando você começa a quantificar a mente, faz do pensamento e da emoção uma disciplina da engenharia”, diz ele. “Esses pensamentos abstratos podem ser reduzidos a números. Conforme você mede, você avança de forma positiva, e a quantificação conduz a intervenções”.

É claro que nem todo mundo vai querer tomar decisões com base no que o capacete diz que sua atividade cerebral significa. Tirar as decisões dos padrões de pensamento – ou  analisá-las para fins de pesquisa de mercado e design de produto – levanta suas próprias questões, talvez mais assustadoras, sobre o futuro do organismo humano. E isso se os dispositivos Kernel puderem atingir as metas mais ambiciosas da empresa.

Enquanto as grandes e caras máquinas dos hospitais nos ensinam sobre o cérebro há décadas, nossa compreensão do nosso órgão mais valioso permaneceu, em muitos aspectos, bastante simples. É possível que a montanha de novos dados da Kernel não seja do tipo que se traduza em grandes avanços.

Os pesquisadores do cérebro que são mais céticos em relação a esforços como o de Johnson geralmente argumentam que novos insights sobre como o cérebro funciona – e, finalmente, grandes saltos nas interfaces cérebro-máquina – exigirão implantes.

No entanto, cientistas que observaram a jornada de Kernel comentam sobre como a empresa evoluiu ao lado de Johnson, um estranho no campo. “Todos os que ele recrutou para a Kernel são incríveis e ele conseguiu ouvi-los e motivá-los”, disse o neurocientista do MIT, Edward Boyden. “Ele não possuía formação científica, mas fez perguntas muito boas”.

O teste agora será para ver como os dispositivos da empresa funcionam no campo e se eles realmente podem criar um mercado totalmente novo onde os consumidores comprem capacetes Flow e Flux junto com seus acessórios Fitbits e Oura. “Há muitas oportunidades”, diz Boyden. “É uma situação de alto risco e alto retorno”.

Se as teorias de Johnson estiverem corretas e os dispositivos da Kernel provarem ser tão poderosos quanto ele espera, ele será, em certo sentido, a primeira pessoa a desencadear um tipo mais amplo e esclarecido do despertar de dados. Ele recentemente iniciou um programa destinado a quantificar o desempenho de seus órgãos em um grau sem precedentes.

Enquanto isso, está participando de vários experimentos com os capacetes da Kernel e ainda busca por maneiras de fundir IA com o corpo físico. “Somos a primeira geração na história do Homo Sapiens que poderia olhar para nossas vidas e imaginar a evolução para uma forma inteiramente nova de existência consciente”, diz Johnson. “As coisas que estou fazendo podem criar uma ponte para os humanos usarem, onde nossa tecnologia se tornará parte de nós mesmos”.


[1] A nicotinamida adenina dinucleótido (NAD) é uma coenzima essencial no corpo humano e participa de diversos processos biológicos.

[2]  anestésico, com aplicação hipnótica e aspecto analgésico, foi aperfeiçoado a partir da década de 60.

[3] psilocibina é um alcaloide com estrutura análoga a da serotonina. Possui atividade alucinógena, produzindo efeitos como alucinações e distúrbios sensoriais, sendo encontrada em determinadas espécies de cogumelos. Utilizada desde os tempos ancestrais em rituais, com relatos de mais de 3000 anos. Foi extensivamente utilizada na década de 1960, quando acontecia o movimento hippie.

[4] Telômeros são sequências repetitivas de DNA que existem nas extremidades de todos os cromossomos humanos.

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