Assunção, capital do Paraguai: brasileiros responderam por 76% das residências concedidas pelo país no período de seis meses citado pelo estudo (cerca de 22.600 brasileiros) (Donyanedomam/Getty Images)
Repórter
Publicado em 27 de agosto de 2026 às 13h47.
Última atualização em 2 de setembro de 2026 às 14h22.
O Brasil se consolidou como o principal destino de capital estrangeiro na América Latina. Em 2025, o país recebeu US$ 77,67 bilhões em Investimento Estrangeiro Direto (IED), o equivalente a 40% de todo o volume destinado à região, segundo o relatório “Programas de Migração por Investimento na América Latina: Uma Análise Comparativa”, da consultoria internacional Global Citizen Solutions.
O montante representa uma alta de 4,8% em relação a 2024, quando os aportes estrangeiros no país somaram US$ 74,1 bilhões. O avanço reforça a posição brasileira como principal porta de entrada do capital internacional na região.
Por trás do resultado está uma combinação que vai do tamanho e dinamismo do mercado brasileiro à expansão da infraestrutura digital.
Tecnologia, inteligência artificial, data centers, energia e fusões e aquisições passaram a ganhar espaço na atração de recursos, ao lado de setores nos quais o Brasil tradicionalmente já tem relevância, como agronegócio, mineração e indústria.
“A liderança brasileira é impulsionada principalmente pela transição global rumo às economias digital e verde, além do tamanho e dinamismo do seu mercado”, afirma Patricia Casaburi, CEO e fundadora da Global Citizen Solutions.
Segundo a executiva, houve uma mudança relevante no destino do capital estrangeiro.
“Houve uma transição em massa para investimentos em infraestrutura tecnológica e inteligência artificial, além de um mercado aquecido de fusões e aquisições.”
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O protagonismo brasileiro no fluxo de recursos, porém, apresenta um contraste.
Apesar de receber 40% do IED da região, o Brasil aparece somente na 7ª posição entre 11 programas latino-americanos de residência por investimento avaliados pela Global Citizen Solutions.
O ranking considera quatro fatores:
Patricia Casaburi, CEO e fundadora da Global Citizen Solutions: “A liderança brasileira é impulsionada principalmente pela transição global rumo às economias digital e verde, além do tamanho e dinamismo do seu mercado” (Global Citizen Solutions,/Divulgação)
O Panamá lidera, com 84,4 pontos, seguido por Paraguai, com 80,1. Veja os 10 países que possuem os melhores programas de residência por investimento na América Latina:
“A discrepância do Brasil ocorre porque o ranking de programas de residência avalia critérios regulatórios específicos, e não apenas o volume de IED”, diz Casaburi.
Para ela, o problema brasileiro não está somente nas regras existentes. Há uma diferença entre o potencial do programa e sua capacidade de chegar ao investidor internacional.
“Existe uma grande lacuna entre as regras brasileiras, que são favoráveis, e a demanda real. Faltam campanhas de promoção no exterior e atuação de consultorias internacionais divulgando as rotas brasileiras.”
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A disputa por esse investidor também começa a mudar de geografia.
Durante anos, países europeus estiveram entre os principais destinos de programas de residência por investimento. Algumas dessas portas, porém, ficaram mais estreitas.
Segundo Casaburi, a Espanha encerrou seu Golden Visa em 2025, Portugal retirou a rota imobiliária de seu programa e a Grécia aumentou o investimento exigido em áreas nobres de € 250 mil para € 800 mil.
“Esse recuo europeu é um dos principais fatores que redirecionam a atenção para a América Latina”, afirma.
Na região, Panamá e Paraguai aparecem como concorrentes especialmente eficientes. O primeiro oferece uma ampla variedade de ativos elegíveis, enquanto o segundo combina tributação mais baixa e exigências reduzidas de presença física.
O Paraguai, inclusive, protagoniza um movimento curioso para o Brasil: brasileiros responderam por 76% das residências concedidas pelo país no período de seis meses citado pelo estudo (cerca de 22.600 brasileiros). A consultoria ressalta que o número engloba residências em geral, e não apenas vistos para investidores.
“O Paraguai se destaca como 2º colocado no ranking do relatório devido à sua alta atratividade fiscal, rápida velocidade de processamento e regras simplificadas de residência, sendo utilizado por profissionais e empresários para otimização tributária, diversificação e gestão de riscos locais”, afirma a executiva.
Outro país que poderá atrair residentes internacionais é a Argentina, afirma Casaburi.
“A Argentina é o país a ser observado no médio prazo: está desenvolvendo a primeira rota direta de cidadania por investimento da região, embora os valores e a data de lançamento ainda não tenham sido definidos.”
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Uma das principais apostas para a próxima onda de investimentos está na infraestrutura necessária para sustentar o avanço da inteligência artificial - no Brasil, por exemplo, esse setor estimulou muito o investimento de US$ 77,7 bilhões do último ano.
O levantamento global cita, entre os exemplos, um investimento de US$ 2,7 bilhões da Microsoft em infraestrutura de nuvem e IA no Brasil, além da escolha do país pela Alibaba Cloud para instalar seu primeiro data center na América Latina.
A expansão é estratégica porque sistemas de IA exigem capacidade crescente de processamento, armazenamento de dados e, principalmente, energia.
Para Casaburi, o Brasil tem condições de se tornar um dos principais polos dessa indústria na região, sobretudo pela combinação entre infraestrutura tecnológica e disponibilidade de energia limpa.
“O setor de tecnologia, IA e data centers combinado com a infraestrutura de energia verde para sustentá-lo aparece como uma das maiores oportunidades para a atração de novos bilhões”, diz a executiva.
Nesse mapa latino-americano, outros países levam vantagem em determinados minerais críticos — como Chile, Argentina e Bolívia no lítio e Chile e Peru no cobre.
O Brasil, por sua vez, reúne dois ativos importantes: uma matriz energética com forte presença de fontes renováveis e sua posição consolidada como potência agrícola.
Microsoft: entre os grandes investimentos, o estudo cita Microsoft com US$ 2,7 bilhões em infraestrutura de nuvem e IA no Brasil e Alibaba Cloud que escolheu o Brasil para instalar seu primeiro data center na América Latina (Divulgação/Getty Images)
Outro motor da entrada de capital no país está no mercado de fusões e aquisições (M&A). Em 2025, o Brasil registrou 1.877 transações, uma alta de 7,6% em relação ao ano anterior, segundo dados da TTR Data citados pelo relatório.
As operações com valores divulgados movimentaram R$ 313,5 bilhões — cerca de US$ 58 bilhões, montante 15,8% superior ao registrado em 2024.
O perfil dos investidores também está mudando.
Segundo Casaburi, houve avanço de empresas e capital asiático e norte-americano, especialmente no setor de tecnologia. Ao mesmo tempo, investidores de alto patrimônio passaram a olhar a alocação internacional de recursos não apenas como uma decisão de retorno financeiro.
“A mobilidade e a alocação de capital deixaram de ser apenas escolhas de estilo de vida para se tornarem ferramentas de gestão de risco e diversificação de portfólio”, afirma.
A executiva identifica ainda uma migração de investimentos mais passivos para fundos, empresas e empreendedorismo, aproximando a decisão de residência da estratégia patrimonial do investidor.
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Essa lacuna aparece com mais clareza nos números.
Nos últimos cinco anos, menos de 700 candidatos utilizaram a modalidade brasileira de residência vinculada ao investimento imobiliário, segundo o relatório. A consultoria atribui a baixa procura principalmente ao desconhecimento do programa no exterior e à menor presença do Brasil entre empresas internacionais especializadas em mobilidade de investidores.
O contraste é relevante porque as portas de entrada brasileiras não exigem necessariamente patrimônios comparáveis aos chamados golden visas europeus.
Segundo a pesquisa, há modalidades relacionadas a inovação e tecnologia a partir de US$ 30 mil, constituição de empresas a partir de US$ 100 mil e imóveis a partir de US$ 125 mil, dependendo das condições aplicáveis a cada rota.
"O investidor que procura essas alternativas está interessado principalmente em “diversificação de portfólio, segurança de residência e alinhamento com prioridades econômicas”, diz Casaburi.
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Por trás da corrida por programas de residência está uma transformação no comportamento dos indivíduos de alto patrimônio.
O Brasil reúne aproximadamente 386 mil milionários em dólares, a maior população desse grupo na América Latina, segundo os dados utilizados pelo levantamento.
Casaburi afirma que, para esse público, ter residência em outro país deixou de significar apenas a possibilidade de morar no exterior.
“Atualmente, os investidores priorizam jurisdições que ofereçam estabilidade legal sustentável em vez de soluções rápidas”, afirma.
A segunda residência, segundo a executiva, passa a atuar principalmente como uma apólice de seguro e ferramenta de diversificação de ativos.
Tributação e facilidade de acesso a um segundo passaporte continuam relevantes, mas passam a dividir espaço com segurança jurídica, estabilidade política e econômica e proteção patrimonial.
Nesse cenário, o Brasil entra na disputa com uma situação incomum: já conseguiu convencer o capital estrangeiro a entrar no país em escala bilionária, mas ainda não transformou a mesma força econômica em uma indústria relevante de atração de investidores como residentes.
Com US$ 77,67 bilhões captados em um único ano, o desafio agora é converter a liderança regional em IED em uma vantagem também na disputa global por patrimônio, empreendedores e investidores de alto poder aquisitivo.
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Os dados de IED não são provenientes de pesquisas de opinião. Trata-se de estatísticas de balanço de pagamentos compiladas segundo o padrão BPM6 do FMI a partir de fontes oficiais nacionais, atualizadas até 17 de abril de 2026 e publicadas pela CEPAL. O relatório contém uma pesquisa realizada on-line entre março e maio de 2026 junto a agências nacionais de promoção de investimentos, com respostas de 15 países.