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Brasil vai consumir 885 milhões de litros de cerveja zero — e disputa entre gigantes acelera

Categoria cresce mais de 500% em dois anos e transforma o mercado, puxada pela geração Z e por avanços tecnológicos na produção

Daniel Giussani
Daniel Giussani

Repórter de Negócios

Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 06h02.

Última atualização em 28 de janeiro de 2026 às 14h43.

Basta sair com amigos em um bar para notar um fenômeno que ganha força a cada dia: alguém certamente pedirá cerveja sem álcool.

A previsão da Euromonitor, num dado recente e atualizado à EXAME, é que os brasileiros consumam 885 milhões de litros de cerveja sem álcool em 2026. O número é quase sete vezes maior que o registrado em 2019.

A expansão chama atenção por não ser pontual: desde 2020, o volume vendido cresce de forma contínua, com taxas acima de dois dígitos por ano. E claro, tem despertado a atenção de gigantes como Ambev, Heineken e Grupo Petrópolis.

Hoje, as três marcas têm 95% do mercado dos "sem álcool" no Brasil. Na fábrica da Ambev em Lages, na serra catarinense, por exemplo, há produção das três marcas do grupo em versões zero: a Brahma, a Budweiser e a Corona. No Petrópolis, as vendas de bebidas sem álcool subiu 27% desde 2022.

A bebida está tão em alta que o Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv) vai dar uma atenção a mais para o segmento. Lançou até um site, o Cerveja Zero, para discutir o tema. A plataforma reúne dados, explicações técnicas e curiosidades, e marca uma tentativa da indústria de liderar a narrativa sobre o consumo consciente.

"A proposta é dar mais informação qualificada e esclarecer dúvidas frequentes de consumidores, jornalistas e das demais pessoas interessadas no tema", afirma Márcio Maciel, presidente-executivo do Sindicerv. Ele diz que a evolução da categoria reflete uma exigência crescente do público: “O brasileiro está buscando mais equilíbrio e liberdade na hora de consumir cerveja. As versões sem álcool oferecem isso com sabor, qualidade e inovação”, diz.

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Um salto de 536% em dois anos

A produção de cerveja sem álcool no Brasil cresceu 536% entre 2023 e 2024, segundo o Anuário da Cerveja.

O volume saltou de 118,9 milhões para 757,4 milhões de litros. A estimativa para 2025 é de um novo recorde: 786 milhões de litros.

O avanço colocou o Brasil como segundo maior mercado de cerveja sem álcool do mundo, atrás apenas da Alemanha. Em 2018, o país ocupava a 7ª posição.

Parte dessa guinada vem do comportamento da geração Z.

Dados da MindMiner mostram que apenas 45% dos jovens com menos de 25 anos consomem bebidas alcoólicas — o menor índice desde 1962. Questões de saúde mental, autocontrole e bem-estar estão por trás dessa decisão.

“Percebemos uma mudança no padrão de cuidados com a saúde na população. As cervejas sem álcool estão ganhando cada vez mais espaço porque as pessoas estão mais preocupadas com os efeitos do álcool”, diz Renata Saffioti, nutricionista esportiva comportamental.

Corrida tecnológica entre gigantes

O avanço da categoria também obrigou as líderes do mercado a reagir com tecnologia.

Ambev, Heineken e Grupo Petrópolis concentram 95% das vendas de cerveja no Brasil, segundo a Euromonitor. Todas têm linhas zero em expansão.

A unidade da Ambev em Lages, Santa Catarina, é hoje o centro de produção das versões zero álcool da Brahma, Budweiser e Corona. Em 2013, a empresa instalou uma planta específica de desalcoolização, etapa extra que remove o álcool sem comprometer sabor e aroma. No conjunto das marcas, a Ambev lidera este mercado no Brasil.

“Quando o processo de produção de cerveja sem álcool começou, não tínhamos tanta tecnologia como temos hoje, que permite preservar todos os aromas e características da cerveja regular”, afirma Claudia Alves Costa, gerente da fábrica da Ambev.

Apesar de usar os mesmos ingredientes da cerveja tradicional, a versão sem álcool passa por uma etapa extra entre a maturação e a filtração, onde o álcool é retirado. Esse processo exige equipamentos caros e ajustes finos, o que explica a resistência de algumas cervejarias menores em entrar nesse mercado.

Já a Heineken, cuja Heineken 0.0 é a que tem maior penetração nos lares e a mais vendida no Brasil, investiu recentemente 1,5 bilhão de reais na expansão da fábrica de Ponta Grossa. A fábrica faz a produção de chope Heineken 0.0, assim como as cervejas sem álcool Heineken 0.0 em latas 269ml, e Sol 0.0, lançada no ano passado. 

Desafios: sabor, preconceito e preço

Mesmo com a popularidade crescente, a categoria ainda enfrenta resistência.

Há consumidores que duvidam do sabor, associam o produto à restrição médica ou consideram o preço elevado. Em geral, as cervejas zero custam o mesmo que as versões com álcool, ou até mais, dependendo do processo de fabricação.

Outro desafio é manter a percepção de qualidade.

A ausência de álcool pode comprometer a experiência sensorial, exigindo mais testes e controle de qualidade.

“A indústria entendeu esse movimento e vem investindo pesado em tecnologia para entregar produtos que não deixam nada a desejar às versões tradicionais”, afirma Maciel, do Sindicerv.

Mais do que substituir a cerveja tradicional, a versão zero disputa espaço com outras bebidas leves ou não alcoólicas, como kombuchas, águas saborizadas e refrigerantes premium. A mudança é comportamental — e não só etílica.

Enquanto o mercado se ajusta, a previsão da Euromonitor para 2026 deixa claro o potencial: 885 milhões de litros consumidos no Brasil. Um novo normal para o setor cervejeiro.

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