Bill Gates e Melinda French se divorciam oficialmente. O que está em jogo?

O casal pediu o divórcio em 3 de maio, após 27 anos de casamento, mas prometeu continuar seu trabalho filantrópico juntos

O divórcio entre Bill Gates e Melinda French Gates, cofundadores de uma das maiores fundações de caridade privadas do mundo, foi finalizado nesta segunda-feira, de acordo com o Business Insider, citando documentos judiciais.

A ordem final de divórcio apresentada pelo tribunal afirmou que os dois concordaram com um "contrato de separação" que não foi apresentado no processo de divórcio. O contrato inclui como os dois irão dividir suas propriedades, dívidas e custos judiciais. Como os filhos de Gates tem 18 anos ou mais, os tribunais não estabeleceram um plano de cuidados aos pais ou de pensão alimentícia.

O casal pediu o divórcio em 3 de maio, após 27 anos de casamento, mas prometeu continuar seu trabalho filantrópico juntos. A Fundação Bill & Melinda Gates, sediada em Seattle, tornou-se uma das forças mais poderosas e influentes na saúde pública global, com gastos superiores a 50 bilhões de dólares nas últimas duas décadas para promover uma abordagem empresarial para combater a pobreza e as doenças.

Fortuna

Antes do divórcio, o casal detinha uma fortuna estimada em US$ 146 bilhões, segundo o Índice de Bilionários da Bloomberg. Aos 65 anos, Bill Gates, cofundador da Microsoft, é a quarta pessoa mais rica do mundo. Melinda, de 56 anos, ex-gerente da Microsoft que ganhou destaque internacional ao dividir com o ex-marido a gestão da Bill & Melina Gates Foundation. A instituição soma mais de US$ 50 bilhões em doações.

Este foi o segundo divórcio bomba no topo dos mais ricos do planeta nos últimos anos, após o anúncio da separação de Jeff Bezos e MacKenzie Scott, em 2019.

Neste caso, que dividiu a fatia do casal na Amazon, fez de imediato com que MacKenzie entrasse na lista dos mais ricos. Nos meses seguintes à separação, ela se tornou uma das mais influentes filantropas do mundo, doando bilhões de dólares para causas geralmente ignoradas por doadores bilionários.

Para Bill e Melinda Gates, porém, dividir os ativos será um desafio maior do que no caso da fortuna de Bezos, fortemente concentrada em ações da Amazon.

O patrimônio líquido de Bill Gates originou-se da Microsoft, mas as ações do fabricante do software agora provavelmente representam menos de 20% de seus ativos. Ele passou grande parte de sua participação na companhia para a Fundação Bill & Melinda Gates ao longo dos anos e sua fatia exata não foi divulgada desde que ele deixou o conselho da Microsoft no ano passado.

O maior ativo de Gates é a Cascade Investment, uma holding criada por ele usando ganhos que obteve com dividendos e vendas de ações da Microsoft e que é gerida por Michael Larson. Por meio da Cascade, Bill Gates detém participações em ativos imobiliários, de energia, hospitalidade, além de fatias em empresas públicas, incluindo a Canadian National Railway e a Deere & Co.

Monica Mazzei, advogada especializada em divórcio e sócia da Sideman & Bancroft LLP em San Francisco, avalia que a grande questão em relação à fundação do casal é até que ponto eles planejam trabalhar juntos no futuro.

— Mesmo nos divórcios mais amigáveis que já acompanhei, a preferência tem sido por dividir uma fundação em duas para garantir mais autonomia e menos compartilhamento — afirma ela.

O mesmo princípio se aplica a empresas familiares, onde investimentos poderiam ser divididos ao meio.

A legislação federal dá algumas pistas sobre como poderão dividir suas posses. Com regime de comunhão de bens, tudo o que é adquirido durante o casamento é considerado de propriedade do casal, mas isso não significa necessariamente que a fortuna será dividida ao meio.

— Não é mandatório dividir 50%-50% — destaca Janet George, advogada de família da McKinley Irvin, em Washington. — Os tribunais podem decidir por mais ou menos, dependendo do que for justo e equitativo.

E é possível que o público jamais tome conhecimento de como eles dividiram sua fortuna, continua ela, porque a partilha pode ser escondida por meio de contratos privados.

Motivação

Após o anúncio do divórcio, não demorou muito para que rumores começassem a surgir sobre os motivos da separação. De acordo com o jornal americano Wall Street Journal, a aproximação de Bill Gates com Jeffrey Epstein fez Melinda consultar sobre divórcio já em 2019.

Mas, quem seria Jeffrey Epstein? Durante mais de duas décadas, o criminoso desenvolveu uma rede de abuso sexual e tráfico de mulheres, muitas menores de idade. Ao mesmo tempo, ele tinha contato com grandes nomes como Donald Trump, Bill Clinton e príncipe Andrew, segundo filho da Rainha da Inglaterra.

Durante a década de 2000, pouco se sabia sobre Epstein além do fato de que o magnata tinha uma enorme riqueza, distribuída em imóveis em Palm Beach, na Flórida, Nova Iorque e Paris; uma fazenda no Novo México; uma ilha particular no Caribe; um helicóptero e dois aviões, sendo um deles um Boeing 727. Até hoje, ninguém sabe dizer ao certo de onde veio todo o dinheiro do financista.

Em 2005, a denúncia de uma mulher em Palm Beach traria mais informações sobre a vida do magnata. Epstein foi acusado de pagar 300 dólares a uma garota de 14 anos para massageá-lo. A menina havia sido convidada por outra mais velha e, no decorrer das investigações, outras 35 vítimas foram identificadas.

O que acontecia era uma forma de esquema de pirâmide: a menina era convidada por outra para ir na casa de Epstein, acreditando que estaria acompanhada em todos os momentos e, portanto, segura. Ao chegar lá, a vítima era abandonada pela colega, que recebia um dinheiro extra por trazer novas garotas, e abusada por Epstein. Como as adolescentes recebiam uma quantia a mais por convidar outras, o crime se multiplicava.

Epstein não agia sozinho: o criminoso teve uma associação de décadas com a socialite britânica Ghislaine Maxwell, que, ao que tudo indica, ajudava o criminoso a encontrar as garotas. Algumas vítimas chegaram a reportar que Maxwell participou de alguns abusos. Ela foi presa pelo FBI em julho de 2020 após tais alegações de aquisição e tráfico sexual de menores de idade.

Conexões de Epstain com poderosos

A ilha no Caribe e o jatinho, apelidado de Lolita Express, de Epstein chegaram a receber pessoas como o ator Kevin Spacey, acusado de assédio sexual em 2017, a modelo Naomi Campbell, Bill Gates, Bill Clinton, príncipe Andrew e o advogado e professor de Direito em Harvard, Alan Dershowitz.

Além de celebridades, o jatinho era supostamente usado para transportar mulheres, muitas menores de idade, para serem "emprestadas" para os colegas de Epstein. Uma das vítimas, Virginia Giuffre, disse que Epstein a usou como "escrava sexual" quando ela tinha 16 anos para homens que “incluem a realeza, políticos, acadêmicos, empresários, entre outros conhecidos profissionais e pessoais”.

Giuffre é a vítima principal no caso contra príncipe Andrew. Ela afirma que foi abusada pelo membro da realeza em uma viagem para a ilha no Caribe. Uma de suas maiores provas é uma foto tirada na mansão de Epstein, com Andrew e Maxwell ao seu lado.

Na época, o palácio de Buckingham negou as alegações da vítima e do piloto David Rodgers, que afirmou ter transportado o príncipe e uma garota de 17 anos ao menos duas vezes pelo Lolita Express.

No caso de Bill Clinton, ex-presidente dos Estados Unidos, registros de voos publicados pela Fox News mostram que Clinton usou o Lolita Express ao menos 26 vezes entre 2002 e 2005. Clinton nega que foi para a ilha de Epstein e diz que só viajou 4 vezes no jatinho para "realizar viagens com finalidade política".

Donald Trump é perseguido por inúmeras fotos com Epstein entre as décadas de 1990 e 2000, além de uma entrevista feita para a revista New York em 2002 na qual ele afirma: "Eu conheço Jeffrey Epstein há 15 anos. É um cara incrível. Dizem que ele gosta de mulheres bonitas tanto quanto eu, e muitas delas são mais jovens."

Cinco anos depois, em 2007, Trump supostamente teria banido Epstein do resort Mar-A-Lago por "perseguir mulheres jovens" e, após as acusações de Epstein virem à tona enquanto Trump era presidente dos Estados Unidos, o mesmo negaria ter sido amigo do criminoso.

De acordo com o New York Times, Bill Gates começou seu relacionamento com Epstein em 2011, alguns anos após o magnata voltar da prisão. Colegas de Gates, na época da publicação da matéria, afirmaram que o fundador da Microsoft tinha enviado um e-mail dizendo que o estilo de vida de Epstein "era muito diferente e meio intrigante, embora não funcione para mim".

Ao que se aparentava, a conexão de Gates e Epstein era fundada na filantropia. Porém, como se sabe hoje, a amizade entre os dois foi o que levou Melinda Gates a ligar diversas vezes para seu advogado em 2019 e pedir orientação sobre o divórcio, afirmando que o "casamento já estava quebrado".

De acordo com Maxwell e algumas outras vítimas, todos os imóveis de Epstein tinham câmeras escondidas. Acredita-se que os dispositivos, que estavam até em quartos e banheiros, eram para registrar as atividades sexuais entre garotas menores de idade e os políticos, celebridades e afins, para chantagem.

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(Com Reuters e Agência O Globo)

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